Irmão José Ronaldo Viega Alves
Or.’. de Sant’Ana do Livramento - RS
“A Maçonaria vale-se da ética dos
estoicos quando vê na virtude o único bem da vida. Viver de acordo com a
virtude significa viver conforme a natureza, que se identifica com a razão, no
sentido cósmico universal.” (Girardi, pág. 186, 2008)
INTRODUÇÃO
A primeira vez que li um artigo estabelecendo
uma ligação entre os ensinamentos maçônicos e o sistema filosófico denominado
estoicismo, foi num livro de autoria do Irmão Hans Bachl intitulado “Nos
Bastidores da Maçonaria”. O livro, editado há bastante tempo, ainda deve
constar no acervo de algumas Lojas mais antigas.
Lembro que a minha leitura desse livro se deu
quando assumi a função de bibliotecário, o que fez com que me perguntasse: Afinal, que tipo de bibliotecário eu poderei
ser se não possuir um certo domínio dos livros que fazem parte desse acervo?
Não parei nunca mais de ler livros sobre
Maçonaria, e até hoje mantenho o hábito de estar sempre lendo um livro ao menos
sobre temas maçônicos. Obviamente, eu antes de ser iniciado já era um leitor
voraz, e obviamente (outra vez) não eram livros sobre a Maçonaria.
Hoje possuo a minha biblioteca maçônica, e
mesmo em tempos de urgência urgentíssima, com todo mundo preocupado em se
reinventar, em absorver o máximo da Internet, do smartphone faz-tudo e da IA,
entre outras tantas maravilhas, não abriria mão jamais do prazer de ler um
livro de papel, e não é porque pareça um ato de extrema simplicidade e me aproxime
do estoicismo, filosofia que prima por simplicidade e desprendimento, é porque
são as coisas simples que nos dão maior prazer, são as coisas simples que
estejamos atentos para o momento presente, sem estarmos tomados da ansiedade
pelo futuro, mal dos tempos modernos.
Peço desculpas ao leitor pela digressão
momentânea, e agora voltando ao livro mencionado, um dos primeiros livros da
biblioteca da minha Loja que fiz a leitura, apreciei bastante os comentários e
as citações do Irmão Hans Bachl sobre o estoicismo, tanto que, acabei
creditando o despertar que tive na época para a Filosofia no âmbito da doutrina
maçônica, à leitura desse livro em particular.
Este é o terceiro artigo de uma série que está
voltada para as correntes filosóficas com influências na Maçonaria Especulativa
ao longo da sua formação, e a partir de agora, convido o leitor a conhecer um
pouco mais sobre as origens dessa escola que recebeu o nome de Estoicismo, assim
como, quais foram os seus expoentes máximos, a essência do pensamento estoico e
as suas conexões com a nossa doutrina.
MAÇONARIA E ESTOICISMO
Lembro que nos ensinamentos acerca dessa escola
expostos no artigo do Irmão Bachl, embora que sucintos, ele cuidou de apontar alguns
dos pontos bem próximos à nossa doutrina. O texto falava que a finalidade da
nossa vida é a prática das virtudes, que a paz interna que todos certamente almejamos
e buscamos somente é possível de alcançar a partir do momento que aprendamos a
controlar-nos e a ter um completo domínio das nossas paixões, assim como, dos
nossos sentimentos relativos ao medo e à aflição... Evidentemente, não haveria
como passar despercebida os pontos em comum com os nossos objetivos e com a o
que a Maçonaria professa.
A expressão popular aquela que diz que um livro
puxa outro é bem verdade, pois, aos poucos fui descobrindo mais autores Maçons
que haviam escrito sobre o tema.
Ao entrar em contato com a obra do Irmão
Raimundo Rodrigues, escritor e estudioso pude perceber que ele deve deter o
título de escritor Maçom que mais abordou a Filosofia, sendo que, em muitas das
suas incursões pelo terreno da Filosofia foram várias ocasiões em que ele escreveu
acerca dos estoicos.
