Por: Luiz Sérgio Castro
Viajar para passar o Natal em Minas Gerais é sempre uma boa ideia. O problema é quando o trajeto resolve participar da festa — e não como convidado, mas como protagonista. Foi assim que eu e minha esposa vivemos uma verdadeira saga rodoviária, dessas que misturam promessa, atraso e muita paciência cristã.
Tudo começou em Linhares, Espírito Santo, na
compra da passagem. A atendente descreveu o ônibus como um resort sobre rodas:
dois andares, semi-leito, ar-condicionado, Wi-Fi e entrada HDMI para carregar o
celular. Faltou apenas prometer massagem relaxante e pão de queijo quente.
Na rodoviária de Vitória, encontramos o ônibus
prometido… apenas na imaginação. O veículo era convencional, veterano de
guerra. Mas seguimos firmes, porque o Natal não espera e a esperança, essa, já
estava embarcada.
Antes da divisa com Minas, perto de Apiacá, o
ônibus resolveu dar um sinal de vida — ou de cansaço — e estourou um pneu. Três
horas depois, chegou o substituto, provando que sempre é possível descer mais
um degrau no conceito de conforto. Chegamos a Viçosa às nove da manhã, quando o
combinado era cinco e meia. Chegamos vivos. E isso já parecia vitória.
Mas toda via-sacra precisa de um momento de
redenção. E ele veio em Ervália. Depois de doze anos, reencontrei meus irmãos,
revi amigos antigos, conheci sobrinhos, sobrinhos-netos e confirmei uma verdade
universal: mineiro não perde o jeito de receber ninguém. Houve comida farta —
da tradicional, daquelas que dispensam convite —, risadas, histórias repetidas
e abraços acumulados pelo tempo. A ceia foi longa, alegre e calorosa, como só
Minas sabe fazer. Ali, todo cansaço da viagem foi devidamente digerido junto
com a comida.
Na volta, o destino resolveu testar novamente
nossa fé. Minha esposa seguiu de carona com nossa filha; eu fiquei com o
ônibus. Em Muriaé, embarquei de volta para o Espirito Santo pela Viação Rio Doce, que repetiu o mesmo discurso
encantador da ida: semi-leito, conforto e tranquilidade. E repetiu também a
realidade: ônibus comum, comumíssimo.
A viagem virou um city tour rodoviário não
solicitado. Entrava em toda cidadezinha possível, como se estivesse
colecionando rodoviárias. Até que, em Bom Jesus do Itabapoana, o ônibus decidiu
que não sairia de ré. Tentou. Insistiu. Quebrou. Duas horas e meia de espera,
tempo suficiente para reflexões profundas sobre escolhas de vida.
O ônibus substituto chegou, mas o trajeto
resolveu inovar: BR-101, Cachoeiro do Itapemirim (ida e volta), litoral
capixaba, Marataízes, Piúma, Guarapari, Vila Velha. Um passeio completo, sem
guia turístico e sem lanche incluso. Cheguei a Vitória às 19h30, quando no
bilhete de embarque, jurava que seria às 16h.
No balanço final, a Águia Branca, na ida, e a
Rio Doce, na volta, mostraram que viajar de ônibus no Brasil é um exercício de
fé, resistência e bom humor. Mas Minas compensou. Porque, entre pneus
estourados e ônibus quebrados, houve reencontro, mesa farta, riso solto e o
calor humano que só a família e a hospitalidade mineira sabem oferecer.
E isso, definitivamente, fez valer a viagem.
Feliz 2026 para todos.
No Réveillon vou ficar
em casa.

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