Suposto livro bíblico “proibido” retrata infância obscura de Jesus

Detalhe de afresco representando o menino Jesus no colo de Maria - Getty Images

Evangelho apócrifo do século 2, excluído da Bíblia, descreveria episódios em que Jesus, ainda menino, teria amaldiçoado e até matado crianças

Uma obra religiosa pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos voltou a ganhar destaque após pesquisadores relembrarem seu conteúdo controverso: um manuscrito do século 2 que retrata Jesus durante a infância de maneira muito diferente daquela que aparece nos evangelhos tradicionais. Trata-se do chamado Evangelho da Infância de Tomé, um texto apócrifo que narra eventos entre os cinco e os doze anos de Jesus, período completamente omitido pelos livros canônicos do Novo Testamento.

O que mais chama atenção nas narrativas desse evangelho é o comportamento atribuído ao jovem Jesus. Em vez do menino dócil e piedoso da tradição cristã, o texto descreve episódios em que ele demonstra poderes extraordinários, mas acompanhados de reações impulsivas e até violentas.

Em uma das histórias, Jesus molda pássaros de barro e lhes dá vida — um milagre que não aparece na Bíblia oficial. Em outras, porém, ele amaldiçoa crianças que o ofenderam ou o atrapalharam, com consequências fatais. Há passagens em que colegas são feridos ou morrem após provocá-lo, apenas para voltarem à vida posteriormente quando Jesus, arrependido, desfaz o dano.

Um Jesus controverso

Esses relatos explicam por que o texto foi rejeitado pelos primeiros líderes cristãos. A figura apresentada ali destoava radicalmente da imagem teológica defendida pela Igreja nascente: um Jesus perfeitamente compassivo, equilibrado e moralmente exemplar. A ideia de um “menino divino” testando seus poderes de forma irrefletida ou vingativa era considerada incompatível com a doutrina. Não por acaso, concílios e teólogos dos primeiros séculos classificaram o evangelho como herético ou fantasioso, e ele acabou excluído do que viria a ser a Bíblia.

A pesar disso, os pesquisadores destacam que o texto tem grande valor histórico. Ele revela como diferentes comunidades cristãs do início da era comum tentaram preencher as lacunas sobre a infância de Jesus, um período que permanece envolto em silêncio nas escrituras oficiais. Para alguns estudiosos, o evangelho expressa debates teológicos da época sobre a natureza dual de Jesus — plenamente divino, mas também plenamente humano. Para outros, essas histórias funcionavam como parábolas simbólicas, enfatizando o amadurecimento gradual do menino à medida que aprendia a controlar seus dons sobrenaturais.

O ressurgimento do interesse por esse manuscrito reacende discussões sobre a formação do cânone bíblico, os critérios de seleção dos evangelhos e as múltiplas versões do cristianismo que coexistiram nos primeiros séculos. Embora não faça parte da Bíblia oficial, o Evangelho da Infância de Tomé continua a intrigar leitores e especialistas, oferecendo um retrato provocador — e profundamente distinto — do que poderia ter sido a infância do personagem mais influente da história ocidental.

Fonte: Aventura na História 

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1 Comentários

  1. Todavia, esse livro existe? Ou mesmo os manuscritos? Ou é só especulação?

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