Uma crise institucional envolvendo o Grande
Oriente do Brasil (GOB) e o Grande Oriente do Brasil – Baiano (GOB-Baiano)
colocou em evidência uma questão delicada da Maçonaria brasileira: os limites
da autonomia das Lojas e das estruturas estaduais diante da autoridade
nacional. O conflito envolve 72 Lojas e mais de 2 mil maçons na Bahia,
resultado de uma dissidência que levou à criação de uma nova potência estadual.
O episódio levanta debates sobre jurisdição, soberania, competências
administrativas e reconhecimento institucional. Mais do que uma disputa entre
dirigentes, o caso afeta os maçons e suas Lojas. Este artigo apresenta o
contexto da crise e destaca a importância do diálogo, do respeito às normas
maçônicas e da preservação da fraternidade como caminhos para uma solução
equilibrada
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GOB E GOB-BAIANO: A
DISPUTA POR AUTONOMIA QUE ENVOLVE 72 LOJAS E MAIS DE 2 MIL MAÇONS
Por
Luiz Sérgio de Freitas Castro
Uma
crise institucional envolvendo o Grande Oriente do Brasil (GOB) e o Grande
Oriente do Brasil – Baiano (GOB-Baiano) voltou a colocar em evidência uma
questão delicada para a Maçonaria: os limites da autonomia das estruturas
estaduais e a relação entre uma potência nacional e as Lojas que dela fazem
parte.
A
dimensão do episódio chama atenção. Segundo informações divulgadas pelo Tribuna
da Bahia, a controvérsia envolve 72 Lojas e aproximadamente 2.200 maçons,
transformando uma disputa administrativa e institucional em um assunto de
grande repercussão no universo maçônico baiano.
Uma
crise que nasceu dentro do próprio GOB
O
atual cenário não surgiu de uma ruptura isolada. A criação do GOB-Baiano está
relacionada a uma dissidência interna ocorrida no âmbito do GOB na Bahia.
Segundo
reportagem publicada pelo jornal maçônico O Compasso, em junho de 2023
foi fundada uma nova potência estadual, resultado de uma dissidência interna do
GOB-Bahia. Dezenas de Lojas participaram do movimento, que apresentou como uma
de suas justificativas a busca por maior harmonia e autonomia para a Maçonaria
baiana.
A
partir daí, estabeleceu-se uma situação institucional singular: Lojas que
anteriormente estavam vinculadas à estrutura estadual tradicional passaram a
integrar o GOB-Baiano, mantendo, segundo as informações oficiais da nova
potência, a condição de federadas ao Grande Oriente do Brasil.
O
próprio GOB-Baiano afirma em seu portal que as 72 Lojas estão jurisdicionadas à
potência estadual e que seus cerca de 2.200 integrantes permaneceram ligados ao
GOB.
Autonomia:
o ponto central da controvérsia
No
centro da discussão está uma palavra que possui enorme importância na
organização maçônica: autonomia.
Uma
Loja Maçônica não funciona isoladamente. Ela integra uma estrutura hierárquica,
sujeitando-se às normas constitucionais, regulamentares e jurídicas da potência
à qual está vinculada.
Ao
mesmo tempo, a própria tradição maçônica valoriza a autonomia administrativa
das Lojas, especialmente na escolha de seus dirigentes e na condução de seus
trabalhos.
A
Constituição do GOB, por exemplo, estabelece que a autonomia da Loja é
assegurada em determinados aspectos administrativos, ao mesmo tempo em que
define competências para os diferentes níveis da organização maçônica.
É
justamente nesse espaço entre autonomia da Loja, autoridade estadual e
autoridade nacional que surgem algumas das questões mais complexas do atual
conflito.
O
que está realmente em disputa?
Mais
do que uma simples divergência entre dirigentes, o episódio envolve a definição
de competências.
Quem
possui autoridade sobre as Lojas?
Quais
decisões pertencem ao âmbito estadual?
Até
onde pode chegar a intervenção da estrutura nacional?
E,
principalmente, como deve ser interpretada a relação entre o GOB e uma potência
estadual criada a partir de uma dissidência interna, mas que continua afirmando
sua vinculação federativa ao Grande Oriente do Brasil?
Essas
perguntas ajudam a compreender por que o episódio ganhou proporções maiores do
que uma simples disputa administrativa.
A
reportagem do Tribuna da Bahia apresenta justamente essa dimensão
institucional do conflito e procura reconstruir sua origem, sem tomar partido
entre os dirigentes envolvidos.
