Da Redação
Entre
os diversos ritos praticados pela Maçonaria, poucos despertam tanta curiosidade
quanto o Rito Escocês Antigo e Aceito,
conhecido mundialmente pela sigla R E A A.
Mas
uma pergunta aparentemente simples merece uma resposta histórica: por que ele se chama Escocês, Antigo e Aceito?
A
resposta não está em um único acontecimento. O nome é resultado de uma história
complexa, construída ao longo do século XVIII e consolidada no início do século
XIX.
Por
que “Escocês”?
A
palavra “Escocês” pode provocar uma interpretação imediata: a de que o rito
teria sido criado na Escócia.
Historicamente,
porém, a questão é mais complexa.
O
chamado Escocismo desenvolveu-se
principalmente na França durante o século XVIII, embora tenha recebido
influências associadas aos maçons escoceses e irlandeses e às tradições
maçônicas que circulavam entre diferentes países europeus.
Segundo
a Grande Loge Nationale Française, o chamado “Escocismo” surgiu na França na
segunda metade do século XVIII, embora o termo estivesse relacionado a
tradições e influências escocesas
A
expressão “Escocês” passou a identificar determinados graus e sistemas de
aperfeiçoamento que se diferenciavam da Maçonaria simbólica tradicional.
Portanto,
o nome não deve ser entendido simplesmente como uma indicação geográfica.
Por
que “Antigo”?
A
palavra “Antigo” está relacionada à história da divisão entre os chamados Antigos (Antients) e os Modernos (Moderns) na Maçonaria
inglesa do século XVIII.
Em
1753, foi constituída a Grande Loja dos “Antients”, que afirmava preservar
antigos usos e tradições maçônicas que seus membros consideravam diferentes
daqueles praticados pela Grande Loja dos Modernos.
O
termo “Antigo”, portanto, está associado à ideia de retorno ou preservação de
usos considerados tradicionais.
Existe
aí uma curiosa ironia histórica: aquilo que se apresentava como “antigo” fazia
parte de uma disputa e de uma reorganização relativamente recente da Maçonaria.
Por
isso, “Antigo” não significa necessariamente que o REAA seja o rito mais antigo
da Maçonaria.
E
por que “Aceito”?
A
palavra “Aceito” possui uma história
ainda mais interessante.
Nas
origens da Maçonaria, a atividade estava ligada às corporações de construtores.
Com o desenvolvimento da Maçonaria especulativa, homens que não pertenciam
profissionalmente ao ofício da construção passaram a ser recebidos nas lojas.
Esses
homens eram os chamados “maçons aceitos”.
A
própria ideia de “aceitação” representa, portanto, a ampliação da Maçonaria
para além dos trabalhadores diretamente ligados ao ofício.
A
Grande Loge Nationale Française explica o termo “Aceito” como referência à
aceitação, nas lojas simbólicas, de membros exteriores ao ofício.
Um
rito construído ao longo do tempo
Outro
ponto fundamental é compreender que o RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO não apareceu
pronto, de uma única vez.
Sua
formação foi resultado de diferentes sistemas de graus, manuscritos, rituais e
tradições que foram sendo combinados e transformados ao longo do século XVIII.
Fontes
históricas situam importantes antecedentes do sistema em meados daquele século.
A própria expressão “Rito Escocês” aparece associada ao desenvolvimento do
chamado Escocismo francês e aos sistemas de altos graus que se multiplicaram
naquele período.
Um
dos caminhos fundamentais passou pelo chamado Rito
de Perfeição, associado aos 25 graus e às tradições que
posteriormente influenciariam a formação do RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO.
Étienne
Morin teve papel importante na transmissão dessas tradições para o Caribe, e
posteriormente o sistema chegou à América do Norte.
Foi
nesse ambiente que ocorreu uma etapa decisiva de organização.
