210 - O “Mozart Negro”: Espada, Arco e Emancipação no Século XVIII

Da Redação

Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George, transformou música, esgrima, coragem e busca pela liberdade em uma trajetória singular no século das Luzes

Há personagens da História que parecem ter vivido várias vidas em uma só. Joseph Bologne, conhecido como Chevalier de Saint-George, foi um deles.

Nascido na Guadeloupe, em 1745, filho de Georges de Bologne Saint-Georges, um proprietário francês, e de Nanon, mulher escravizada de origem africana, Saint-George atravessou as rígidas barreiras sociais e raciais do século XVIII para tornar-se violinista virtuoso, compositor, maestro, exímio esgrimista, oficial militar e participante ativo dos acontecimentos revolucionários franceses. Também esteve ligado à Maçonaria, sendo apontado por fontes históricas como o primeiro maçom negro da França.

Sua vida constitui um extraordinário capítulo da história do Iluminismo. Em uma sociedade marcada pela escravidão, pelos privilégios de nascimento e por profundas desigualdades, ele conquistou reconhecimento nos ambientes aristocráticos de Paris sem deixar de enfrentar o preconceito racial que acompanhava sua condição.

É justamente essa combinação entre arte, disciplina, liberdade e ação que torna sua história particularmente interessante para a reflexão maçônica.

O homem que dominava a espada e o violino

Ainda jovem, Saint-George recebeu na França uma educação destinada aos círculos privilegiados. Entre suas disciplinas estavam a música, a dança, as boas maneiras e a esgrima.

Na arte das armas, destacou-se de maneira extraordinária. Aos 16 anos, já havia obtido uma importante vitória contra o célebre mestre de armas Alexandre Picard. Mais tarde, seu nome tornou-se conhecido entre os grandes esgrimistas europeus. Em 1787, protagonizou em Londres um famoso confronto de esgrima com o Chevalier d’Eon, acontecimento que despertou enorme interesse público.

Mas a espada era apenas uma das faces de seu talento.

No violino, Saint-George alcançou igualmente grande prestígio. Em 1769, passou a integrar o Concert des Amateurs, dirigido pelo compositor François-Joseph Gossec. Em 1773, tornou-se diretor musical da instituição, que chegou a ser considerada uma das melhores formações orquestrais da Europa.

Compôs concertos para violino, quartetos de cordas, sinfonias concertantes e óperas. Sua produção musical foi suficientemente reconhecida para que fosse considerado para a direção da Ópera de Paris. Entretanto, sua indicação encontrou resistência relacionada à sua origem racial.

A música, portanto, abriu portas que a sociedade de seu tempo procurava manter fechadas.

Por que “Mozart Negro”?

Saint-George viveu na mesma época de Wolfgang Amadeus Mozart e sua música chegou a ser comparada à de grandes compositores europeus do período.

O apelido “Mozart Negro” tornou-se popular posteriormente, mas a expressão pode esconder justamente aquilo que torna sua trajetória singular. Saint-George não foi importante por ser uma espécie de equivalente negro de Mozart. Sua importância está em ter desenvolvido uma identidade artística própria e alcançado posição de destaque em uma Europa que ainda estava profundamente estruturada pela escravidão e pela discriminação racial.

A própria programação contemporânea do Palácio de Versalhes voltou a apresentar sua obra, destacando-o como violinista, compositor, maestro, esgrimista e revolucionário. Um registro fonográfico recente também contribuiu para recolocar sua música diante do público atual.

Sua obra, durante muito tempo relegada a segundo plano, vem sendo redescoberta por músicos e pesquisadores.

O arco e a espada como símbolos de uma mesma disciplina

Existe uma dimensão simbólica particularmente interessante na trajetória de Saint-George.

De um lado, estava o arco do violino, instrumento que exige equilíbrio, precisão, sensibilidade, concentração e domínio técnico.

Do outro, estava a espada, que exige disciplina corporal, coragem, velocidade, controle e respeito às regras do combate.

São instrumentos diferentes, mas ambos exigem aperfeiçoamento.

Saint-George levou esse princípio para a própria existência. Seu talento não ficou restrito ao salão de concertos nem à sala de armas. Ele utilizou sua posição e sua influência também em momentos de transformação política e social.

A partir da Revolução Francesa, aproximou-se dos ideais republicanos e participou da defesa da França. Em 1792, recebeu o comando da chamada Legião Franca dos Americanos, formada por homens negros e mestiços das Antilhas que se identificavam com os ideais revolucionários. Saint-George alcançou o posto de coronel.

Assim, a espada deixou de ser apenas instrumento de esporte ou demonstração de habilidade. Passou a integrar sua atuação pública.

Um homem de seu tempo — e além dele

Saint-George viveu uma das maiores contradições do século XVIII.

Era um homem de ascendência africana que frequentava os círculos aristocráticos franceses, apresentava-se diante da corte, convivia com figuras importantes da sociedade e era admirado por sua música. Ao mesmo tempo, enfrentava preconceitos que impediam que seu talento fosse reconhecido de maneira plena.

Marie-Antoinette apreciava sua música e chegou a receber aulas de violino. Sua candidatura à direção da Ópera de Paris, entretanto, encontrou oposição por causa da sua cor.

