As diferentes tradições que formam o universo
maçônico contemporâneo
Da Redação
A Maçonaria não é uma instituição absolutamente
uniforme. Ao longo de sua história, diferentes interpretações filosóficas,
religiosas, culturais e organizacionais deram origem a diversas tradições
maçônicas. Compreender essa pluralidade é fundamental para evitar
generalizações e compreender por que duas Lojas podem compartilhar símbolos e
rituais semelhantes e, ao mesmo tempo, pertencer a sistemas maçônicos que não
mantêm relações formais entre si.
O estudo publicado pelo portal Masonería en Suecia
apresenta justamente essa questão: a existência de duas grandes orientações no
desenvolvimento da Maçonaria moderna — a tradição anglo-americana,
frequentemente identificada como regular, e a tradição liberal europeia, também
chamada continental ou adogmática.
DUAS GRANDES TRADIÇÕES
Segundo o texto, durante aproximadamente três
séculos de desenvolvimento da Maçonaria moderna consolidaram-se duas grandes
direções.
De um lado está a tradição anglo-americana,
cuja referência histórica é a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE), com forte
presença nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
De outro está a tradição liberal europeia,
associada historicamente ao Grande Oriente de França (GOdF), com presença em
diferentes países da Europa, África e América Latina.
É importante observar que essas denominações
não abrangem toda a complexidade da Maçonaria mundial. Existem numerosas
obediências que possuem características intermediárias ou diferentes formas de
relacionamento e reconhecimento.
Portanto, falar em “Maçonaria regular” ou
“Maçonaria liberal” exige sempre considerar qual obediência, qual tradição e qual país estão sendo
analisados.
A QUESTÃO DA CRENÇA
Uma das principais diferenças apontadas pelo
portal está relacionada à questão religiosa.
Na tradição anglo-americana descrita no artigo,
o candidato deve declarar sua crença em Deus e na imortalidade da alma antes
que sua candidatura seja considerada. Na tradição liberal, esse requisito não é
universalmente exigido, pois a liberdade de consciência ocupa posição central.
Essa diferença possui profundas consequências
filosóficas.
Para uma corrente, a dimensão espiritual e a
crença em um princípio superior fazem parte dos fundamentos da experiência
maçônica.
Para a outra, a Maçonaria deve proporcionar um
espaço no qual pessoas de diferentes convicções possam trabalhar juntas sem que
uma determinada concepção religiosa seja imposta como condição de ingresso.
Não se trata simplesmente de uma diferença
ritual. É uma diferença de concepção sobre o que significa liberdade de consciência dentro da
Maçonaria.
O LIVRO DA LEI SAGRADA
Outra diferença está relacionada ao chamado
Livro da Lei Sagrada.
Na tradição regular descrita pelo portal, sua
presença aberta no altar durante os trabalhos é obrigatória. Dependendo da
tradição religiosa do candidato ou da jurisdição, esse livro pode ser a Bíblia,
o Alcorão ou outro texto considerado sagrado.
Na Maçonaria liberal, segundo o mesmo material,
não existe necessariamente essa obrigação. A escolha do livro colocado sobre o
altar pode ser determinada pela própria Loja, de acordo com seus princípios e
regras
A diferença revela duas maneiras de compreender
o espaço maçônico.
Em uma delas, a Loja trabalha sob uma
referência transcendente claramente estabelecida.
Na outra, procura-se criar um espaço comum para
pessoas que podem possuir crenças religiosas diferentes ou mesmo não possuir
uma crença religiosa.
O PRINCÍPIO DA LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA
A liberdade de consciência constitui, portanto,
um dos conceitos fundamentais da corrente liberal apresentada pelo portal.
Essa ideia significa que o indivíduo deve ter
liberdade para construir suas próprias convicções filosóficas e espirituais.
Dentro dessa perspectiva, a Maçonaria não
deveria substituir a consciência individual por um dogma institucional.
O maçom é chamado a estudar, refletir, comparar
ideias e assumir responsabilidade por suas próprias escolhas.
Essa concepção está relacionada a uma das
características mais marcantes da Maçonaria liberal: o adogmatismo.
Ser adogmático, nesse contexto, não significa
ausência de princípios. Significa não transformar uma determinada interpretação
religiosa ou filosófica em condição universal para todos os membros.
LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE
Outra diferença apresentada pelo site
encontra-se na própria formulação simbólica dos trabalhos.
Na tradição regular descrita, os trabalhos são
realizados sob referência ao Grande Arquiteto do Universo.
Na tradição liberal apresentada, o trabalho
está associado aos princípios de Liberdade,
Igualdade e Fraternidade.
Esses conceitos, entretanto, não precisam ser
entendidos como incompatíveis com a busca espiritual. A história da Maçonaria
demonstra justamente a existência de diferentes interpretações desses
princípios.
Para alguns maçons, a liberdade humana encontra
fundamento em uma dimensão transcendente.
Para outros, ela é entendida essencialmente
como autonomia da consciência e responsabilidade ética.
O importante, para compreender a diversidade
maçônica, é reconhecer que essas interpretações existem e possuem trajetórias
históricas próprias.
A PRESENÇA DA MULHER
A questão da participação feminina constitui
outra diferença importante.
O texto do portal afirma que as obediências
regulares anglo-americanas tradicionalmente restringem a filiação aos homens,
enquanto organizações liberais podem ser masculinas, femininas ou mistas.
A presença feminina na Maçonaria possui,
entretanto, uma história própria e bastante rica.
Desde o surgimento de organizações maçônicas
femininas e mistas, sobretudo na Europa, mulheres passaram a participar
ativamente da tradição iniciática maçônica.
Essa diversidade também chegou à América Latina
e a outras regiões.
