A
relação entre o Rotary e a Maçonaria desperta, há décadas, curiosidade e
controvérsia. Embora sejam organizações independentes, a presença de maçons
entre os primeiros rotarianos e algumas afinidades relacionadas à fraternidade,
ao serviço e à filantropia alimentaram interpretações sobre possíveis vínculos
entre os dois movimentos.
O
Rotary foi fundado em 23 de fevereiro de 1905, em Chicago, nos Estados Unidos,
por Gustave Loehr, engenheiro de minas; Silvester Schiele, comerciante de
carvão; Hiram Shorey, alfaiate; e Paul Percy Harris, advogado e maçom.
Harris
teria proposto o nome “Rotary” em referência ao sistema de reuniões realizadas
alternadamente nos escritórios e locais de trabalho dos participantes. A
proposta inicial era reunir profissionais de diferentes áreas em um ambiente de
companheirismo, amizade e cooperação. O movimento cresceu rapidamente e, em
poucos anos, ultrapassou as fronteiras norte-americanas.
A
roda como símbolo
Na
Convenção de Duluth, em 1912, o Rotary adotou uma roda como símbolo.
Posteriormente aperfeiçoada, ela se tornou a conhecida roda dentada da
organização.
O
símbolo foi associado ao movimento, à cooperação e à atividade conjunta, além
de interpretações que o relacionaram às rodas das carroças dos pioneiros
norte-americanos. Alguns autores também identificaram nessa simbologia
possíveis aproximações com tradições maçônicas.
Entretanto,
a semelhança de símbolos ou a presença de maçons entre os integrantes de uma
organização não demonstra, por si só, que ela seja uma extensão ou fachada da
Maçonaria.
Rotary e Maçonaria
A
associação entre os dois movimentos ganhou força pelo fato de diversos
rotarianos, ao longo da história, também terem pertencido à Maçonaria. Somam-se
a isso algumas afinidades, como reuniões regulares, fraternidade,
aperfeiçoamento pessoal, formação de redes de relacionamento e ações
filantrópicas.
Essas
características levaram determinados autores a definir o Rotary como uma
espécie de “Maçonaria pública” ou organização “paramaçônica”. Essa
interpretação, porém, não constitui consenso histórico.
O
Rotary se apresenta como uma organização de serviço, enquanto a Maçonaria
possui estrutura iniciática, graus, rituais e uma tradição filosófico-simbólica
própria. A existência de membros comuns entre as duas instituições não
estabelece necessariamente um vínculo institucional entre elas.
As críticas da Igreja Católica
A
questão ganhou maior importância no final da década de 1920, quando setores da
Igreja Católica passaram a manifestar preocupação com o Rotary.
Em
15 de fevereiro de 1928, o L'Osservatore Romano publicou um artigo do
jesuíta Pietro Pirri sobre o tema. No ano seguinte, em 4 de fevereiro de 1929,
o Santo Ofício publicou um decreto proibindo os sacerdotes na Itália de se
associarem ao Rotary.
Na
Espanha, o cardeal Pedro Segura y Sáenz, arcebispo de Toledo, também adotou uma
posição contrária à participação de católicos na organização. A revista jesuíta
La Civiltà Cattolica publicou, entre 1928 e 1929, artigos discutindo as
relações que seus autores percebiam entre Rotary e Maçonaria.
As
críticas estavam relacionadas principalmente à concepção de uma fraternidade
universal e a uma moral de caráter secular, considerada por seus opositores
incompatível com a concepção católica de caridade e de vida cristã.
A mudança de relacionamento
Décadas
depois, a relação entre o Rotary e importantes representantes da Igreja
Católica assumiu outro caráter.
Angelo
Giuseppe Roncalli, futuro papa João XXIII, manteve contatos com rotarianos
durante seu período como patriarca de Veneza. Já como papa, recebeu
representantes do Rotary em diferentes ocasiões.
Também
Giovanni Battista Montini, futuro Paulo VI, teve contato com o movimento. Em 13
de novembro de 1957, quando era arcebispo de Milão, participou de uma reunião
do Rotary Club de Milão. Como pontífice, Paulo VI recebeu delegações rotarianas
em diversas oportunidades.
Durante
o pontificado de João Paulo II, o diálogo prosseguiu. Em 14 de junho de 1979, o
papa enviou uma mensagem aos participantes da Convenção do Rotary, manifestando
solidariedade à organização.
Esses
episódios mostram uma transformação significativa em relação às restrições e
críticas manifestadas por setores católicos no início do século XX.
Duas
organizações, algumas afinidades
Rotary
e Maçonaria possuem histórias e estruturas próprias. O Rotary nasceu como uma
associação de profissionais voltada ao companheirismo e ao serviço comunitário,
enquanto a Maçonaria possui uma tradição iniciática, filosófica e simbólica
muito anterior.
Ainda
assim, a participação de maçons na história do Rotary e a existência de valores
comuns, como fraternidade, solidariedade, aperfeiçoamento pessoal e serviço ao
próximo, ajudam a explicar as aproximações feitas entre os dois universos.
O
ponto central, portanto, é distinguir fatos documentados, interpretações
históricas e opiniões de seus críticos.
Mais
de um século após sua fundação, o Rotary consolidou-se como uma organização
internacional de serviço humanitário. A Maçonaria, por sua vez, permanece como
uma instituição de tradição filosófica, iniciática e filantrópica.
A
história dos chamados “rotarianos maçônicos” encontra-se justamente nessa zona
de interseção: homens que participaram de dois ambientes fraternais distintos e
que, por suas afinidades de valores e atuação social, contribuíram para manter
vivo um debate que atravessa gerações.
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