Da Redação
Da
América do Sul à unificação italiana, a trajetória de um homem que transformou
a liberdade em missão
Poucos
personagens do século XIX carregam uma trajetória tão extraordinária quanto
Giuseppe Garibaldi. Revolucionário, militar, navegante, patriota e protagonista
do processo de unificação italiana, ele ficou conhecido como o “Herói dos Dois Mundos”, por sua
atuação tanto na América do Sul quanto na Europa.
Mas
existe outra dimensão de sua vida que merece atenção: Garibaldi também foi
maçom.
Sua
relação com a Maçonaria começou longe da Itália, durante os anos de exílio e de
lutas na América do Sul. Foi em Montevidéu, em 1844, que, segundo as fontes
tradicionalmente utilizadas sobre sua trajetória maçônica, Garibaldi foi
iniciado na Loja Asilo de la Virtud,
sendo posteriormente regularizado na Loja Les
Amis de la Patrie, sob os auspícios do Grande Oriente da
França.
A
história de Garibaldi, portanto, pode ser observada não apenas como a
trajetória de um revolucionário que ajudou a construir uma nação, mas também
como a de um homem que encontrou na fraternidade maçônica uma linguagem
universal para os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.
Um
jovem diante do horizonte da liberdade
Giuseppe
Garibaldi nasceu em Nice, em 1807, em uma família ligada à atividade marítima.
O
mar seria uma presença constante em sua juventude e contribuiria para formar o
espírito aventureiro que mais tarde o acompanharia durante toda a vida.
Ainda
jovem, aproximou-se das ideias republicanas e nacionalistas associadas a
Giuseppe Mazzini e ao movimento Giovine
Italia, que defendia uma Itália unificada e republicana.
A
militância política, porém, teve um preço.
Perseguido
pelas autoridades, Garibaldi foi condenado à morte e obrigado a deixar a
Europa. Seu exílio o conduziu à América do Sul, onde encontraria não apenas
novos campos de batalha, mas também uma experiência decisiva para sua formação
política e maçônica.
O
revolucionário que atravessou o Atlântico
No
Brasil, Garibaldi participou da Revolução
Farroupilha, envolvendo-se na luta dos revolucionários
republicanos do Sul.
Mais
tarde, chegou ao Uruguai, onde participou dos acontecimentos relacionados à
Guerra Grande e colocou suas capacidades militares a serviço do governo de
Montevidéu.
Ali
organizou a Legião Italiana,
formada por voluntários italianos.
Foi
nesse ambiente de guerras, exílio e instabilidade política que Garibaldi
consolidou sua reputação como combatente e líder.
Mas
Montevidéu representou muito mais do que um capítulo militar.
Foi
também o lugar onde ele entrou em contato com a Maçonaria.
Montevidéu:
a segunda pátria
A
experiência uruguaia teve um significado especial para Garibaldi.
Embora
italiano por nascimento e por convicção, ele desenvolveu uma profunda ligação
com o país que o acolheu durante o exílio.
A
página que serve de base a este artigo destaca justamente essa dimensão:
Garibaldi chegou a considerar o Uruguai uma espécie de “segunda pátria”, reconhecendo a
importância daquela República em sua trajetória pessoal.
É
nesse contexto que sua iniciação maçônica ganha um significado especial.
Ele
não entrou em uma Loja em uma Europa tranquila e estável. Tornou-se maçom em
meio ao exílio, às guerras e às incertezas.
A
Maçonaria oferecia-lhe algo diferente das organizações políticas: uma
fraternidade que, pelo menos idealmente, ultrapassava fronteiras nacionais,
diferenças culturais e posições sociais.
As
próprias denominações das Lojas às quais esteve ligado carregavam uma mensagem
simbólica: Asilo da Virtude
e Amigos da Pátria.
Para
um homem que vivia entre diferentes países e lutava por diferentes causas,
esses conceitos certamente possuíam uma força especial.
Um
irmão entre duas pátrias
Garibaldi
jamais abandonou sua identidade italiana.
Seu
grande sonho continuava sendo a construção de uma Itália unificada.
Entretanto,
sua experiência americana mostrou-lhe que amar uma pátria não significava
necessariamente rejeitar outras.
Esse
aspecto encontra uma correspondência profunda com a ideia de fraternidade
maçônica.
