Jesse Owens: o Maçom Que Correu Contra o Racismo

 Da Redação

Jesse Owens entrou para a história ao conquistar quatro medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, em plena ascensão do nazismo e de sua ideologia de superioridade racial. Sua trajetória, porém, vai além do esporte: revela uma poderosa reflexão sobre igualdade, fraternidade e dignidade humana. Iniciado na Maçonaria em 1974, Owens tornou-se também símbolo dos valores de disciplina, perseverança e superação. Este documentário apresenta sua história, a luta de Prince Hall contra a discriminação racial e as ideias de Anténor Firmin sobre a igualdade entre os seres humanos. Uma reflexão maçônica sobre preconceito, virtude e fraternidade, mostrando que nenhum homem precisa ser diminuído para que outro seja elevado.

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JESSE OWENS: O MAÇOM QUE CORREU CONTRA O RACISMO

Berlim, 1936.

Os Jogos Olímpicos foram realizados em uma Alemanha dominada pelo regime nazista de Adolf Hitler.

Naquele momento, o mundo testemunhava uma das experiências políticas mais sombrias do século XX.

A propaganda nazista defendia a existência de uma suposta raça superior.

Mas, naquele estádio, um homem estava prestes a oferecer uma resposta que nenhum discurso poderia superar.

Seu nome era James Cleveland Owens.

Jesse Owens.

Um atleta negro, norte-americano, filho de uma família humilde.

Em poucos dias, ele conquistaria quatro medalhas de ouro.

E sua presença em Berlim se transformaria em um dos episódios mais simbólicos da história do esporte.

Mas existe algo nessa história que muitas vezes é esquecido.

Jesse Owens era maçom.

E sua trajetória nos permite fazer uma pergunta importante:

O que a vida de Jesse Owens pode nos ensinar sobre a igualdade, a fraternidade e

Quando os atletas chegaram a Berlim, a Alemanha nazista pretendia utilizar os Jogos Olímpicos como uma grande vitrine internacional.

O regime queria mostrar ao mundo a força de seu país e, ao mesmo tempo, apresentar sua ideologia racial.

Mas a realidade encontraria uma maneira inesperada de confrontar a propaganda.

Jesse Owens venceu os 100 metros.

Depois, venceu o salto em distância.

Em seguida, conquistou os 200 metros.

E completou sua participação com uma quarta medalha de ouro no revezamento 4 por 100 metros.

Quatro medalhas de ouro.

Um desempenho extraordinário.

Para muitos historiadores e especialistas, Owens tornou-se o grande nome daqueles Jogos.

Mas suas vitórias representavam algo maior.

Cada corrida colocava em dúvida a ideia de que características raciais determinariam o valor ou o potencial de um ser humano.

O nazismo não inventou o racismo.

Mas transformou teorias raciais em instrumento de Estado.

A ideia de que alguns povos seriam naturalmente superiores a outros havia circulado na Europa muito antes da ascensão de Hitler.

Um dos nomes ligados a essas teorias foi Joseph Arthur de Gobineau.

Seu pensamento ajudou a popularizar, no século XIX, concepções de desigualdade entre grupos humanos.

Décadas depois, essas ideias seriam distorcidas e incorporadas à propaganda racial nazista.

Foi contra esse tipo de pensamento que outro intelectual havia escrito, ainda em 1885.

Seu nome era Joseph Auguste Anténor Firmin.

Firmin publicou De l'égalité des Races HumainesSobre a Igualdade das Raças Humanas.

Sua mensagem era radicalmente diferente:

a humanidade não deveria ser organizada em uma hierarquia de raças.

O progresso humano dependia da capacidade de reconhecer a dignidade e o desenvolvimento de todos.


Cinco décadas depois da publicação de Firmin, Jesse Owens entrou na pista de Berlim.

Ele provavelmente não pensava em ser protagonista de uma disputa filosófica.

Seu objetivo era competir.

Treinar.

Vencer.

Mas a história transformou suas vitórias em um poderoso argumento contra o preconceito.

Owens não precisou escrever um tratado.

Não precisou fazer um discurso.

Correu.

Saltou.

Venceu.

E mostrou que a capacidade humana não pode ser determinada por teorias preconceituosas.

Existe uma poderosa ironia histórica nesse episódio.

Uma ideologia dizia que alguns homens nasceriam superiores.

Um atleta negro demonstrava, diante do mundo, uma excelência extraordinária.

E a pista de atletismo acabava se transformando em um espaço de confronto entre propaganda e realidade.

Seria fácil transformar essa história em uma narrativa simples:

Jesse Owens venceu Hitler e o problema estava resolvido.

Mas não foi assim.

O racismo continuava existindo nos Estados Unidos.

E Owens conhecia muito bem essa realidade.

Anos depois, ele faria uma observação particularmente dolorosa sobre seu retorno das Olimpíadas.

Segundo o próprio atleta, Hitler não foi quem mais o desprezou.

Owens reclamou que o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt não lhe enviou sequer um telegrama.

Roosevelt era maçom.

Esse episódio nos lembra de algo importante:

o preconceito não pertence exclusivamente a um país, a uma ideologia ou a um período histórico.

Ele pode aparecer onde os princípios de igualdade ainda não foram plenamente praticados.

É aqui que a história de Jesse Owens encontra uma questão particularmente importante para a Maçonaria.

O Ritual Maçônico não define o valor de um candidato pela cor de sua pele.

A linguagem simbólica da Ordem está relacionada à fraternidade, à moral, à justiça, ao aperfeiçoamento e à igualdade fundamental dos homens.

