Da Redação
Há mortes que encerram uma vida. Outras
encerram uma era. O falecimento de Brigitte Bardot, em 28 de dezembro de 2025,
anunciado pela Fundação que leva seu nome em Saint-Tropez — o mesmo lugar onde
sua imagem se cristalizou entre luz e reclusão — pertence à segunda categoria.
Com ela, não desaparece apenas uma atriz: esvai-se um dos símbolos mais
paradoxais da França contemporânea.
Todos conheciam “BB”, mesmo sem jamais tê-la
encontrado. Essa é a lei dos ícones: eles não pedem afeto, exigem projeção.
Brigitte Bardot personificou essa rara transição em que um indivíduo se
converte em superfície simbólica, espelho coletivo oferecido à França das
décadas de 1950 e 1960 — um espelho por vezes sedutor, por vezes incômodo,
quase sempre implacável.
Marianne não é uma mulher
Marianne não é uma pessoa. É uma função
simbólica, uma alegoria republicana, uma força mobilizadora. Aquilo que a
linguagem iniciática reconhece como egrégora cívica: um campo simbólico
alimentado por gestos, imagens, juramentos e afetos coletivos.
Quando, no final dos anos 1960, Marianne
assumiu os traços de Brigitte Bardot, algo decisivo ocorreu. Pela primeira vez,
a República Francesa adotava o rosto de uma celebridade viva como sua efígie
oficial. O busto criado por Alain Aslan, em 1969, marcou essa inflexão:
Marianne deixava de ser apenas idealizada para tornar-se reconhecível, quase
íntima.
A República passou a falar a língua do século:
imagem, imprensa, fotogenia, presença midiática. Marianne tornou-se estrela —
instalada nas prefeituras como um farol cívico.
Brigitte Bardot e a Maçonaria: o que é fato e
o que é fantasia
Com o passar dos anos, surgiram tentativas de
associar Brigitte Bardot à Maçonaria. Essas conexões, quando analisadas com
rigor, revelam-se indiretas, anedóticas ou completamente infundadas.
Algumas menções aparecem em catálogos
acadêmicos de ocultismo, sem qualquer conteúdo substancial. Textos educativos
sobre Maçonaria a citam de forma meramente humorística, geralmente vinculada ao
seu ativismo pelos direitos dos animais — e não a símbolos ou práticas
iniciáticas. Nas redes sociais, teorias conspiratórias chegam a vinculá-la a
narrativas delirantes envolvendo a Maçonaria, acusações estas totalmente
desprovidas de base factual.
Não há, até o presente momento, qualquer
evidência histórica de envolvimento direto ou indireto de Brigitte Bardot com a
Maçonaria. Confundir o símbolo republicano com a iniciação maçônica é um erro
recorrente — e revelador do quanto símbolos são frequentemente
instrumentalizados.
O
ícone que se torna oráculo
Há, contudo, outra forma — mais sutil e
reveladora — de uma época tocar o esoterismo: não pela filiação a sociedades
discretas, mas pela transformação do ícone em arquétipo.
Em 2024, foi lançado O Oráculo de Brigitte
Bardot, conjunto autorizado pela própria atriz, composto por cartas e livro
explicativo. Não se trata de criar uma “Bardot ocultista”, mas de cristalizar
uma Bardot simbólica: liberdade, sensualidade, fidelidade a si mesma. Uma
gramática de imagens, não uma biografia.
A iniciação ensina que o símbolo não descreve —
ele age. Cada consulta ao oráculo, cada leitura, cada interpretação alimenta
essa egrégora doméstica. Não é mais a República que escolhe um rosto; é o
indivíduo que escolhe uma presença. O mesmo mecanismo que, décadas antes,
elevou Bardot à condição de Marianne — agora em escala íntima.
Da luz ao afastamento
Mas todo símbolo é ambíguo. Ele ilumina e fere.
Brigitte Bardot, após personificar a liberdade idealizada, escolheu o
afastamento. Abandonou o cinema em 1973 e dedicou-se integralmente à causa
animal, fundando sua instituição em 1986.
A “Marianne de carne e osso” tornou-se uma
Marianne de combate: menos bandeira, mais trincheira. Seu ativismo obteve
vitórias concretas, mas também veio acompanhado de controvérsias, posições
polêmicas e condenações judiciais que mancharam sua imagem pública. Em 1996,
alguns municípios franceses chegaram a retirar o busto de Marianne com seus
traços, alegando incompatibilidade entre símbolo republicano e posicionamentos
pessoais.
O
que a França perde?
A França perde uma atriz que redefiniu a
gramática do desejo.
Perde uma voz que soube transformar fama em
influência — para o bem e para o conflito.
Perde, sobretudo, uma Marianne paradoxal:
holofote e reclusão, bandeira e solidão, ideal e ruptura.
Sob uma leitura simbólica — cara tanto à
Maçonaria quanto à tradição republicana — Brigitte Bardot deixa uma lição
essencial: todo rosto elevado a emblema torna-se um campo de provas. A prova da
projeção. A prova da duração. A prova da coerência.
Marianne, na Loja ou na Cidade, nunca é
ornamento. É exigência. Talvez seja essa a verdadeira obra que nos cabe: honrar
símbolos sem idolatrar indivíduos e amar figuras públicas sem abdicar da
lucidez.
Brigitte Bardot não foi “a República”.
Foi uma de suas máscaras mais luminosas — e um
de seus enigmas mais profundamente franceses.


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