Merece ser destacada aqui a série composta de
quatro volumes desse mesmo autor intitulada “A Filosofia da Maçonaria Simbólica”,
dividida nos seus volumes 1,2,3 e 4. No volume 1, que é uma sinopse da
filosofia geral há um título “Período Pós-Aristotélico”. Dentro desse período
há uma subdivisão: estoicismo, epicurismo, cepticismo e ecletismo. No primeiro
parágrafo do texto referente ao estoicismo é possível lermos a seguinte frase:
“Das escolas pós-aristotélicas, o
estoicismo foi a que teve maior influência, pelo menos até a implantação do
Cristianismo.”
(Rodrigues, 1999, pág. 140)
O fato de que um dos pilares da Maçonaria é a
prática da virtude, essa que significa a ação digna do homem, pode bem revelar que
a Maçonaria extraiu muito das ideias disseminadas pelos estoicos fundindo-as com
sua doutrina.
Dentre as tantas definições para a Filosofia, o
sábio Prof. Moisés Mussa Battal fala de uma definição estoica, onde diz assim:
“Passemos à definição estoica. O que
dizem os filósofos que estão em torno de nós e da doutrina maçônica? Que a
Filosofia é o caminho que se há de seguir para alcançar a virtude. O termo
virtude não o tomamos em sua conotação ou sua denotação moral. Tomemo-lo no
sentido de superioridade, ou seja, de exaltação da condição humana; isto é, de
erguer-se sobre o homem medíocre. E então, como vocês veem, a Filosofia é um
caminho de perfeição.” (Grifo meu!) (Battal, pág. 30, 1990)
AS ORIGENS
A filosofia denominada Estoicismo surgiu em
Atenas por volta do ano 300 a.C. e foi fundada por um filósofo chamado Zeno ou
Zenão.
Ainda que, somente tenham chegado até nós
fragmentos da obra de Zenão, há outros filósofos seguidores dessa doutrina e
dos quais sobreviveram todas as suas obras, como é o caso de Epícteto, Sêneca e
Marco Aurélio.
O estoicismo possui em comum com a Maçonaria o
estabelecimento de normas claras no tocante ao comportamento, na luta que se
deve empreender para o domínio de si mesmo, das paixões, além de deixar latente
o compromisso que devemos ter com o mundo. Resumindo, o estoicismo é uma
doutrina essencialmente moral. Mas, não é somente isso, também possui
ensinamentos sobre a estrutura do cosmos e sobre o conhecimento humano.
O Irmão Raimundo Rodrigues acrescenta que o
estoicismo pertence ao período helenístico, onde também surgiram o epicurismo,
o ceticismo e o ecletismo. (Rodrigues,
págs. 43-45, 2003)
O escritor espanhol J.A. Cardona escreveu o
seguinte sobre essa escola que ficou conhecida como Estoicismo:
“... fue la más influyente de las
escuelas helenísticas, la que más caló con sus ideas en diversos estratos de la
sociedad, no solo ateniense y griega, sino sobre todo, desde el comienzo de
nuestra era, en la romana: incluso influyó a varios Padres de la Iglesia cuando
crearon las ideas fundamentales del cristianismo. Su rasgo más destacado es la
Concepción de un mundo estructurado racionalmente según un designio divino
(orden metafísico), una organización general que puede ser entendida por la
mente humana (orden espistemológico), y este reflejo de la inteligencia cósmica
en la inteligencia individual es el paso previo a la aceptación de la
pertenencia del hombre y su conducta a la estrutura general (orden ético).
(Cardona, 2019, pág. 35)
LEVANTANDO TEMPLOS À VIRTUDE
E para que se reúnem os Maçons em seus Templo
senão “Para promover o bem-estar da humanidade, levantando templos à virtude
e cavando masmorras ao vício”?
