Por Irmão Dario Angelo Baggieri
A visão maçônica de peregrinação de um neófito no Caminho de Santiago de Compostela, costuma aparecer em dois sentidos: (1) como uma leitura simbólico-iniciática da rústica caminhada, aproximando-a de ideias maçônicas de jornada, trabalho interior e fraternidade; e (2) como título ou tema de palestras/ensaios que usam a metáfora do Caminho para falar da experiência maçônica.
Em textos de autores ligados à
Maçonaria, o Caminho de Santiago é lido como uma alegoria da iniciação: o
peregrino deixa o “mundo profano”, enfrenta provações (distância, fadiga,
dúvida), recebe sinais (setas amarelas, concha de vieira) e chega a um “templo”
(a Catedral de Santiago) como ponto de transformação, não apenas de
chegada. Nessa chave, o que importa não é só o destino, mas o caminhar
junto, a partilha, a atenção a cada passo — ideia que ressoa com o dito “o
verdadeiro tesouro da Maçonaria não está onde se chega, mas no caminhar
juntos”.
Há também uma camada esotérica
frequentemente evocada: a rota como espelho da Via Láctea (“Estrada do Leite”),
a orientação pelas constelações e a máxima hermética “como em cima, assim
embaixo”, sugerindo que o trajeto seguiria veios telúricos e uma geografia
sagrada. Embora essas leituras não sejam consenso histórico, elas
alimentam a imaginação simbólica de muitos peregrinos e de autores maçônicos.
Elementos do Caminho que
favorecem essa leitura
Símbolos e sinais: a concha de
vieira e as setas amarelas funcionam como “guias” no caminho, análogos a sinais
e marcas de reconhecimento em tradições iniciáticas.
Rituais de passagem: a obtenção
da Credencial do Peregrino e, ao final, da Compostela, cria um arco de
início–meio–fim típico de jornadas iniciáticas.
A chegada a Catedral de
Santiago, com o Pórtico da Gloria, é descrita como obra que plasmou uma visão
do Apocalipse, reforçando a ideia de portal/limiar entre mundos.
Nos Mosteiros e hospedarias do caminho, relevam estadias e a vida comunitária nas albergarias acentuando a dimensão fraternal e de partilha, cara à ética maçônica.
Há publicações e palestras que usam exatamente a fórmula “O Caminho Maçônico de Compostela” para desenvolver uma reflexão sobre presença, experiência e irmandade, concluindo que “cada passo é um chegar” e que o valor está no experienciar, não só no resultado. Em paralelo, há ensaios antropológicos sobre a patrimonialização dos Caminhos Portugueses que, sem serem “maçônicos”, abrem espaço para leituras holísticas da cultura e do património, compatíveis com abordagens simbólicas.
A Ordem Maçônica sugere e compõe
um texto ou fala com tom cerimonial/poético, nos mostrando a estruturação da
narrativa dessa viagem, também de cunho cabalístico, em três movimentos:
1) Partida: o desapego e a
decisão de caminhar;
2) Travessia: provas, encontros,
sinais (setas, conchas), noites de reflexão;
3) Chegada: a Catedral como
“templo”, mas com ênfase na transformação interior.
Assim, sem querer ser redundante,
ratifico que há jornadas que não se medem apenas em léguas, mas em
transformações. O Caminho de Santiago de Compostela é uma delas: uma via que,
desde a partida, convida a deixar o mundo profano e a entrar num espaço de
silêncio, prova e encontro. Não se trata apenas de chegar à Catedral, mas
de permitir que cada passo desfaça algo antigo e prepare algo novo — como num
rito de passagem em que o peregrino é, ao mesmo tempo, viajante e obra em
construção.
Símbolos que orientam e falam à
alma
Ao longo da rota, os sinais não
são meras indicações; são linguagem. A vieira, com suas linhas que convergem
para um único ponto, recorda que muitos caminhos distintos se encontram num só
destino, e que a alma, antes fechada como concha, se abre à experiência do
sagrado. As setas amarelas, pintadas a partir dos anos 1980 pelo padre
Elías Valiña, cumprem a mesma função ancestral da vieira medieval: orientar e
proteger, surgindo muitas vezes exatamente quando a dúvida começa a falar mais
alto. O bordão, a cruz de Santiago e os marcos de pedra completam esse
alfabeto visível, lembrando que a jornada é também comunitária, feita de
pertencimento e tradição.
A Catedral e o Pórtico da Glória
é o climax como limiar de todo o processo da caminhada
Chegar a Santiago é atravessar
um limiar. O Pórtico da Glória, obra magna do Mestre Mateus, exprime a visão
medieval do fim dos tempos e do Juízo Final, mas também oferece uma mensagem de
salvação: a cidade celeste, a luz do Cordeiro, a inteligência humana que pode
vencer as bestas. No arco central, Cristo preside, nos arcos laterais, o
Antigo e o Novo Testamento e o Juízo Final; na base, Santiago Apóstolo acolhe o
peregrino que se aproxima. Assim, a Catedral não é apenas ponto de
chegada geográfica: é templo que plasmou uma visão do Apocalipse e, ao mesmo
tempo, porta que se abre para uma nova ordem interior.
Uma leitura iniciática e
fraternal
Nessa chave, o Caminho
aproxima-se de uma experiência iniciática: partida (desapego), travessia
(provas, encontros, sinais) e chegada (transformação). O verdadeiro
tesouro não está apenas onde se chega, mas no caminhar juntos — na partilha do
pão, no silêncio das noites, na mão estendida no momento certo. Como numa
fraternidade que se reconhece pelos passos, o peregrino descobre que a luz que
busca já o guiava desde o início, e que cada marco, cada concha, cada seta era
uma palavra desse diálogo entre céu e terra.
Para meditar
Se o Caminho ensina algo, é isto: que a direção certa muitas vezes se revela quando aprendemos a escutar o passo, o sinal e o outro. E que, ao final, a Compostela que importa não é só a cidade na Galiza, mas a cidade interior que se edificou no trajeto — uma Jerusalém celeste feita de escolhas, encontros e silêncio.
Pesquisa Realizada por: Irmão Dario Angelo Baggieri
M.'.I.'. CIM 157465
Cadeira N° 1 AMLTF e AMLES
Patrono Alferes Tiradentes
Bibliografia
1) Mario Signorini
Meus passos pelo Caminho de Santiago de Compostela: Em breve, os teus?
2) Aécio Tirres
O Caminho - Santiago de Compostela
3) Professor Ricardo de Souza
A Peregrinação a Santiago de Compostela : O Caminho da Graça e da Cruz
4) Ricardo Rangel
O Destino é o Caminho: uma Crônica do Caminho de Santiago
5) Marcelo Prauchner Duarte
Santiago de Compostela, Um Caminho de Vida
6) A. J. Barros
O enigma de Compostela

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