Essa contradição revela algo importante sobre o século das Luzes: a defesa da razão, da liberdade e dos direitos humanos coexistia com uma sociedade ainda profundamente marcada pela escravidão e pelas hierarquias sociais.

Saint-George estava no centro dessa contradição.

Saint-George e a Maçonaria

Para a história maçônica, sua trajetória possui um interesse especial.

Fontes históricas o identificam como o primeiro homem negro a ser iniciado na Maçonaria francesa. Há referências à sua ligação com ambientes maçônicos de Paris e à possibilidade de sua associação à Loja Les Neuf Sœurs, conhecida por reunir intelectuais e figuras importantes do Iluminismo

É importante, contudo, distinguir aquilo que está documentalmente estabelecido das hipóteses historiográficas sobre sua filiação específica a determinadas lojas.

A presença de Saint-George no universo maçônico adquire significado particular quando observada em conjunto com sua trajetória. A Maçonaria do século XVIII reunia homens interessados em ideias como aperfeiçoamento, conhecimento, sociabilidade, liberdade e fraternidade. Saint-George, por sua própria existência, confrontava as limitações impostas pela sociedade de seu tempo.

Sua trajetória demonstra que os princípios podem ganhar significado concreto quando ultrapassam o discurso e se transformam em comportamento.

Da arte à emancipação

Saint-George também esteve associado aos ideais de igualdade e à defesa dos direitos dos homens de cor. Durante a Revolução, colocou sua capacidade militar a serviço da República.

Mas sua história não terminou como uma narrativa simples de triunfo.

Durante o período revolucionário, foi preso sob suspeita de envolvimento com a questão relacionada ao general Dumouriez. Permaneceu encarcerado por cerca de dezoito meses e posteriormente foi libertado. Retomou atividades musicais, mas seus últimos anos foram marcados por dificuldades. Morreu em Paris, em 1799.

Poucos meses depois, Napoleão Bonaparte assumiria o poder. Posteriormente, o regime napoleônico restauraria a escravidão nas colônias francesas, aprofundando uma das grandes contradições que Saint-George havia enfrentado durante toda a sua vida.

Uma lição que atravessa os séculos

A história de Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George, pode ser lida de muitas maneiras.

Pode ser a história de um grande músico.

Pode ser a história de um dos maiores esgrimistas de seu tempo.

Pode ser a história de um oficial revolucionário.

Pode ser a história de um homem negro que rompeu barreiras em uma sociedade profundamente desigual.

Para a Maçonaria, porém, talvez exista ainda outra leitura.

Saint-George demonstra que o aperfeiçoamento individual não precisa permanecer limitado ao indivíduo. O conhecimento adquirido, o talento desenvolvido e a disciplina cultivada podem ser colocados a serviço de uma realidade maior.

O arco representava sua arte.

A espada, sua coragem.

A música, sua capacidade de transformar sensibilidade em linguagem universal.

E sua atuação social e política revelou que a busca pela liberdade podia ultrapassar os limites de uma aspiração pessoal.

Nesse sentido, sua vida permite uma reflexão que continua atual: de que serve o aperfeiçoamento do homem se ele não contribui também para o aperfeiçoamento da sociedade?

A música que sobrevive ao tempo

Mais de dois séculos depois de sua morte, a música de Saint-George volta a ocupar salas de concerto e gravações.

Em 2026, a revista francesa Options destacou novamente sua trajetória por ocasião de um novo álbum dedicado à sua obra e de uma apresentação programada no Ópera Real de Versalhes. O movimento de redescoberta demonstra que seu legado artístico está longe de ser apenas uma curiosidade histórica.

A redescoberta de Saint-George também dialoga com um movimento mais amplo de recuperação da memória de artistas que foram marginalizados ou esquecidos pela historiografia tradicional.

Sua música atravessou o Atlântico. Sua história também.

Da Europa do século XVIII à América do Sul contemporânea, a arte continua sendo utilizada como instrumento de educação, reflexão e formação cultural. E talvez esteja aí uma das maiores heranças de Saint-George: mostrar que beleza e liberdade não são conceitos opostos.

Um legado para reflexão maçônica

Joseph Bologne, Chevalier de Saint-George, morreu em 1799, mas sua trajetória permanece como uma espécie de testemunho de uma época em transformação.

Ele não foi apenas o homem que tocava violino como poucos.

Não foi apenas o esgrimista que impressionava as cortes europeias.

Não foi apenas o compositor admirado nos salões de Paris.

Foi também um homem que viveu na fronteira entre mundos diferentes e que, por meio de seus próprios talentos, desafiou limites sociais, culturais e raciais.

Por isso, talvez seja mais adequado lembrar Saint-George não simplesmente como o “Mozart Negro”, mas como Joseph Bologne de Saint-George — um homem singular, cuja vida uniu arte, disciplina, coragem, conhecimento e busca pela liberdade.

Sua história nos recorda que o verdadeiro aperfeiçoamento não está apenas em dominar uma arte, uma ciência ou uma profissão.

Está também em saber o que fazer com aquilo que aprendemos.

E, nesse aspecto, a espada e o arco de Saint-George continuam falando ao presente.

 Fontes consultadas: Options (França), Fondation pour la Mémoire de l'Esclavage, Château de Versailles/Opéra Royal, National Endowment for the Humanities e Europeana. 



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