210 - DOIS CONCEITOS DE MAÇONARIA


As diferentes tradições que formam o universo maçônico contemporâneo

Da Redação

A Maçonaria não é uma instituição absolutamente uniforme. Ao longo de sua história, diferentes interpretações filosóficas, religiosas, culturais e organizacionais deram origem a diversas tradições maçônicas. Compreender essa pluralidade é fundamental para evitar generalizações e compreender por que duas Lojas podem compartilhar símbolos e rituais semelhantes e, ao mesmo tempo, pertencer a sistemas maçônicos que não mantêm relações formais entre si.

O estudo publicado pelo portal Masonería en Suecia apresenta justamente essa questão: a existência de duas grandes orientações no desenvolvimento da Maçonaria moderna — a tradição anglo-americana, frequentemente identificada como regular, e a tradição liberal europeia, também chamada continental ou adogmática.


DUAS GRANDES TRADIÇÕES

Segundo o texto, durante aproximadamente três séculos de desenvolvimento da Maçonaria moderna consolidaram-se duas grandes direções.

De um lado está a tradição anglo-americana, cuja referência histórica é a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE), com forte presença nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

De outro está a tradição liberal europeia, associada historicamente ao Grande Oriente de França (GOdF), com presença em diferentes países da Europa, África e América Latina.

É importante observar que essas denominações não abrangem toda a complexidade da Maçonaria mundial. Existem numerosas obediências que possuem características intermediárias ou diferentes formas de relacionamento e reconhecimento.

Portanto, falar em “Maçonaria regular” ou “Maçonaria liberal” exige sempre considerar qual obediência, qual tradição e qual país estão sendo analisados.

A QUESTÃO DA CRENÇA

Uma das principais diferenças apontadas pelo portal está relacionada à questão religiosa.

Na tradição anglo-americana descrita no artigo, o candidato deve declarar sua crença em Deus e na imortalidade da alma antes que sua candidatura seja considerada. Na tradição liberal, esse requisito não é universalmente exigido, pois a liberdade de consciência ocupa posição central.

Essa diferença possui profundas consequências filosóficas.

Para uma corrente, a dimensão espiritual e a crença em um princípio superior fazem parte dos fundamentos da experiência maçônica.

Para a outra, a Maçonaria deve proporcionar um espaço no qual pessoas de diferentes convicções possam trabalhar juntas sem que uma determinada concepção religiosa seja imposta como condição de ingresso.

Não se trata simplesmente de uma diferença ritual. É uma diferença de concepção sobre o que significa liberdade de consciência dentro da Maçonaria.

O LIVRO DA LEI SAGRADA

Outra diferença está relacionada ao chamado Livro da Lei Sagrada.

Na tradição regular descrita pelo portal, sua presença aberta no altar durante os trabalhos é obrigatória. Dependendo da tradição religiosa do candidato ou da jurisdição, esse livro pode ser a Bíblia, o Alcorão ou outro texto considerado sagrado.

Na Maçonaria liberal, segundo o mesmo material, não existe necessariamente essa obrigação. A escolha do livro colocado sobre o altar pode ser determinada pela própria Loja, de acordo com seus princípios e regras

A diferença revela duas maneiras de compreender o espaço maçônico.

Em uma delas, a Loja trabalha sob uma referência transcendente claramente estabelecida.

Na outra, procura-se criar um espaço comum para pessoas que podem possuir crenças religiosas diferentes ou mesmo não possuir uma crença religiosa.

O PRINCÍPIO DA LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA

A liberdade de consciência constitui, portanto, um dos conceitos fundamentais da corrente liberal apresentada pelo portal.

Essa ideia significa que o indivíduo deve ter liberdade para construir suas próprias convicções filosóficas e espirituais.

Dentro dessa perspectiva, a Maçonaria não deveria substituir a consciência individual por um dogma institucional.

O maçom é chamado a estudar, refletir, comparar ideias e assumir responsabilidade por suas próprias escolhas.

Essa concepção está relacionada a uma das características mais marcantes da Maçonaria liberal: o adogmatismo.

Ser adogmático, nesse contexto, não significa ausência de princípios. Significa não transformar uma determinada interpretação religiosa ou filosófica em condição universal para todos os membros.

LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

Outra diferença apresentada pelo site encontra-se na própria formulação simbólica dos trabalhos.

Na tradição regular descrita, os trabalhos são realizados sob referência ao Grande Arquiteto do Universo.

Na tradição liberal apresentada, o trabalho está associado aos princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Esses conceitos, entretanto, não precisam ser entendidos como incompatíveis com a busca espiritual. A história da Maçonaria demonstra justamente a existência de diferentes interpretações desses princípios.

Para alguns maçons, a liberdade humana encontra fundamento em uma dimensão transcendente.

Para outros, ela é entendida essencialmente como autonomia da consciência e responsabilidade ética.

O importante, para compreender a diversidade maçônica, é reconhecer que essas interpretações existem e possuem trajetórias históricas próprias.

A PRESENÇA DA MULHER

A questão da participação feminina constitui outra diferença importante.

O texto do portal afirma que as obediências regulares anglo-americanas tradicionalmente restringem a filiação aos homens, enquanto organizações liberais podem ser masculinas, femininas ou mistas.

A presença feminina na Maçonaria possui, entretanto, uma história própria e bastante rica.

Desde o surgimento de organizações maçônicas femininas e mistas, sobretudo na Europa, mulheres passaram a participar ativamente da tradição iniciática maçônica.

Essa diversidade também chegou à América Latina e a outras regiões.

