ENTRE O PASSADO GLORIOSO, AS CONTRADIÇÕES E OS DESAFIOS DO
FUTURO
Da Redação
A
Maçonaria brasileira está acostumada a olhar para o passado. Em suas narrativas
tradicionais, surgem personagens célebres, acontecimentos históricos e
episódios nos quais a Ordem aparece como protagonista de grandes transformações
nacionais. Mas e se parte dessa imagem precisar ser revista? E se a verdadeira
força da Maçonaria estiver menos naquilo que ela afirma ter sido e mais na
capacidade de compreender criticamente aquilo que realmente foi, aquilo que é e
aquilo que poderá ser?
É
justamente essa provocação que está no centro do estudo “A Maçonaria no Divã: as perspectivas e as
contribuições dos não-maçons”, de Ivan Antonio Pinheiro, Lucas
Vieira Dutra e Jorge Antônio Mendes, publicado na revista Ciência &
Maçonaria, em 2023. O trabalho procura avaliar como diferentes fontes e
perspectivas podem alterar o diagnóstico sobre a própria instituição.
O
resultado é uma leitura incômoda, mas necessária. O estudo sustenta que existe
uma diferença significativa entre a imagem que parte da literatura maçônica
construiu sobre a Ordem e aquela encontrada em pesquisas acadêmicas baseadas em
documentação e método científico. E essa diferença pode ter consequências
importantes para quem pretende pensar o futuro da Maçonaria.
O
problema começa no diagnóstico
Toda
organização que deseja planejar seu futuro precisa, antes de tudo, conhecer sua
realidade. Não basta estabelecer metas ou criar projetos: é necessário saber
quais são suas forças, suas fraquezas, seus conflitos e suas oportunidades.
O
estudo parte justamente dessa premissa. Os autores questionam se a
predominância de livros escritos por maçons, utilizados como fonte de pesquisa
por outros maçons, poderia produzir algum tipo de viés na interpretação da
realidade da Ordem.
Segundo
o levantamento apresentado, os livros nacionais apareciam com ampla vantagem
sobre periódicos acadêmicos e relatórios de pesquisa entre as fontes utilizadas
pelos autores-maçons. Além disso, grande parte desses livros era escrita por
integrantes da própria Maçonaria.
O
problema não está no fato de um maçom escrever sobre Maçonaria. Isso é
perfeitamente legítimo. A questão está em transformar uma interpretação
particular em verdade histórica sem submetê-la ao confronto com documentos,
fontes diferentes e análises críticas.
É
aí que surge uma das principais advertências do estudo: não se pode confundir tradição com comprovação
histórica.
A
importância de ouvir quem está fora
Uma
das contribuições mais interessantes do trabalho está justamente na inclusão de
pesquisas produzidas por acadêmicos não iniciados na Maçonaria, especialmente
trabalhos de autoria feminina.
Os
autores confrontaram essas pesquisas com textos produzidos por maçons e
procuraram identificar se havia diferenças capazes de alterar o diagnóstico
sobre a Ordem.
A
conclusão foi afirmativa.
Entretanto,
há uma ressalva fundamental: segundo os autores, a diferença não estaria
simplesmente no fato de o pesquisador ser maçom ou não ser maçom, nem no gênero
do autor. O fator decisivo seria principalmente a utilização do método acadêmico-científico.
Isso
muda significativamente a discussão.
Um
maçom que pesquisa com documentos, apresenta fontes, reconhece limitações e
admite hipóteses pode chegar a conclusões semelhantes às de um pesquisador
externo. Da mesma forma, um autor externo pode produzir uma interpretação
equivocada.
Portanto,
o verdadeiro divisor de águas não seria o avental, mas o método.
A
“fraternidade fraturada”
Talvez
uma das conclusões mais provocadoras do estudo seja a ideia de que é mais
correto falar em “maçonarias”
do que em uma Maçonaria brasileira completamente uniforme.
