210 - Por que o Rito Escocês Antigo e Aceito tem esse nome?

Da Redação

Entre os diversos ritos praticados pela Maçonaria, poucos despertam tanta curiosidade quanto o Rito Escocês Antigo e Aceito, conhecido mundialmente pela sigla R E A A.

Mas uma pergunta aparentemente simples merece uma resposta histórica: por que ele se chama Escocês, Antigo e Aceito?

A resposta não está em um único acontecimento. O nome é resultado de uma história complexa, construída ao longo do século XVIII e consolidada no início do século XIX.

Por que “Escocês”?

A palavra “Escocês” pode provocar uma interpretação imediata: a de que o rito teria sido criado na Escócia.

Historicamente, porém, a questão é mais complexa.

O chamado Escocismo desenvolveu-se principalmente na França durante o século XVIII, embora tenha recebido influências associadas aos maçons escoceses e irlandeses e às tradições maçônicas que circulavam entre diferentes países europeus.

Segundo a Grande Loge Nationale Française, o chamado “Escocismo” surgiu na França na segunda metade do século XVIII, embora o termo estivesse relacionado a tradições e influências escocesas

A expressão “Escocês” passou a identificar determinados graus e sistemas de aperfeiçoamento que se diferenciavam da Maçonaria simbólica tradicional.

Portanto, o nome não deve ser entendido simplesmente como uma indicação geográfica.

Por que “Antigo”?

A palavra “Antigo” está relacionada à história da divisão entre os chamados Antigos (Antients) e os Modernos (Moderns) na Maçonaria inglesa do século XVIII.

Em 1753, foi constituída a Grande Loja dos “Antients”, que afirmava preservar antigos usos e tradições maçônicas que seus membros consideravam diferentes daqueles praticados pela Grande Loja dos Modernos.

O termo “Antigo”, portanto, está associado à ideia de retorno ou preservação de usos considerados tradicionais.

Existe aí uma curiosa ironia histórica: aquilo que se apresentava como “antigo” fazia parte de uma disputa e de uma reorganização relativamente recente da Maçonaria.

Por isso, “Antigo” não significa necessariamente que o REAA seja o rito mais antigo da Maçonaria.

E por que “Aceito”?

A palavra “Aceito” possui uma história ainda mais interessante.

Nas origens da Maçonaria, a atividade estava ligada às corporações de construtores. Com o desenvolvimento da Maçonaria especulativa, homens que não pertenciam profissionalmente ao ofício da construção passaram a ser recebidos nas lojas.

Esses homens eram os chamados “maçons aceitos”.

A própria ideia de “aceitação” representa, portanto, a ampliação da Maçonaria para além dos trabalhadores diretamente ligados ao ofício.

A Grande Loge Nationale Française explica o termo “Aceito” como referência à aceitação, nas lojas simbólicas, de membros exteriores ao ofício.

Um rito construído ao longo do tempo

Outro ponto fundamental é compreender que o RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO não apareceu pronto, de uma única vez.

Sua formação foi resultado de diferentes sistemas de graus, manuscritos, rituais e tradições que foram sendo combinados e transformados ao longo do século XVIII.

Fontes históricas situam importantes antecedentes do sistema em meados daquele século. A própria expressão “Rito Escocês” aparece associada ao desenvolvimento do chamado Escocismo francês e aos sistemas de altos graus que se multiplicaram naquele período.

Um dos caminhos fundamentais passou pelo chamado Rito de Perfeição, associado aos 25 graus e às tradições que posteriormente influenciariam a formação do RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO.

Étienne Morin teve papel importante na transmissão dessas tradições para o Caribe, e posteriormente o sistema chegou à América do Norte.

Foi nesse ambiente que ocorreu uma etapa decisiva de organização.

Charleston e os 33 graus

Em 31 de maio de 1801, foi criado em Charleston, nos Estados Unidos, o primeiro Supremo Conselho do grau  33 para a jurisdição sul dos Estados Unidos.

Esse acontecimento é considerado um marco fundamental na constituição do sistema que conhecemos como Rito Escocês Antigo e Aceito.

Poucos anos depois, o sistema chegou à França.

Em 1804, Alexandre François Auguste de Grasse-Tilly participou da criação do Supremo Conselho do 33º grau na França.

A partir daí, o R E A A passou por novos processos de organização, adaptação e desenvolvimento.

Isso mostra por que é difícil apontar uma única cidade ou país como o lugar onde todo o rito foi simplesmente “inventado”.

Um nome que conta uma história

Quando observamos as quatro palavras — Rito, Escocês, Antigo e Aceito — percebemos que elas carregam diferentes momentos da história maçônica.

“Rito” indica um sistema organizado de práticas e ensinamentos.

“Escocês” está relacionado ao fenômeno histórico do Escocismo e às tradições que receberam essa denominação.

“Antigo” remete à reivindicação de continuidade com antigos usos maçônicos e à tradição dos Antients.

“Aceito” recorda a transformação histórica da Maçonaria, que passou a receber homens que não pertenciam profissionalmente ao antigo ofício dos construtores.

O nome, portanto, é quase uma pequena síntese da história da Maçonaria moderna.

Mais francês e americano do que parece

Talvez uma das maiores surpresas para quem começa a estudar o Rito Escocês Antigo e aceito seja descobrir que sua história não pode ser explicada apenas pela Escócia.

O próprio desenvolvimento do Escocismo ocorreu de maneira importante na França. Posteriormente, sistemas de graus foram levados ao Caribe e à América do Norte, onde novas etapas de organização aconteceram.

O Supremo Conselho de França, por exemplo, situa a criação inicial do Rito Escocês Antigo e aceito em Charleston, em 1801, seguida pela criação do Supremo Conselho francês em 1804.

Assim, o Rito Escocês Antigo e aceito pode ser compreendido como resultado de uma longa circulação internacional de homens, ideias, graus, manuscritos e tradições maçônicas.

A importância de conhecer a origem do nome

Conhecer a origem do nome não é apenas uma curiosidade histórica.

Quando um maçom compreende que cada palavra possui uma história, passa também a perceber que os ritos não são estruturas imóveis.

Eles foram construídos, reorganizados e interpretados por diferentes gerações.

O Rito Escocês Antigo e aceito que conhecemos hoje é resultado desse processo histórico.

Por isso, estudar sua origem é também compreender que a tradição maçônica não surgiu pronta. Ela foi sendo construída ao longo do tempo, preservando elementos antigos, incorporando novas interpretações e atravessando diferentes culturas.

Conclusão

A pergunta “por que o Rito Escocês Antigo e Aceito tem esse nome?” parece simples, mas sua resposta nos conduz por vários séculos de história maçônica.

O termo “Escocês” não significa que o rito tenha simplesmente nascido na Escócia.

“Antigo” não quer dizer que todo o sistema seja anterior aos demais ritos maçônicos.

E “Aceito” recorda a transformação da Maçonaria e a entrada de homens que não pertenciam ao antigo ofício dos construtores.

O Rito Escocês Antigo e aceito é, portanto, o resultado de uma história muito mais ampla: escocesa em algumas de suas referências, francesa em etapas decisivas de seu desenvolvimento e americana em sua organização como sistema de 33 graus.

Estudar essa trajetória permite olhar para o rito não apenas como uma sequência de graus e cerimônias, mas como o resultado de uma longa experiência histórica da Maçonaria.

E talvez seja justamente essa a maior riqueza do Rito Escocês Antigo e aceito: seu nome não é apenas um nome. É uma história condensada em quatro palavras.

 


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