Dentro
de uma Loja, a nacionalidade deveria deixar de ser uma barreira.
O
italiano, o francês, o espanhol, o uruguaio ou qualquer outro homem poderia
encontrar-se diante dos mesmos símbolos e participar de uma mesma experiência
fraterna.
É
justamente nesse ponto que a trajetória de Garibaldi oferece uma reflexão
particularmente interessante.
A pátria pode ser territorial; a fraternidade pode ser
universal.
Garibaldi
viveu essa contradição de maneira concreta.
Era
profundamente italiano e, ao mesmo tempo, carregava consigo a gratidão por uma
terra estrangeira que havia lhe oferecido abrigo, oportunidades e fraternidade.
O
retorno à Europa
Depois
de anos na América do Sul, Garibaldi retornou à Europa.
Sua
participação no processo de unificação italiana transformaria definitivamente
seu nome em símbolo nacional.
Ao
lado de figuras como Mazzini e Cavour, embora com visões políticas distintas,
Garibaldi tornou-se um dos personagens centrais do Risorgimento, movimento que culminaria
na formação do Estado italiano.
Sua
campanha dos Mil, em
1860, tornou-se um dos episódios mais célebres desse processo.
Com
um pequeno grupo de voluntários, Garibaldi desembarcou na Sicília e iniciou uma
campanha militar que provocaria o colapso do domínio dos Bourbon em grande
parte do sul da Itália.
O
revolucionário sul-americano havia se transformado em herói nacional.
Mas
sua relação com a Maçonaria também ganharia nova dimensão.
O
“primeiro maçom da Itália”
A
trajetória maçônica de Garibaldi acompanhou sua ascensão política.
Segundo
o texto da página de referência, em 1861 o Grande Oriente da Itália o
reconheceu como “primeiro maçom da
Itália”. Em 1862, recebeu o Grau 33 do Rito Escocês Antigo e
Aceito e, em 1864, foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente da Itália.
Sua
presença na liderança maçônica italiana reforçou a associação entre alguns dos
valores do Risorgimento e determinados setores da Maçonaria italiana.
Garibaldi
defendia ideias relacionadas à liberdade de consciência, à educação popular e à
construção de uma sociedade baseada na igualdade jurídica.
Também
defendia uma concepção laica do Estado.
Para
seus admiradores, a Maçonaria podia funcionar como um espaço de formação moral
e cívica capaz de contribuir para a construção de uma sociedade moderna.
Entre
o Templo e a política
Entretanto,
a relação entre Garibaldi e a Maçonaria não deve ser apresentada de maneira
excessivamente idealizada.
O
próprio texto de referência chama atenção para uma questão importante: existem
testemunhos segundo os quais Garibaldi também utilizava redes maçônicas como
apoio para seus projetos políticos e nem sempre mantinha uma participação
ritual constante nas Lojas.
Essa
observação é importante porque permite compreender Garibaldi como um personagem
histórico real, com contradições e limitações.
Ele
não foi simplesmente a personificação perfeita do ideal maçônico.
Foi
um homem de ação.
E
homens de ação frequentemente misturam convicções, interesses políticos,
amizades, estratégias e ideais.
Essa
constatação também oferece uma reflexão útil para a Maçonaria contemporânea.
A
Loja não deveria transformar-se em instrumento de projetos pessoais ou
partidários.
O
espaço maçônico exige justamente o exercício contrário: o aperfeiçoamento do
indivíduo antes de sua intervenção no mundo.
A
verdadeira batalha
Garibaldi
passou grande parte da vida combatendo.
Lutou
no Brasil, no Uruguai e na Itália.
Empunhou
armas, comandou soldados e participou de campanhas militares que mudaram a
história de países inteiros.
Mas
existe uma leitura simbólica dessa trajetória.
O
verdadeiro combate de um maçom não deveria ser apenas contra inimigos externos.
É
também contra suas próprias limitações.
A
tradição maçônica utiliza a imagem da pedra
bruta, que precisa ser trabalhada para adquirir forma.
Garibaldi
pode ser observado sob essa perspectiva como um homem permanentemente em
construção.
A
coragem era uma de suas ferramentas.
A
vontade, outra.
A
experiência, outra.