Historicamente,
a instituição conheceu divisões, dissidências, diferentes ritos, obediências e
correntes políticas. No Brasil, essa diversidade esteve presente desde o século
XIX e continuou através das disputas entre diferentes estruturas maçônicas.
A
pesquisa destaca que as diferenças não eram apenas administrativas. Havia
também divergências políticas, sociais e religiosas.
Durante
o período da Abolição, por exemplo, existiam lojas com presença de maçons
escravistas e outras nas quais predominavam integrantes envolvidos com o
movimento abolicionista.
Isso
é importante porque desmonta uma narrativa excessivamente simplificada segundo
a qual a Maçonaria teria atuado sempre como um bloco único em favor das grandes
causas nacionais.
A
realidade parece ter sido muito mais complexa.
A
Maçonaria diante da ditadura de 1964
O
estudo também aborda uma das páginas mais delicadas dessa história: a relação
da instituição com a ditadura militar instaurada em 1964.
Com
base na pesquisa de Tatiana Alméri, os autores afirmam que houve apoio formal da instituição maçônica à ditadura,
embora isso não significasse unanimidade entre seus membros. Houve maçons que
divergiram da posição predominante e sofreram pressões e acusações por suas
posições políticas.
Essa
passagem merece reflexão.
Se
a Maçonaria defende fraternidade, liberdade de expressão, busca da verdade e
princípios democráticos, como explicar momentos em que integrantes da própria
instituição foram pressionados por divergirem da orientação política dominante?
O
estudo apresenta uma questão ainda mais contundente: segundo a fonte citada, a
própria instituição teria produzido documentos favoráveis às ações do regime e,
em determinados casos, servido como instrumento para identificar maçons
considerados politicamente inadequados.
Não
se trata, portanto, de afirmar que todos os maçons apoiaram o regime militar. O
próprio estudo rejeita essa generalização.
A
questão é outra: como uma instituição
que se apresenta como defensora da liberdade pode conviver internamente com
episódios de perseguição por posicionamento político?
Essa
pergunta não deve ser escondida. Deve ser estudada.
O
mito do “passado glorioso”
Outro
ponto importante do estudo é a crítica à ideia de uma Maçonaria permanentemente
protagonista dos grandes acontecimentos nacionais.
Personagens
como Tiradentes, Voltaire, Bento Gonçalves, Luiz Gama, Joaquim Nabuco e Rui
Barbosa aparecem frequentemente associados à história maçônica. Mas a pesquisa
chama atenção para a necessidade de distinguir presença individual, influência
de uma loja e participação institucional.
Um
exemplo citado é a Revolução Farroupilha. A presença de maçons entre os
revolucionários não seria suficiente para estabelecer uma relação direta entre
a Maçonaria e o movimento, pois havia tanto maçons farroupilhas quanto maçons
legalistas, além de lideranças que ingressaram na Ordem somente nos anos finais
do conflito.
Outro
exemplo envolve Luiz Gama. Segundo a pesquisa citada, ele já atuava
intensamente pela causa abolicionista antes de ingressar na Loja América. Sua
entrada na Maçonaria ampliou sua rede de apoio, mas não significa que a
instituição tenha criado sua atuação abolicionista.
O
mesmo raciocínio é aplicado a Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, ambos
frequentemente apresentados em listas de grandes maçons brasileiros. O estudo
observa, contudo, que ambos tiveram passagens relativamente breves pela
Maçonaria e posteriormente se afastaram da organização.
A
lição é simples: a existência de um
maçom em determinado acontecimento não significa automaticamente que a
Maçonaria, como instituição, tenha sido responsável por ele.
Humildade
diante da História
Essa
talvez seja uma das maiores lições oferecidas pelo documento.
A
Maçonaria não perde importância quando reconhece seus limites históricos. Pelo
contrário: ganha credibilidade.
O
estudo sustenta que a imagem de uma Ordem poderosa, homogênea e responsável
pelos principais acontecimentos nacionais não resiste integralmente ao
confronto com documentos. Maçons estiveram em lados diferentes das grandes
disputas brasileiras: republicanos e monarquistas, escravocratas e
abolicionistas, defensores e opositores de governos militares.