Mas a Maçonaria é formada por seres humanos.

E os seres humanos vivem dentro de sociedades marcadas pelas ideias e pelos preconceitos de cada época.

Nos Estados Unidos do século XVIII, homens negros encontraram obstáculos para participar de lojas predominantemente brancas.

Essa realidade contribuiu para o surgimento da tradição maçônica associada ao nome de Prince Hall.

Em 29 de setembro de 1784, Prince Hall e outros quatorze homens participaram de um momento fundamental para a história da Maçonaria afro-americana.

Nascia uma tradição que ficaria conhecida como Maçonaria Prince Hall.

Prince Hall enfrentava uma sociedade que restringia o acesso dos negros à educação e a diversas oportunidades sociais.

Mas ele defendia uma ideia profundamente ligada à filosofia maçônica.

Mesmo quando alguém é privado de determinados recursos externos, continua possuindo a capacidade de pensar.

De ouvir.

De ponderar.

De formar seu próprio julgamento.

Essa força interior é fundamental.

Porque a verdadeira liberdade não depende apenas daquilo que recebemos do mundo exterior.

Ela também depende da capacidade de governarmos nossa própria mente.

Para Prince Hall, pensar era uma forma de resistência.

Meditar era uma forma de preservar a dignidade.

E manter os princípios era uma maneira de realizar a Grande Obra em meio às dificuldades da existência.

Existe ainda outra dimensão fascinante nessa história.

Jesse Owens só foi iniciado na Maçonaria décadas depois de suas grandes conquistas esportivas.

Sua iniciação ocorreu em 1974, na Mount Zion Lodge número 88, em Cleveland, Ohio.

Ele tinha 61 anos.

Mas aqui encontramos uma questão filosófica interessante.

Owens já demonstrava, muito antes da iniciação, características que a Maçonaria procura desenvolver no homem.

Disciplina.

Perseverança.

Coragem.

Autodomínio.

Humildade diante do trabalho.

Capacidade de enfrentar adversidades.

Isso nos leva a uma reflexão:

A Maçonaria cria o homem virtuoso ou reconhece no homem uma disposição para a virtude que já existe dentro dele?

Talvez a resposta esteja justamente no simbolismo maçônico.

A Ordem não fabrica virtudes.

Ela procura lapidá-las.

Como o escultor diante da pedra bruta, o iniciado trabalha sobre aquilo que já existe.

Em 1885, Anténor Firmin escreveu palavras que parecem atravessar o tempo.

Ele defendia a ideia de que uma corrente invisível une os membros da humanidade.

Para Firmin, o progresso de uma pessoa não deveria depender da diminuição de outra.

E essa concepção possui uma extraordinária afinidade com a ideia de fraternidade.

Porque fraternidade não significa apenas tratar bem aqueles que pertencem ao nosso grupo.

Significa reconhecer no outro um ser humano dotado de dignidade.

A grande pergunta, portanto, não é:

“De que grupo ele pertence?”

A pergunta deveria ser:

“Que homem ou mulher ele é?”

A trajetória de Jesse Owens pode ser resumida em uma palavra:

superação.

Mas existe algo ainda maior.

Sua vida demonstra que características exteriores não determinam a grandeza de um ser humano.

A cor da pele não determina a inteligência.

A origem não determina o caráter.

A aparência não determina a dignidade.

E nenhuma ideologia pode estabelecer uma hierarquia natural entre seres humanos.

Owens não destruiu sozinho o racismo.

Mas suas vitórias contribuíram para destruir uma mentira.

E, às vezes, destruir uma mentira é o primeiro passo para construir uma verdade.

A história de Jesse Owens também nos obriga a olhar para dentro da própria Maçonaria.

Não basta possuir belos princípios escritos em livros.

Não basta conhecer o Ritual.

Não basta repetir palavras como liberdade, igualdade e fraternidade.

É preciso praticá-las.

A Fraternidade verdadeira começa quando reconhecemos no outro um semelhante.

Quando julgamos o homem por suas ações e seu caráter.

Quando recusamos preconceitos.

Quando não aceitamos que alguém seja diminuído para que outro possa parecer superior.

Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos que Jesse Owens deixou para todos nós.

Jesse Owens morreu em 1980.

Mas a corrida iniciada naquele estádio de Berlim ainda não terminou.

O mundo continua enfrentando preconceitos.

Ainda existem discursos de superioridade.

Ainda existem pessoas que procuram transformar diferenças em motivo para separação.

Por isso, a história de Owens continua necessária.

Um homem negro entrou em uma pista construída no centro de uma das maiores experiências totalitárias da história.

E correu.

Correu tão rápido que seus feitos atravessaram décadas.

Correu tão longe que sua história chegou aos nossos dias.

E, anos depois, esse mesmo homem ingressou na Maçonaria.

Talvez seu maior ensinamento não esteja nas quatro medalhas de ouro.

Talvez esteja naquilo que elas representam.

Que nenhum ser humano nasce destinado à inferioridade.

Que o talento não possui cor.

Que a dignidade não possui raça.

E que a fraternidade somente será verdadeira quando for praticada entre todos.

Jesse Owens correu contra o cronômetro.

Mas, sem saber, também correu contra o preconceito.

E sua história nos deixa uma última mensagem:

O verdadeiro progresso da humanidade começa quando deixamos de perguntar quem é superior e passamos a perguntar o que podemos fazer juntos para tornar o mundo melhor.

E talvez seja por isso que, diante do sorriso de Jesse Owens, uma antiga mensagem universal continue fazendo sentido:

Amai-vos uns aos outros.


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