Mas
nenhuma dessas ferramentas eliminava suas contradições.
E
talvez seja justamente por isso que sua história continua interessante para os
maçons.
O
significado de ser “Aprendiz da liberdade”
A
expressão “Aprendiz da liberdade”
ganha, nesse contexto, uma dimensão simbólica.
Garibaldi
lutou pela liberdade dos povos, mas a Maçonaria propunha também uma outra
liberdade: a liberdade interior.
Não
basta derrubar governos.
Não
basta conquistar territórios.
Não
basta criar uma nova bandeira.
Se
o indivíduo continua escravo de seus preconceitos, paixões, intolerâncias e
ambições, a liberdade exterior permanece incompleta.
Essa
é uma das grandes lições que podemos extrair de sua trajetória.
A
liberdade política precisa ser acompanhada pela liberdade de consciência.
A
igualdade jurídica precisa ser acompanhada pelo respeito ao outro.
E
a fraternidade precisa ultrapassar discursos e transformar-se em comportamento.
Duas
pátrias, uma fraternidade
A
vida de Garibaldi demonstra que identidade e fraternidade não precisam ser
inimigas.
É
possível amar profundamente uma pátria sem odiar outra.
É
possível defender uma identidade nacional sem transformar o estrangeiro em
inimigo.
É
possível lutar por uma causa sem perder a capacidade de reconhecer a humanidade
daqueles que pensam diferente.
Esse
talvez seja um dos maiores ensinamentos de Garibaldi para o mundo
contemporâneo.
Em
uma época marcada novamente por nacionalismos, conflitos ideológicos e
polarizações, sua trajetória nos recorda que as fronteiras políticas não
precisam transformar-se em fronteiras humanas.
O
legado para a Maçonaria
Garibaldi
morreu em 1882, mas seu nome permaneceu associado tanto à história da Itália
quanto à tradição maçônica.
Para
a Maçonaria, sua vida oferece várias possibilidades de reflexão.
A
primeira é a liberdade.
A
segunda é a fraternidade,
demonstrada por sua relação com homens de diferentes países.
A
terceira é a responsabilidade individual.
E
a quarta é talvez a mais difícil: a necessidade de colocar os princípios acima
da vaidade pessoal.
Garibaldi
foi um grande herói, mas também foi um homem sujeito às contradições de sua
época.
Por
isso, não precisamos transformá-lo em uma estátua perfeita para reconhecer sua
importância.
Podemos
observá-lo como um ser humano que procurou realizar suas convicções, acertou,
errou, lutou, perdeu, venceu e deixou uma marca profunda na história.
O
verdadeiro território a conquistar
Garibaldi
conquistou cidades, atravessou mares e participou da construção de uma nova
Itália.
Mas,
sob uma perspectiva maçônica, existe uma conquista ainda maior.
A conquista de si mesmo.
Essa
talvez seja a grande diferença entre o herói histórico e o verdadeiro
trabalhador da Arte Real.
O
herói conquista territórios.
O
maçom deve conquistar suas próprias imperfeições.
O
herói enfrenta inimigos externos.
O
iniciado precisa enfrentar seus próprios preconceitos.
O
herói pode ser lembrado por suas batalhas.
O
maçom deve ser reconhecido pelo trabalho silencioso de aperfeiçoamento.
Giuseppe
Garibaldi, iniciado em uma terra distante de sua pátria e posteriormente
colocado entre os grandes nomes da Maçonaria italiana, representa justamente
essa ponte entre o mundo exterior e o mundo interior.
Foi
italiano e uruguaio por experiência.
Foi
revolucionário e maçom.
Foi
soldado e idealista.
Foi
um homem de duas pátrias e, para a tradição maçônica, um irmão de muitos povos.
Talvez
seja essa a melhor maneira de compreender o “Herói
dos Dois Mundos”.
Não
apenas como o homem que atravessou oceanos para lutar em diferentes
continentes, mas como alguém cuja trajetória nos lembra que a verdadeira
fraternidade não reconhece fronteiras.
E
que, no fim de todas as batalhas, a mais difícil continua sendo aquela travada
dentro de nós mesmos.
Fonte-base: artigo “Giuseppe Garibaldi, Aprendiz de la
libertad: un hermano entre dos patrias”, publicado pela Llum i Verdad.
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