Charleston
e os 33 graus
Em
31 de maio de 1801, foi criado
em Charleston, nos Estados Unidos, o primeiro Supremo Conselho do grau 33 para a jurisdição sul dos Estados Unidos.
Esse
acontecimento é considerado um marco fundamental na constituição do sistema que
conhecemos como Rito Escocês Antigo e Aceito.
Poucos
anos depois, o sistema chegou à França.
Em
1804, Alexandre François
Auguste de Grasse-Tilly participou da criação do Supremo Conselho do 33º grau
na França.
A
partir daí, o R E A A passou por novos processos de organização, adaptação e
desenvolvimento.
Isso
mostra por que é difícil apontar uma única cidade ou país como o lugar onde
todo o rito foi simplesmente “inventado”.
Um
nome que conta uma história
Quando
observamos as quatro palavras — Rito, Escocês, Antigo e
Aceito — percebemos que elas carregam diferentes momentos da
história maçônica.
“Rito”
indica um sistema organizado de práticas e ensinamentos.
“Escocês”
está relacionado ao fenômeno histórico do Escocismo e às tradições que
receberam essa denominação.
“Antigo”
remete à reivindicação de continuidade com antigos usos maçônicos e à tradição
dos Antients.
“Aceito”
recorda a transformação histórica da Maçonaria, que passou a receber homens que
não pertenciam profissionalmente ao antigo ofício dos construtores.
O
nome, portanto, é quase uma pequena síntese da história da Maçonaria moderna.
Mais
francês e americano do que parece
Talvez
uma das maiores surpresas para quem começa a estudar o Rito Escocês Antigo e
aceito seja descobrir que sua história não pode ser explicada apenas pela
Escócia.
O
próprio desenvolvimento do Escocismo ocorreu de maneira importante na França.
Posteriormente, sistemas de graus foram levados ao Caribe e à América do Norte,
onde novas etapas de organização aconteceram.
O
Supremo Conselho de França, por exemplo, situa a criação inicial do Rito Escocês
Antigo e aceito em Charleston, em 1801, seguida pela criação do Supremo
Conselho francês em 1804.
Assim,
o Rito Escocês Antigo e aceito pode ser compreendido como resultado de uma longa circulação internacional de homens,
ideias, graus, manuscritos e tradições maçônicas.
A
importância de conhecer a origem do nome
Conhecer
a origem do nome não é apenas uma curiosidade histórica.
Quando
um maçom compreende que cada palavra possui uma história, passa também a
perceber que os ritos não são estruturas imóveis.
Eles
foram construídos, reorganizados e interpretados por diferentes gerações.
O
Rito Escocês Antigo e aceito que conhecemos hoje é resultado desse processo
histórico.
Por
isso, estudar sua origem é também compreender que a tradição maçônica não
surgiu pronta. Ela foi sendo construída ao longo do tempo, preservando
elementos antigos, incorporando novas interpretações e atravessando diferentes
culturas.
Conclusão
A
pergunta “por que o Rito Escocês Antigo e Aceito tem
esse nome?” parece simples, mas sua resposta nos conduz por
vários séculos de história maçônica.
O
termo “Escocês” não significa que o rito tenha simplesmente nascido na Escócia.
“Antigo”
não quer dizer que todo o sistema seja anterior aos demais ritos maçônicos.
E
“Aceito” recorda a transformação da Maçonaria e a entrada de homens que não
pertenciam ao antigo ofício dos construtores.
O
Rito Escocês Antigo e aceito é, portanto, o resultado de uma história muito
mais ampla: escocesa em algumas de suas referências,
francesa em etapas decisivas de seu desenvolvimento e americana em sua
organização como sistema de 33 graus.
Estudar
essa trajetória permite olhar para o rito não apenas como uma sequência de
graus e cerimônias, mas como o resultado de uma longa experiência histórica da
Maçonaria.
E
talvez seja justamente essa a maior riqueza do Rito Escocês Antigo e aceito: seu nome não é apenas um nome. É uma história
condensada em quatro palavras.
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