Ora são os nossos rituais nos exortando a
praticar as virtudes, ora são as nossas leituras de artigos e peças
arquitetônicas nas revistas e livros de conteúdo maçônico, ora são os nossos
Irmãos quando ministram instruções e palestras... Desde o momento em que fomos
iniciados, a virtude, é com certeza uma das palavras mais citadas no âmbito da
Maçonaria.
São vários os caminhos que nos remetem aos
ensinamentos dos filósofos estoicos, pois, para estes últimos a virtude era
valorizada e tratada como um bem absoluto e único. A Maçonaria quando nos
mostra que o caminho para o bem-estar implica no cultivo da virtude, nos leva à
dedução de que cultivá-la e praticá-la durante a nossa vivência tanto no
ambiente maçônico como no profano consolida o pensamento de que ela é o laço
mais forte entre a escola estoica e a doutrina maçônica.
O trecho seguinte que consta no Preâmbulo da
Maçonaria oriundo de nossos Rituais, é uma prova cabal da importância de
levantarmos templos à virtude e faz com que atentemos para o incentivo
constante que deverá existir entre os Irmãos:
“A Ordem Maçônica é uma associação de
homens esclarecidos e virtuosos que se consideram Irmãos entre si e cujo fim é
viver em perfeita igualdade, intimamente ligados por laços de recíproca estima,
confiança e amizade, estimulando-se, uns aos outros, na prática da virtude.” X
A ÉTICA DOS ESTOICOS E A ÉTICA MAÇÔNICA: PONTOS
EM COMUM
A Maçonaria como sabemos é uma entidade
progressista, portanto, depois que alguém é iniciado e passa a fazer parte do
seu quadro de obreiros é desenvolvido um trabalho contínuo para a evolução do
homem-maçom que inclui a busca de um ideal de felicidade comum a todos os seres
humanos, apostando na fórmula de que não devemos nos deixar dominar pelas
paixões, e esse é um ponto de confluência com a ética dos estoicos.
No “Vade-Mécum Maçônico”, essa grande compilação
do Irmão João Ivo Girardi, lemos:
“A ética dos estoicos vê na virtude o
único bem da vida. E viver de acordo com a virtude significa viver conforme a
natureza, que se identifica com a razão, no sentido cosmológico universal. O
lado patológico da realidade humana é constituído pelos afetos e pelas
inclinações, consistindo a virtude na liberdade diante deles, dominando-os.
Para os estoicos, sendo a virtude o único bem, o vício é também o único mal,
sem termos intermediários, que para eles são indiferentes. A noção do dever, de
viver segundo a razão, que significa o senso de responsabilidade, foi
introduzida na ética pelos estoicos.“ (Girardi,2008, pág. 189)
Falemos agora sobre um outro princípio que
assumiu extrema importância entre os estoicos que era o da irmandade
universal da humanidade, tanto que diversas leis romanas voltadas ao
favorecimento dos estrangeiros, foram fundamentadas no mesmo. (Champlin, pág.
540, 2008)
Será que em sua essência também esse princípio não está presente na
doutrina maçônica, pois, independente do lugar no mundo a Maçonaria em seus preceitos
não é também universal e os Maçons não são todos Irmãos?
O Irmão Fernando César Gregório se refere ao
Estoicismo como sendo uma filosofia preocupada com a interioridade do ser
humano, com o resultado das suas atitudes e com a capacidade de poder decidir
sobre as suas ações. E para agir livremente, as dificuldades maiores estariam
afetas às paixões, as quais podem desviar a alma de uma vida de felicidade.
