210 - ESCOLAS FILOSÓFICAS E INFLUÊNCIAS NA MAÇONARIA: O ESTOICISMO (3)

Irmão José Ronaldo Viega Alves

Or.’. de Sant’Ana do Livramento - RS

“A Maçonaria vale-se da ética dos estoicos quando vê na virtude o único bem da vida. Viver de acordo com a virtude significa viver conforme a natureza, que se identifica com a razão, no sentido cósmico universal.” (Girardi, pág. 186, 2008)

INTRODUÇÃO

A primeira vez que li um artigo estabelecendo uma ligação entre os ensinamentos maçônicos e o sistema filosófico denominado estoicismo, foi num livro de autoria do Irmão Hans Bachl intitulado “Nos Bastidores da Maçonaria”. O livro, editado há bastante tempo, ainda deve constar no acervo de algumas Lojas mais antigas.

Lembro que a minha leitura desse livro se deu quando assumi a função de bibliotecário, o que fez com que me perguntasse:  Afinal, que tipo de bibliotecário eu poderei ser se não possuir um certo domínio dos livros que fazem parte desse acervo?

Não parei nunca mais de ler livros sobre Maçonaria, e até hoje mantenho o hábito de estar sempre lendo um livro ao menos sobre temas maçônicos. Obviamente, eu antes de ser iniciado já era um leitor voraz, e obviamente (outra vez) não eram livros sobre a Maçonaria.

Hoje possuo a minha biblioteca maçônica, e mesmo em tempos de urgência urgentíssima, com todo mundo preocupado em se reinventar, em absorver o máximo da Internet, do smartphone faz-tudo e da IA, entre outras tantas maravilhas, não abriria mão jamais do prazer de ler um livro de papel, e não é porque pareça um ato de extrema simplicidade e me aproxime do estoicismo, filosofia que prima por simplicidade e desprendimento, é porque são as coisas simples que nos dão maior prazer, são as coisas simples que estejamos atentos para o momento presente, sem estarmos tomados da ansiedade pelo futuro, mal dos tempos modernos.

Peço desculpas ao leitor pela digressão momentânea, e agora voltando ao livro mencionado, um dos primeiros livros da biblioteca da minha Loja que fiz a leitura, apreciei bastante os comentários e as citações do Irmão Hans Bachl sobre o estoicismo, tanto que, acabei creditando o despertar que tive na época para a Filosofia no âmbito da doutrina maçônica, à leitura desse livro em particular.

Este é o terceiro artigo de uma série que está voltada para as correntes filosóficas com influências na Maçonaria Especulativa ao longo da sua formação, e a partir de agora, convido o leitor a conhecer um pouco mais sobre as origens dessa escola que recebeu o nome de Estoicismo, assim como, quais foram os seus expoentes máximos, a essência do pensamento estoico e as suas conexões com a nossa doutrina.

MAÇONARIA E ESTOICISMO

Lembro que nos ensinamentos acerca dessa escola expostos no artigo do Irmão Bachl, embora que sucintos, ele cuidou de apontar alguns dos pontos bem próximos à nossa doutrina. O texto falava que a finalidade da nossa vida é a prática das virtudes, que a paz interna que todos certamente almejamos e buscamos somente é possível de alcançar a partir do momento que aprendamos a controlar-nos e a ter um completo domínio das nossas paixões, assim como, dos nossos sentimentos relativos ao medo e à aflição... Evidentemente, não haveria como passar despercebida os pontos em comum com os nossos objetivos e com a o que a Maçonaria professa.  

A expressão popular aquela que diz que um livro puxa outro é bem verdade, pois, aos poucos fui descobrindo mais autores Maçons que haviam escrito sobre o tema.  

Ao entrar em contato com a obra do Irmão Raimundo Rodrigues, escritor e estudioso pude perceber que ele deve deter o título de escritor Maçom que mais abordou a Filosofia, sendo que, em muitas das suas incursões pelo terreno da Filosofia foram várias ocasiões em que ele escreveu acerca dos estoicos.

Merece ser destacada aqui a série composta de quatro volumes desse mesmo autor intitulada “A Filosofia da Maçonaria Simbólica”, dividida nos seus volumes 1,2,3 e 4. No volume 1, que é uma sinopse da filosofia geral há um título “Período Pós-Aristotélico”. Dentro desse período há uma subdivisão: estoicismo, epicurismo, cepticismo e ecletismo. No primeiro parágrafo do texto referente ao estoicismo é possível lermos a seguinte frase:

“Das escolas pós-aristotélicas, o estoicismo foi a que teve maior influência, pelo menos até a implantação do Cristianismo.” (Rodrigues, 1999, pág. 140)  

O fato de que um dos pilares da Maçonaria é a prática da virtude, essa que significa a ação digna do homem, pode bem revelar que a Maçonaria extraiu muito das ideias disseminadas pelos estoicos fundindo-as com sua doutrina.