Assim,
não existe uma única narrativa possível.
A
Maçonaria foi feita por homens — e homens possuem divergências, interesses,
paixões, erros e contradições.
Talvez
seja justamente aí que esteja uma oportunidade para uma nova historiografia
maçônica.
O
perigo do “homem de um livro só”
O
estudo também chama atenção para outro problema: a formação maçônica baseada em
poucas leituras.
A
utilização predominante de obras sem referências adequadas, a reprodução de
informações transmitidas de geração em geração e a aceitação de determinadas
histórias simplesmente porque sempre foram contadas dessa maneira podem criar
um círculo fechado de conhecimento.
O
resultado é uma espécie de “bolha” intelectual na qual os mesmos autores citam
os mesmos autores e as mesmas histórias são repetidas sem que sejam novamente
verificadas.
O
método acadêmico oferece justamente uma possibilidade de romper esse ciclo. Ele
exige fontes, argumentação, análise, comparação e revisão. Não garante que uma
conclusão seja necessariamente correta, mas estabelece filtros que tornam o
debate mais transparente.
Para
uma instituição que se apresenta como buscadora
da verdade, esse deveria ser um princípio fundamental.
A
Maçonaria precisa conhecer a si mesma
O
estudo chega então ao presente.
A
Maçonaria contemporânea vive em uma sociedade completamente diferente daquela
que proporcionou sua expansão nos séculos XVIII e XIX. A informação circula
instantaneamente. As redes sociais transformaram a comunicação. O conhecimento
deixou de estar concentrado em bibliotecas, universidades ou instituições
tradicionais.
Nesse
cenário, os autores questionam qual é o verdadeiro espaço ocupado atualmente
pela Maçonaria e quais são as bandeiras capazes de mobilizar seus integrantes.
Também
surge uma questão particularmente importante para o futuro: o que a Maçonaria oferece aos jovens?
No
passado, a instituição podia funcionar como espaço de sociabilidade,
relacionamento e construção de redes. Hoje, os jovens encontram inúmeras outras
comunidades, plataformas e ambientes capazes de oferecer conhecimento,
relacionamentos e oportunidades.
Isso
significa que não basta simplesmente aumentar o número de iniciados.
É
preciso oferecer conteúdo, formação, reflexão e uma experiência maçônica que
faça sentido no mundo contemporâneo.
Crescer
ou se fortalecer?
Uma
das críticas apresentadas pelo estudo diz respeito à ideia de que o crescimento
permanente do número de lojas e obreiros seja, por si só, um indicador de
sucesso.
Uma
instituição pode crescer numericamente e, ao mesmo tempo, perder qualidade,
identidade e capacidade de cumprir sua missão.
Os
autores defendem a necessidade de estudos mais aprofundados sobre a realidade
maçônica brasileira, inclusive utilizando os bancos de dados das próprias
Potências. A intenção seria produzir diagnósticos mais confiáveis sobre
composição, evasão, formação, distribuição regional, faixas etárias e outros
aspectos.
O
princípio é bastante conhecido: não se
pode administrar aquilo que não se conhece.
O
futuro não pode ser planejado a partir de estatísticas frágeis
Outro
alerta importante está relacionado às generalizações.
O
estudo questiona a utilização de determinadas pesquisas pontuais como se elas
representassem toda a Maçonaria brasileira. Uma pesquisa realizada em uma
determinada região, obediência ou período não necessariamente pode ser aplicada
automaticamente a todo o país.
Diferenças
regionais, culturais, administrativas e históricas precisam ser consideradas.
Os
autores observam que ainda existe um conhecimento insuficiente sobre a
realidade geral da Maçonaria brasileira e defendem maior abertura para
pesquisas acadêmicas e para o aproveitamento sistemático dos dados existentes
nas Potências.
É
uma proposta que merece atenção.
A
abertura para a Academia
Talvez
uma das maiores oportunidades esteja justamente na aproximação entre a
Maçonaria e a Universidade.