Na sequência ele tece seus comentários voltados para as similaridades
encontráveis entre a doutrina maçônica e a filosofia estoica:
“Analogamente ao estoicismo, a
instigante Instituição Maçônica busca o constante desenvolvimento do homem,
também se dedica ao estudo das paixões e da felicidade apontando aqueles
empecilhos para o homem ser livre e feliz, mesmo que suas indicações sejam
adogmáticas ou se expressem por meio de símbolos, alegorias e lendas. Ensinam
os antigos rituais que na Maçonaria se trabalha para acostumar o espírito a
curvar-se às grandes afeições e a não conceber senão ideias sólidas de Bondade
e de Virtude, porque é só regulando os costumes pelos princípios eternos do
Moral, que poderemos dar à nossa alma esse equilíbrio de força e de
sensibilidade que constitui a sabedoria, ou, antes, a ciência da vida.”
(Gregório, 2005, pág. 25 e 26)
COMENTÁRIOS FINAIS
A essência filosófica do que a escola estoica
produziu não somente influenciou a doutrina maçônica, eis que, muitos dos
filósofos que surgiram posteriormente acabaram bebendo nos ensinamentos dessa
fonte chamada Estoicismo. Entre eles, Baruch Espinosa foi um que pregou uma
libertação do homem para com suas paixões, um passo fundamental para ir ao
encontro da verdadeira felicidade.
A Maçonaria em sua doutrina deixa visível essa
influência, e conforme pudemos constatar ao longo do trabalho desenvolvido, o
aspecto virtude, entre outros, é aquele que é colocado com maior evidência.
É durante a cerimônia da Iniciação que é
dirigida uma pergunta ao candidato sobre o que ele entende por virtude. Depois
que ele responde à esta pergunta, com suas próprias palavras, é dito que a
virtude é uma disposição da alma que nos induz a praticar o bem.
Um pouco mais adiante é dito ao candidato que
nos reunimos no Templo para trabalharmos com vistas a acostumarmos nosso
espírito a curvar-se à grandes afeições e não conceber senão ideias sólidas de
virtude.
Resumindo: durante a longa caminhada do Maçom,
haverá inúmeras ocasiões em que serão exaltadas as quatro virtudes cardinais: a
prudência, a temperança, a fortaleza e a justiça. Cada uma delas merecendo ser amplamente
estudada e praticada.
O difícil é constatar a dificuldade de seguir
os ensinamentos do Estoicismo em nosso mundo de ególatras, de competição, de
hipocrisia, de ambição, de consumismo e de ostentação... Ainda caberia muito
mais nesta lista, mas, o objetivo aqui é somente o de alertar para os perigos de
viver em uma sociedade que pouco quer apostar em simplicidade e paz interior.
O Maçom cada vez mais tem que ser resiliente.
...
CONSULTAS BIBLIOGRÁFICAS:
BACHL, Hans. “Nos Bastidores da Maçonaria” –
Gráfica Editora Aurora Limitada. – 1976
BATTAL, Moisés Mussa. “Lições de Filosofia
Geral e Maçônica” – Transcrição de Merary Castillo Venegas – Editora “A Gazeta
Maçônica” – 1990
CARDONA, J.A. “Filosofia Helenística –
Estoicos, epicúreos y escépticos” – Emse, Edapp, S.L. – 2019 -
CHAMPLIN, R.N. “Enciclopédia de Bíblia,
Teologia e Filosofia” – Volume 2 – Editora Hagnos – 9ª Edição - 2008
GIRARDI, João Ivo. “Do Meio-Dia à Meia-Noite
Vade-Mécum Maçônico” – Nova Letra Gráfica e Editora Ltda. 2ª Edição – 2008
GREGÓRIO, Fernando César. “Ética e Maçonaria” –
Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. – 1ª Edição – 2005
Ritual e Instruções do Grau de Aprendiz-Maçom –
GORGS - Edição 2017
RODRIGUES, Raimundo. “A Filosofia da Maçonaria
Simbólica” – Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1999 – 1ª Edição
RODRIGUES, Raimundo. “Sutilezas da Arte Real” –
Editora Maçônica “A Trolha” Ltda. 1ª Edição - 2003
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