Um histórico templo maçônico de Vienne, na França, voltou a ser alvo de vandalismo. A Loja Concorde et Persévérance, fundada em 1781 e vinculada ao Grand Orient de France, teve portas e vidraças danificadas e foi coberta por inscrições de ódio, símbolos nazistas, suásticas e ameaças. O episódio é especialmente significativo porque o local já havia sofrido ataques em 2019 e 2024. A violência contra o templo também evoca um período sombrio da história francesa, quando a Maçonaria foi perseguida durante o regime de Vichy e a ocupação nazista, com lojas fechadas, bens confiscados e arquivos destruídos. Mais do que vandalismo, o ataque representa uma ameaça à memória histórica, à liberdade de associação e à tolerância. Preservar esse patrimônio significa também preservar uma parte da história da Maçonaria e da sociedade democrática europeia.
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ATAQUE NEONAZISTA
CONTRA TEMPLO MAÇÔNICO NA FRANÇA”.
Por
Luiz Sérgio de Freitas Castro
Um
episódio ocorrido recentemente na França voltou a chamar a atenção para um
problema que acompanha a história da Maçonaria europeia: o antimaçonismo e a
utilização de símbolos de ódio contra a instituição.
Na
noite de 31 de julho de 2026, o histórico templo da Loja Concorde et
Persévérance, localizado na cidade de Vienne, na região de
Auvergne-Rhône-Alpes, no sudeste da França, foi novamente alvo de vandalismo. A
Loja é vinculada ao Grand Orient de France e possui uma trajetória que remonta
a 1781, quando foi fundada sob o nome de La Concorde.
Segundo
as informações divulgadas pelo pesquisador maçônico Christopher Hodapp, autor
do blog Freemasons for Dummies, os invasores quebraram vidraças e
danificaram uma porta. Nas paredes e na entrada do edifício foram pintadas
suásticas nazistas, símbolos associados à SS, inscrições antijudaicas, ameaças
de morte e outras mensagens de ódio. Também apareceu o número 666 e uma
representação que parece estar relacionada ao chamado Sol Negro, símbolo
posteriormente apropriado por grupos neonazistas e supremacistas.
O
episódio ganha uma dimensão ainda mais grave quando se considera o passado
daquele edifício. A Loja já havia sido atacada anteriormente. Segundo a fonte,
ocorreram dois ataques em 2019, outro em 2024 e agora novamente em 2026. Nos
episódios anteriores, os invasores chegaram a entrar no prédio, causando danos,
destruindo e levando objetos e mobiliário.
Uma
história marcada pela perseguição
O
caso de Vienne não pode ser analisado apenas como um ato isolado de vandalismo.
A
Maçonaria francesa possui uma história particularmente complexa. Durante
séculos, suas lojas participaram da vida intelectual, cultural e social do
país. Paris e Lyon tornaram-se importantes centros maçônicos já no século
XVIII, e a documentação histórica francesa sobre a Ordem inclui manuscritos,
diplomas, gravuras, objetos ritualísticos e numerosos registros preservados em
instituições públicas
Ao
mesmo tempo, a Maçonaria também foi alvo de fortes campanhas de perseguição
política e ideológica.
Durante
a Segunda Guerra Mundial, especialmente sob o regime de Vichy e a ocupação
alemã, organizações maçônicas foram proibidas na França. Seus bens foram
confiscados e muitos templos foram saqueados. Arquivos maçônicos foram
apreendidos, e numerosos maçons sofreram perseguições, deportações e mortes.
Por
isso, a presença de símbolos nazistas em um edifício maçônico histórico possui
um significado que ultrapassa a simples depredação de patrimônio. Ela evoca uma
memória dolorosa de um período em que a Maçonaria foi oficialmente perseguida e
considerada inimiga pelos regimes totalitários.
O
simbolismo nazista contra a Maçonaria
O
nazismo não via a Maçonaria apenas como uma associação privada. A ideologia
nazista colocou judeus e maçons entre os grupos que deveriam ser combatidos e
eliminados de sua esfera de influência.
A
perseguição fazia parte de uma visão conspiratória segundo a qual diferentes
grupos sociais e políticos estariam secretamente unidos contra o Estado e a
sociedade alemã.