Dentre as tantas definições para a Filosofia, o sábio Prof. Moisés Mussa Battal fala de uma definição estoica, onde diz assim:

“Passemos à definição estoica. O que dizem os filósofos que estão em torno de nós e da doutrina maçônica? Que a Filosofia é o caminho que se há de seguir para alcançar a virtude. O termo virtude não o tomamos em sua conotação ou sua denotação moral. Tomemo-lo no sentido de superioridade, ou seja, de exaltação da condição humana; isto é, de erguer-se sobre o homem medíocre. E então, como vocês veem, a Filosofia é um caminho de perfeição.” (Grifo meu!) (Battal, pág. 30, 1990)

AS ORIGENS

A filosofia denominada Estoicismo surgiu em Atenas por volta do ano 300 a.C. e foi fundada por um filósofo chamado Zeno ou Zenão.

Ainda que, somente tenham chegado até nós fragmentos da obra de Zenão, há outros filósofos seguidores dessa doutrina e dos quais sobreviveram todas as suas obras, como é o caso de Epícteto, Sêneca e Marco Aurélio.

O estoicismo possui em comum com a Maçonaria o estabelecimento de normas claras no tocante ao comportamento, na luta que se deve empreender para o domínio de si mesmo, das paixões, além de deixar latente o compromisso que devemos ter com o mundo. Resumindo, o estoicismo é uma doutrina essencialmente moral. Mas, não é somente isso, também possui ensinamentos sobre a estrutura do cosmos e sobre o conhecimento humano.

O Irmão Raimundo Rodrigues acrescenta que o estoicismo pertence ao período helenístico, onde também surgiram o epicurismo, o ceticismo e o ecletismo.  (Rodrigues, págs. 43-45, 2003)

O escritor espanhol J.A. Cardona escreveu o seguinte sobre essa escola que ficou conhecida como Estoicismo:

“... fue la más influyente de las escuelas helenísticas, la que más caló con sus ideas en diversos estratos de la sociedad, no solo ateniense y griega, sino sobre todo, desde el comienzo de nuestra era, en la romana: incluso influyó a varios Padres de la Iglesia cuando crearon las ideas fundamentales del cristianismo. Su rasgo más destacado es la Concepción de un mundo estructurado racionalmente según un designio divino (orden metafísico), una organización general que puede ser entendida por la mente humana (orden espistemológico), y este reflejo de la inteligencia cósmica en la inteligencia individual es el paso previo a la aceptación de la pertenencia del hombre y su conducta a la estrutura general (orden ético). (Cardona, 2019, pág. 35)

LEVANTANDO TEMPLOS À VIRTUDE

E para que se reúnem os Maçons em seus Templo senão “Para promover o bem-estar da humanidade, levantando templos à virtude e cavando masmorras ao vício”?

Ora são os nossos rituais nos exortando a praticar as virtudes, ora são as nossas leituras de artigos e peças arquitetônicas nas revistas e livros de conteúdo maçônico, ora são os nossos Irmãos quando ministram instruções e palestras... Desde o momento em que fomos iniciados, a virtude, é com certeza uma das palavras mais citadas no âmbito da Maçonaria.

São vários os caminhos que nos remetem aos ensinamentos dos filósofos estoicos, pois, para estes últimos a virtude era valorizada e tratada como um bem absoluto e único. A Maçonaria quando nos mostra que o caminho para o bem-estar implica no cultivo da virtude, nos leva à dedução de que cultivá-la e praticá-la durante a nossa vivência tanto no ambiente maçônico como no profano consolida o pensamento de que ela é o laço mais forte entre a escola estoica e a doutrina maçônica.

O trecho seguinte que consta no Preâmbulo da Maçonaria oriundo de nossos Rituais, é uma prova cabal da importância de levantarmos templos à virtude e faz com que atentemos para o incentivo constante que deverá existir entre os Irmãos:

“A Ordem Maçônica é uma associação de homens esclarecidos e virtuosos que se consideram Irmãos entre si e cujo fim é viver em perfeita igualdade, intimamente ligados por laços de recíproca estima, confiança e amizade, estimulando-se, uns aos outros, na prática da virtude.” X

A ÉTICA DOS ESTOICOS E A ÉTICA MAÇÔNICA: PONTOS EM COMUM

A Maçonaria como sabemos é uma entidade progressista, portanto, depois que alguém é iniciado e passa a fazer parte do seu quadro de obreiros é desenvolvido um trabalho contínuo para a evolução do homem-maçom que inclui a busca de um ideal de felicidade comum a todos os seres humanos, apostando na fórmula de que não devemos nos deixar dominar pelas paixões, e esse é um ponto de confluência com a ética dos estoicos.