Uma
nova potência na Maçonaria baiana
O
GOB-Baiano passou a se apresentar como uma potência estadual com estrutura
própria.
Em
seu portal oficial, a instituição informa possuir Lojas jurisdicionadas,
boletim oficial, estrutura judiciária e procuradoria. O site também registra
manifestações de apoio recebidas de autoridades do GOB.
Essa
estrutura demonstra que a questão deixou de ser apenas uma divergência entre
grupos de maçons.
Com
a consolidação do GOB-Baiano, passou a existir uma organização institucional
que reivindica seu espaço dentro da Maçonaria regular baiana.
Esse
processo, naturalmente, exige definições jurídicas, administrativas e maçônicas
sobre os limites de atuação de cada estrutura.
O
impacto sobre os maçons
Em
qualquer disputa institucional, existe um aspecto que não pode ser esquecido:
por trás das organizações estão pessoas.
São
mais de dois mil maçons diretamente relacionados ao GOB-Baiano, distribuídos
por 72 Lojas.
Para
esses irmãos, questões administrativas podem produzir consequências concretas:
reconhecimento de autoridades, jurisdição, participação em atividades, relações
entre Lojas, documentação, direitos maçônicos e a própria segurança
institucional de seus trabalhos.
Por
isso, uma disputa dessa natureza não deveria ser tratada apenas como uma
batalha entre dirigentes.
O
verdadeiro desafio é evitar que divergências administrativas produzam rupturas
entre irmãos.
A
perspectiva da conciliação
É
significativo que a própria mensagem institucional do GOB-Baiano destaque a
necessidade de paz, união e respeito.
Em
mensagem publicada no portal da potência, o Grão-Mestre Estadual Oscimar Torres
afirma que as 72 Lojas e os 2.200 maçons passaram por um período de apreensão
até alcançar uma situação descrita como de maior tranquilidade e união. A
mensagem também registra agradecimento ao GOB pelo apoio recebido.
Esse
aspecto merece atenção.
A
Maçonaria sempre apresentou a fraternidade como um de seus valores
fundamentais. Consequentemente, conflitos institucionais devem encontrar
mecanismos capazes de preservar a convivência entre os irmãos, mesmo quando
existem divergências profundas.
Uma
questão que ultrapassa a Bahia
O
episódio baiano também pode servir como oportunidade para uma reflexão mais
ampla sobre o modelo administrativo da Maçonaria brasileira.
A
existência de diferentes potências e estruturas maçônicas demonstra que a
diversidade institucional faz parte da história da Ordem no Brasil. A questão
fundamental é estabelecer mecanismos claros para que essa diversidade não se
transforme em permanente conflito.
O
caso GOB e GOB-Baiano coloca em discussão temas como jurisdição, soberania,
autonomia, federalismo maçônico, direitos das Lojas e competência das
autoridades.
São
questões complexas, que precisam ser analisadas à luz das Constituições,
regulamentos e decisões dos órgãos competentes de cada instituição.
O
desafio de preservar a fraternidade
Independentemente
de qual interpretação prevaleça no campo jurídico ou administrativo, existe uma
questão maior: a preservação da fraternidade maçônica.
Instituições
podem ser reorganizadas. Cargos podem mudar de mãos. Estatutos e regulamentos
podem ser modificados ou interpretados pelos tribunais competentes.
Mas
as relações entre irmãos, uma vez profundamente abaladas, são muito mais
difíceis de reconstruir.
Por
isso, o episódio envolvendo o GOB e o GOB-Baiano merece ser acompanhado não
apenas como uma disputa pelo controle ou pela autonomia de dezenas de Lojas,
mas como um importante capítulo da história contemporânea da Maçonaria
brasileira.
A
expectativa natural é que as instituições encontrem caminhos de diálogo,
utilizando os mecanismos previstos em suas próprias normas para solucionar as
divergências.
Afinal,
se a Maçonaria pretende ser um espaço de aperfeiçoamento moral, tolerância e
fraternidade, os conflitos internos também precisam ser enfrentados à luz
desses mesmos princípios.
Mais
importante do que saber quem venceu uma disputa institucional será saber se, ao
final dela, a fraternidade maçônica saiu fortalecida.
Este artigo foi elaborado a partir das informações publicadas pelo Tribuna da Bahia e de informações
institucionais disponibilizadas pelo GOB-Baiano. O objetivo é apresentar o
contexto da controvérsia de forma jornalística e equilibrada, sem tomar partido
entre as instituições ou dirigentes envolvidos.
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