Essa
associação entre judeus e maçons também alimentou diversas teorias
conspiratórias ao longo dos séculos XIX e XX. Na realidade, a história da
Maçonaria é muito mais complexa e diversificada do que essas caricaturas
sugerem.
A
utilização contemporânea de símbolos nazistas contra uma Loja maçônica,
portanto, não deve ser tratada como simples pichação. Trata-se de uma
manifestação que pode carregar uma mensagem deliberadamente intimidatória.
Um
patrimônio que pertence à história
Um
templo maçônico histórico não pertence apenas aos maçons que atualmente
utilizam suas instalações.
Edifícios
dessa natureza fazem parte do patrimônio histórico e cultural das cidades onde
estão localizados. Suas paredes testemunharam gerações de homens,
transformações políticas, debates filosóficos e acontecimentos que ajudaram a
formar a sociedade contemporânea.
O
próprio desenvolvimento dos templos maçônicos está ligado à evolução da
Maçonaria moderna. Inicialmente, as lojas frequentemente se reuniam em
residências particulares, tavernas ou salas alugadas. Com o crescimento da
instituição, surgiram espaços permanentes destinados às reuniões maçônicas. A
França ocupa lugar importante nessa história: o primeiro templo maçônico
conhecido foi construído em Marselha, em 1765.
Destruir
ou vandalizar um desses espaços significa atingir não somente uma organização
contemporânea, mas também um fragmento da memória histórica local.
A
responsabilidade das autoridades
Após
o ataque de julho, a vereadora local Myriam Tieulent condenou publicamente o
vandalismo e destacou a gravidade da presença de símbolos nazistas nas paredes
da cidade. Segundo seu depoimento, a proliferação de inscrições e adesivos
racistas já vinha sendo observada na região. A polícia local iniciou uma investigação.
A
manifestação das autoridades é importante, mas episódios recorrentes exigem
mais do que declarações de repúdio.
Quando
um mesmo patrimônio é atacado repetidamente, torna-se necessário investigar as
causas, identificar os responsáveis e estabelecer medidas capazes de impedir a
repetição dos crimes.
O
sangue encontrado em uma das vidraças quebradas, segundo a fonte, pode
inclusive fornecer material para investigação criminal.
A
memória como forma de resistência
A
história europeia demonstra que símbolos de ódio podem ganhar força quando a
sociedade deixa de reconhecer os perigos que representam.
A
Maçonaria francesa já experimentou períodos em que seus templos foram fechados,
seus arquivos confiscados e seus membros perseguidos. Décadas depois, a
repetição de símbolos associados à ideologia nazista em um templo histórico
constitui um lembrete de que a intolerância não desaparece simplesmente porque
uma época terminou.
É
preciso distinguir, evidentemente, crítica à Maçonaria de perseguição à
Maçonaria. Em uma sociedade democrática, qualquer instituição pode e deve ser
objeto de crítica, debate e investigação histórica. Outra coisa completamente
diferente é utilizar ameaças, racismo, símbolos nazistas e violência contra
pessoas ou patrimônios.
Um
alerta para a Maçonaria e para a sociedade
O
ataque à Loja Concorde et Persévérance representa, portanto, um alerta que
ultrapassa as fronteiras da França.
A
Maçonaria, como instituição histórica, conhece os efeitos da intolerância. Por
isso, preservar seus templos, seus arquivos e sua memória também significa
preservar uma parte da história das sociedades democráticas modernas.
A
resposta mais adequada ao vandalismo não é o medo nem a retaliação. É a defesa
firme da memória, da liberdade de associação, do respeito às diferenças e do
Estado de Direito.
A
história já mostrou o que acontece quando símbolos de ódio deixam de ser
reconhecidos como sinais de perigo.
Em
Vienne, uma antiga Loja fundada em 1781 voltou a ser atacada. Mas a preservação
de sua história pode transformar o episódio em uma oportunidade para lembrar
que a intolerância pode destruir paredes, mas não precisa destruir a memória
daqueles que lutaram para construir uma sociedade mais livre e tolerante.
Fonte
principal: Christopher Hodapp, Freemasons for Dummies, publicação de 13
de agosto de 2026. (Freemasons For Dummies)
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