A
Maçonaria brasileira possui mais de dois séculos de história, mas ainda é
relativamente recente como objeto sistemático de pesquisa acadêmica. O estudo
identifica nesse campo uma área fértil para teses, dissertações, artigos e
parcerias entre pesquisadores e instituições maçônicas.
Essa
aproximação pode beneficiar os dois lados.
A
Academia ganha um objeto histórico, social e cultural relevante. A Maçonaria,
por sua vez, ganha a oportunidade de conhecer a si própria por meio de
pesquisas independentes, documentação e métodos reconhecidos.
Para
uma instituição que valoriza o conhecimento, fechar as portas para a pesquisa
seria uma contradição.
A
Maçonaria no divã
O
título do estudo é provocador: “A
Maçonaria no Divã”.
E
talvez seja justamente essa a imagem que melhor sintetiza sua proposta.
Estar
no divã significa olhar para dentro.
Significa
perguntar quem somos, de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir.
Significa
reconhecer que a Maçonaria brasileira não foi uma organização monolítica, que
seus membros tiveram posições políticas diferentes, que existem episódios
históricos que precisam ser revistos e que determinadas narrativas tradicionais
não resistem ao confronto documental.
Significa
também reconhecer que o presente precisa ser estudado antes que se tente
desenhar o futuro.
O
estudo conclui que a análise do passado e do presente exige não apenas novas
pesquisas, mas também uma profunda autocrítica de natureza axiológica. Defende
ainda que as próprias Potências disponibilizem dados para estudos mais
consistentes e que a Ordem reflita sobre sua estrutura, seus objetivos e sua
capacidade de adaptação.
Um
convite à reflexão
A
grande contribuição de “A Maçonaria no
Divã” talvez não esteja em oferecer respostas definitivas. Está
em fazer perguntas que muitas vezes são desconfortáveis.
A
Maçonaria precisa abandonar o seu passado? Certamente não.
Precisa
deixar de homenagear seus personagens históricos? Também não.
Mas
precisa aprender a distinguir memória,
tradição, interpretação e fato documentado.
Precisa
compreender que reconhecer erros não destrói uma instituição. Ao contrário,
pode fortalecê-la.
Precisa
entender que a fraternidade não significa unanimidade. Que a liberdade
pressupõe o direito à divergência. Que a busca da verdade exige disposição para
corrigir aquilo que acreditávamos ser verdadeiro.
E,
principalmente, precisa compreender que o futuro não será construído apenas com
a repetição das glórias do passado.
Será
construído pela capacidade de responder aos desafios do presente.
Conclusão
O
estudo analisado apresenta uma provocação que merece ser levada para dentro das
Lojas: antes de tentar salvar ou
transformar a Maçonaria, talvez seja necessário conhecê-la melhor.
A
pesquisa indica que existem diferenças entre a imagem construída internamente e
aquela produzida por estudos acadêmicos. Indica também que a Maçonaria
brasileira é marcada historicamente pela diversidade, pelas divisões e pelas
disputas internas. E demonstra que o método científico pode aproximar
pesquisadores maçons e não maçons em torno de uma mesma busca: compreender os
fatos com maior precisão.
Talvez
o verdadeiro “passado glorioso” que a Maçonaria deva recuperar não seja aquele
das narrativas heroicas, mas o espírito de investigação, estudo,
aperfeiçoamento e busca permanente da verdade.
Porque
uma instituição que tem coragem de olhar para o próprio espelho não precisa
temer aquilo que encontrará.
E talvez seja exatamente por isso que, hoje, a Maçonaria deva
aceitar o convite para sentar-se no divã.
Fonte-base: Pinheiro, Ivan Antonio; Dutra, Lucas Vieira;
Mendes, Jorge Antônio. A Maçonaria no Divã: as perspectivas e as
contribuições dos não-maçons. Ciência & Maçonaria, Brasília,
Vol. 10, n. 1, p. 51-65, jul./dez. 2023.
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