Assim, atualmente encontramos diferentes modelos: Maçonaria masculina, feminina e mista, dependendo da obediência e da jurisdição.

COMO SURGIU A DIVISÃO?

A separação entre diferentes correntes não aconteceu de uma única vez.

O processo foi gradual e envolveu questões relacionadas ao reconhecimento entre obediências, jurisdição, religião, raça, organização administrativa e interpretação dos princípios maçônicos.

Um episódio mencionado pelo portal ocorreu em 1869, quando o Grande Oriente de França reconheceu um grupo maçônico da Louisiana formado por afro-americanos que não era reconhecido pela Grande Loja da Louisiana.

A questão acabou provocando o rompimento do reconhecimento entre determinadas jurisdições.

O episódio é importante porque demonstra que a história do reconhecimento maçônico também foi influenciada por questões sociais e raciais presentes na sociedade daquele período.

O ANO DE 1877

Um dos momentos decisivos ocorreu em 1877, quando o Grande Oriente de França alterou sua Constituição em relação à crença em Deus e à presença do Livro da Lei Sagrada.

O Grande Oriente deixou de exigir a crença em Deus como condição para ingresso e passou a permitir que cada Loja decidisse sobre a presença do Livro da Lei Sagrada.

A mudança foi recebida de maneira diferente pelas diversas potências maçônicas.

A Grande Loja Unida da Inglaterra e outras obediências passaram a considerar essas alterações incompatíveis com seus princípios de reconhecimento.

A partir daí, a distância entre as duas grandes tradições aumentou.

RECONHECIMENTO NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE “SER OU NÃO SER MAÇOM”

Aqui encontramos um ponto que merece atenção.

Dentro da linguagem maçônica, os termos regular e irregular possuem um significado técnico relacionado principalmente ao reconhecimento entre organizações maçônicas.

Não devem ser confundidos automaticamente com julgamentos sobre o valor moral ou pessoal dos membros de determinada obediência.

Uma organização pode ser reconhecida por determinadas potências e não reconhecida por outras.

Isso ocorre porque não existe uma autoridade maçônica universalmente aceita por todas as obediências do planeta.

A Maçonaria mundial é, portanto, uma realidade plural e descentralizada.

OS VALORES DA MAÇONARIA LIBERAL

O portal apresenta também um conjunto de valores associados à tradição liberal: democracia, direitos humanos, laicidade, solidariedade social, civilidade, proteção ambiental e dignidade humana.

Esses princípios procuram estabelecer uma relação entre a experiência maçônica e os grandes desafios da sociedade contemporânea.

A democracia aparece relacionada ao Estado de Direito e à divisão de poderes.

Os direitos humanos são apresentados como referência universal.

A laicidade é defendida como separação entre as instituições religiosas e o Estado, sem negar ao indivíduo sua liberdade religiosa.

A solidariedade social é compreendida como responsabilidade coletiva diante das desigualdades.

A preservação ambiental aparece como compromisso com as futuras gerações.

E a dignidade humana é colocada como fundamento de uma sociedade que deve garantir condições básicas de existência.

UMA MAÇONARIA, MUITAS EXPERIÊNCIAS

A análise dessas duas correntes permite compreender que a Maçonaria não pode ser reduzida a uma única definição.

Existem diferentes maneiras de interpretar a iniciação, a espiritualidade, os símbolos, a presença da religião, a participação feminina e o relacionamento da Loja com a sociedade.

Essa pluralidade pode, inclusive, ser entendida como parte da própria história da instituição.

A Maçonaria desenvolveu-se em diferentes países e contextos históricos. Naturalmente, suas estruturas também foram influenciadas pelas culturas e sociedades nas quais se estabeleceu.

O QUE UNE ALÉM DO QUE SEPARA?

Apesar das diferenças, há elementos comuns que continuam presentes em grande parte das tradições maçônicas: o valor da fraternidade, o aperfeiçoamento individual, a importância do conhecimento, o simbolismo da construção e a busca de uma convivência baseada no respeito.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores riquezas do universo maçônico.

Conhecer as diferenças não precisa significar transformar a diversidade em conflito.

Ao contrário: compreender que existem diferentes tradições pode ajudar o maçom a conhecer melhor a própria instituição e a respeitar aqueles que trabalham dentro de outra interpretação da Ordem.

CONCLUSÃO

Os “dois conceitos” apresentados pelo portal Masonería en Suecia representam duas importantes maneiras pelas quais a Maçonaria moderna se desenvolveu.

De um lado, uma tradição que preserva a crença em Deus, a presença do Livro da Lei Sagrada e a Maçonaria masculina como elementos fundamentais de sua identidade.

De outro, uma tradição liberal que coloca a liberdade absoluta de consciência no centro de sua proposta e admite diferentes posições religiosas, além de estruturas masculinas, femininas e mistas.

Mais do que escolher uma dessas interpretações, compreender essa diversidade permite olhar para a Maçonaria com maior profundidade histórica.

A história maçônica não é uma estrada única.

É uma construção formada por diferentes caminhos, tradições e interpretações.

E talvez uma das grandes lições da própria Maçonaria esteja justamente na capacidade de construir pontes entre homens e mulheres que pensam de maneiras diferentes, sem exigir que todos pensem da mesma maneira.

Fonte principal: Masonería en Suecia — Dos Conceptos de la Masonería

Observação editorial: o artigo acima apresenta as distinções segundo a perspectiva do próprio portal consultado. Termos como “regular”, “liberal”, “adogmática” e “irregular” têm usos diferentes conforme a obediência e a tradição maçônica, portanto não devem ser tratados como categorias universais ou como juízos de valor.





 

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