No “Vade-Mécum Maçônico”, essa grande compilação do Irmão João Ivo Girardi, lemos:

“A ética dos estoicos vê na virtude o único bem da vida. E viver de acordo com a virtude significa viver conforme a natureza, que se identifica com a razão, no sentido cosmológico universal. O lado patológico da realidade humana é constituído pelos afetos e pelas inclinações, consistindo a virtude na liberdade diante deles, dominando-os. Para os estoicos, sendo a virtude o único bem, o vício é também o único mal, sem termos intermediários, que para eles são indiferentes. A noção do dever, de viver segundo a razão, que significa o senso de responsabilidade, foi introduzida na ética pelos estoicos.“ (Girardi,2008, pág. 189)

Falemos agora sobre um outro princípio que assumiu extrema importância entre os estoicos que era o da irmandade universal da humanidade, tanto que diversas leis romanas voltadas ao favorecimento dos estrangeiros, foram fundamentadas no mesmo. (Champlin, pág. 540, 2008)

               Será que em sua essência também esse princípio não está presente na doutrina maçônica, pois, independente do lugar no mundo a Maçonaria em seus preceitos não é também universal e os Maçons não são todos Irmãos?

O Irmão Fernando César Gregório se refere ao Estoicismo como sendo uma filosofia preocupada com a interioridade do ser humano, com o resultado das suas atitudes e com a capacidade de poder decidir sobre as suas ações. E para agir livremente, as dificuldades maiores estariam afetas às paixões, as quais podem desviar a alma de uma vida de felicidade.

              Na sequência ele tece seus comentários voltados para as similaridades encontráveis entre a doutrina maçônica e a filosofia estoica:

“Analogamente ao estoicismo, a instigante Instituição Maçônica busca o constante desenvolvimento do homem, também se dedica ao estudo das paixões e da felicidade apontando aqueles empecilhos para o homem ser livre e feliz, mesmo que suas indicações sejam adogmáticas ou se expressem por meio de símbolos, alegorias e lendas. Ensinam os antigos rituais que na Maçonaria se trabalha para acostumar o espírito a curvar-se às grandes afeições e a não conceber senão ideias sólidas de Bondade e de Virtude, porque é só regulando os costumes pelos princípios eternos do Moral, que poderemos dar à nossa alma esse equilíbrio de força e de sensibilidade que constitui a sabedoria, ou, antes, a ciência da vida.” (Gregório, 2005, pág. 25 e 26)

COMENTÁRIOS FINAIS

A essência filosófica do que a escola estoica produziu não somente influenciou a doutrina maçônica, eis que, muitos dos filósofos que surgiram posteriormente acabaram bebendo nos ensinamentos dessa fonte chamada Estoicismo. Entre eles, Baruch Espinosa foi um que pregou uma libertação do homem para com suas paixões, um passo fundamental para ir ao encontro da verdadeira felicidade.

A Maçonaria em sua doutrina deixa visível essa influência, e conforme pudemos constatar ao longo do trabalho desenvolvido, o aspecto virtude, entre outros, é aquele que é colocado com maior evidência.

É durante a cerimônia da Iniciação que é dirigida uma pergunta ao candidato sobre o que ele entende por virtude. Depois que ele responde à esta pergunta, com suas próprias palavras, é dito que a virtude é uma disposição da alma que nos induz a praticar o bem.

Um pouco mais adiante é dito ao candidato que nos reunimos no Templo para trabalharmos com vistas a acostumarmos nosso espírito a curvar-se à grandes afeições e não conceber senão ideias sólidas de virtude.

Resumindo: durante a longa caminhada do Maçom, haverá inúmeras ocasiões em que serão exaltadas as quatro virtudes cardinais: a prudência, a temperança, a fortaleza e a justiça. Cada uma delas merecendo ser amplamente estudada e praticada.  

O difícil é constatar a dificuldade de seguir os ensinamentos do Estoicismo em nosso mundo de ególatras, de competição, de hipocrisia, de ambição, de consumismo e de ostentação... Ainda caberia muito mais nesta lista, mas, o objetivo aqui é somente o de alertar para os perigos de viver em uma sociedade que pouco quer apostar em simplicidade e paz interior.  

O Maçom cada vez mais tem que ser resiliente.

...

 

CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS:

BACHL, Hans. “Nos Bastidores da Maçonaria” – Gráfica Editora Aurora Limitada. – 1976

BATTAL, Moisés Mussa. “Lições de Filosofia Geral e Maçônica” – Transcrição de Merary Castillo Venegas – Editora “A Gazeta Maçônica” – 1990

CARDONA, J.A. “Filosofia Helenística – Estoicos, epicúreos y escépticos” – Emse, Edapp, S.L. – 2019 -

CHAMPLIN, R.N. “Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia” – Volume 2 – Editora Hagnos – 9ª Edição - 2008

GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008

GREGÓRIO, Fernando César. “Ética e Maçonaria” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2005

Ritual e Instruções do Grau de Aprendiz-Maçom – GORGS - Edição 2017

RODRIGUES, Raimundo. “A Filosofia da Maçonaria Simbólica” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1999 – 1ª Edição

RODRIGUES, Raimundo. “Sutilezas da Arte Real” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição - 2003

 

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