Assim, atualmente encontramos diferentes
modelos: Maçonaria masculina, feminina e mista, dependendo da obediência e da
jurisdição.
COMO SURGIU A DIVISÃO?
A separação entre diferentes correntes não
aconteceu de uma única vez.
O processo foi gradual e envolveu questões
relacionadas ao reconhecimento entre obediências, jurisdição, religião, raça,
organização administrativa e interpretação dos princípios maçônicos.
Um episódio mencionado pelo portal ocorreu em
1869, quando o Grande Oriente de França reconheceu um grupo maçônico da
Louisiana formado por afro-americanos que não era reconhecido pela Grande Loja
da Louisiana.
A questão acabou provocando o rompimento do
reconhecimento entre determinadas jurisdições.
O episódio é importante porque demonstra que a
história do reconhecimento maçônico também foi influenciada por questões
sociais e raciais presentes na sociedade daquele período.
O ANO DE 1877
Um dos momentos decisivos ocorreu em 1877, quando o Grande
Oriente de França alterou sua Constituição em relação à crença em Deus e à
presença do Livro da Lei Sagrada.
O Grande Oriente deixou de exigir a crença em
Deus como condição para ingresso e passou a permitir que cada Loja decidisse
sobre a presença do Livro da Lei Sagrada.
A mudança foi recebida de maneira diferente
pelas diversas potências maçônicas.
A Grande Loja Unida da Inglaterra e outras
obediências passaram a considerar essas alterações incompatíveis com seus
princípios de reconhecimento.
A partir daí, a distância entre as duas grandes
tradições aumentou.
RECONHECIMENTO NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE
“SER OU NÃO SER MAÇOM”
Aqui encontramos um ponto que merece atenção.
Dentro da linguagem maçônica, os termos regular e irregular possuem um
significado técnico relacionado principalmente ao reconhecimento entre
organizações maçônicas.
Não devem ser confundidos automaticamente com
julgamentos sobre o valor moral ou pessoal dos membros de determinada
obediência.
Uma organização pode ser reconhecida por
determinadas potências e não reconhecida por outras.
Isso ocorre porque não existe uma autoridade
maçônica universalmente aceita por todas as obediências do planeta.
A Maçonaria mundial é, portanto, uma realidade
plural e descentralizada.
OS VALORES DA MAÇONARIA LIBERAL
O portal apresenta também um conjunto de
valores associados à tradição liberal: democracia, direitos humanos, laicidade,
solidariedade social, civilidade, proteção ambiental e dignidade humana.
Esses princípios procuram estabelecer uma
relação entre a experiência maçônica e os grandes desafios da sociedade
contemporânea.
A democracia aparece relacionada ao Estado de
Direito e à divisão de poderes.
Os direitos humanos são apresentados como
referência universal.
A laicidade é defendida como separação entre as
instituições religiosas e o Estado, sem negar ao indivíduo sua liberdade
religiosa.
A solidariedade social é compreendida como
responsabilidade coletiva diante das desigualdades.
A preservação ambiental aparece como
compromisso com as futuras gerações.
E a dignidade humana é colocada como fundamento
de uma sociedade que deve garantir condições básicas de existência.
UMA MAÇONARIA, MUITAS EXPERIÊNCIAS
A análise dessas duas correntes permite
compreender que a Maçonaria não pode ser reduzida a uma única definição.
Existem diferentes maneiras de interpretar a
iniciação, a espiritualidade, os símbolos, a presença da religião, a
participação feminina e o relacionamento da Loja com a sociedade.
Essa pluralidade pode, inclusive, ser entendida
como parte da própria história da instituição.
A Maçonaria desenvolveu-se em diferentes países
e contextos históricos. Naturalmente, suas estruturas também foram
influenciadas pelas culturas e sociedades nas quais se estabeleceu.
O QUE UNE ALÉM DO QUE SEPARA?
Apesar das diferenças, há elementos comuns que
continuam presentes em grande parte das tradições maçônicas: o valor da
fraternidade, o aperfeiçoamento individual, a importância do conhecimento, o
simbolismo da construção e a busca de uma convivência baseada no respeito.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das
maiores riquezas do universo maçônico.
Conhecer as diferenças não precisa significar
transformar a diversidade em conflito.
Ao contrário: compreender que existem
diferentes tradições pode ajudar o maçom a conhecer melhor a própria
instituição e a respeitar aqueles que trabalham dentro de outra interpretação
da Ordem.
CONCLUSÃO
Os “dois conceitos” apresentados pelo portal Masonería en Suecia
representam duas importantes maneiras pelas quais a Maçonaria moderna se
desenvolveu.
De um lado, uma tradição que preserva a crença
em Deus, a presença do Livro da Lei Sagrada e a Maçonaria masculina como
elementos fundamentais de sua identidade.
De outro, uma tradição liberal que coloca a
liberdade absoluta de consciência no centro de sua proposta e admite diferentes
posições religiosas, além de estruturas masculinas, femininas e mistas.
Mais do que escolher uma dessas interpretações,
compreender essa diversidade permite olhar para a Maçonaria com maior
profundidade histórica.
A história maçônica não é uma estrada única.
É uma construção formada por diferentes
caminhos, tradições e interpretações.
E talvez uma das grandes lições da própria
Maçonaria esteja justamente na capacidade de construir pontes entre homens e mulheres que pensam de
maneiras diferentes, sem exigir que todos pensem da mesma maneira.
Fonte principal: Masonería en Suecia — Dos Conceptos de
la Masonería
Observação editorial: o artigo acima
apresenta as distinções segundo a perspectiva do próprio portal consultado.
Termos como “regular”, “liberal”, “adogmática” e “irregular” têm usos
diferentes conforme a obediência e a tradição maçônica, portanto não devem ser
tratados como categorias universais ou como juízos de valor.


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