Da Redação
Imagine a próxima convenção maçônica. Depois de
várias rodadas de votação, discursos e conversas nos corredores, alguém toma a
palavra e faz uma proposta inesperada:
— E se elegêssemos uma inteligência artificial
como nosso próximo Grão-Mestre?
O silêncio provavelmente seria imediato.
Mas, pensando bem, haveria algumas vantagens.
Nosso Grão-Mestre artificial estaria disponível 24 horas por dia, conheceria
milhares de documentos, poderia preparar discursos em segundos, traduzir textos
para diversos idiomas e jamais precisaria disputar uma condecoração.
Também não teria ambições pessoais, não faria
campanha e provavelmente não se preocuparia com quem ocuparia o Oriente no
próximo mandato.
Seria, administrativamente, quase perfeito.
Mas logo surgiria o primeiro problema.
Uma inteligência artificial poderia decidir
reduzir a burocracia, eliminar algumas comissões e diminuir a duração das
reuniões. Em pouco tempo, provavelmente surgiriam outras comissões para
analisar essas decisões.
E a máquina descobriria uma verdade que nenhum
banco de dados consegue explicar completamente:
administrar uma
instituição humana é muito diferente de organizar informações.
CONHECER NÃO É VIVENCIAR
A questão mais interessante, porém, não está na
administração.
Uma inteligência artificial pode conhecer
rituais, símbolos, constituições e milhares de obras maçônicas. Pode explicar
perfeitamente o significado da pedra bruta, do compasso, do esquadro e da busca
pela Luz.
Mas será que pode vivenciar uma iniciação?
Pode sentir a emoção de uma cerimônia?
Pode experimentar a fraternidade de uma
corrente de união?
Pode realmente compreender o que significa
olhar para dentro de si e reconhecer suas próprias imperfeições?
A máquina pode falar sobre humildade, mas não
precisa vencer o próprio orgulho. Pode explicar a fraternidade, mas não precisa
aprender a perdoar. Pode escrever sobre o aperfeiçoamento moral, mas não
precisa transformar a si mesma.
Esse talvez seja o limite fundamental da
inteligência artificial.
Conhecimento não é
experiência. Informação não é sabedoria.
A IA PODE NOS AJUDAR — MAS NÃO PODE FAZER O
TRABALHO POR NÓS
A inteligência artificial pode ser uma
ferramenta extraordinária para a Maçonaria.
Pode auxiliar na pesquisa, na organização de
documentos, na preparação de apresentações, na tradução de textos e na produção
de materiais para estudo.
Mas existe um risco: permitir que a ferramenta
substitua o nosso próprio esforço intelectual.
Se uma IA escreve uma reflexão sobre humildade,
quem refletiu sobre a humildade?
Se produz um belo texto sobre fraternidade,
isso nos tornou mais fraternos?
Se explica um símbolo, isso significa que
realmente compreendemos sua mensagem?
A resposta é não.
A ferramenta pode facilitar o trabalho, mas não
pode realizar a transformação interior.
A bússola não caminha pelo viajante. O malhete
não trabalha sozinho a pedra. E a inteligência artificial não pode construir,
em nosso lugar, o templo interior.
O VERDADEIRO DESAFIO
Talvez a discussão sobre um Grão-Mestre
artificial seja apenas uma maneira divertida de refletirmos sobre uma questão
muito humana.
Por que, algumas vezes, damos tanta importância
aos cargos?
Por que disputas administrativas conseguem
consumir mais energia do que o próprio trabalho maçônico?
Por que títulos e posições podem se tornar mais
importantes do que o aperfeiçoamento do homem?
Uma inteligência artificial poderia organizar
uma Obediência com enorme eficiência. Poderia lembrar compromissos, analisar
documentos e produzir relatórios impecáveis.
Mas não poderia substituir a responsabilidade
humana.
A Maçonaria não existe apenas para administrar
instituições.
Existe para trabalhar o homem.
E o homem é imperfeito, contraditório,
emocional e, justamente por isso, capaz de aprender, mudar e evoluir.
E O GRÃO-MESTRE DO FUTURO?
Talvez um dia tenhamos inteligências
artificiais capazes de participar de reuniões, responder perguntas, analisar
leis e até produzir discursos muito melhores do que muitos de nós conseguimos
fazer.
Mas, mesmo assim, permanecerá uma diferença
fundamental.
A máquina poderá falar sobre a Luz.
Nós é que teremos de
caminhar em direção a ela.
Poderá explicar a fraternidade.
Nós é que teremos de
praticá-la.
Poderá conhecer todos os rituais.
Nós é que teremos de
vivenciá-los.
Por isso, antes de imaginarmos uma inteligência
artificial ocupando o lugar de um Grão-Mestre, talvez devêssemos fazer uma
pergunta mais importante:
Estamos utilizando
suficientemente bem a nossa própria inteligência?
Porque uma máquina pode escrever nossos
discursos, organizar nossas instituições e conhecer todos os nossos símbolos.
Mas existe uma tarefa que continuará sendo
exclusivamente nossa:
tornar-nos pessoas
melhores.

0 Comentários