A história de
Erasmo de Roterdã (1466/1467–1536) e Martinho Lutero (1483–1546) é uma das mais
fascinantes e, ao mesmo tempo, mais trágicas da Europa do século XVI. Dois
homens profundamente religiosos, formados em ambientes espirituais semelhantes
e interessados na renovação do cristianismo acabaram separados por uma questão
que ultrapassava as diferenças pessoais: qual
é o verdadeiro grau de liberdade do ser humano diante de Deus?
O confronto
entre ambos se tornou um dos grandes debates intelectuais da Reforma
Protestante e colocou frente a frente duas concepções distintas: de um lado, o
humanismo cristão de Erasmo, que confiava na educação, na razão, na moderação e
na capacidade humana de cooperar com a graça divina; de outro, a teologia de
Lutero, para quem a vontade humana, corrompida pelo pecado, não poderia
conduzir o indivíduo à salvação por suas próprias forças.
Dois homens,
uma formação semelhante
Erasmo e
Lutero viveram em uma Europa marcada por profundas transformações culturais e
religiosas. Ambos tiveram contato com a tradição agostiniana e com uma
espiritualidade voltada para a interioridade, a leitura das Escrituras e a
reflexão sobre a vida cristã.
Erasmo
tornou-se um dos maiores representantes do Renascimento humanista. Estudioso
das línguas clássicas, da literatura e dos textos cristãos antigos, defendia
uma renovação da Igreja baseada sobretudo na educação, na reforma dos costumes
e no retorno às fontes do cristianismo.
Lutero, por
sua vez, encontrou na teologia e nas Escrituras o caminho para responder às
suas inquietações espirituais. Sua preocupação central era a relação entre o
ser humano pecador e a graça de Deus.
A princípio,
havia entre os dois mais pontos de contato do que de oposição. Erasmo criticava
abusos e práticas que considerava incompatíveis com o verdadeiro espírito
cristão. Lutero também atacava aquilo que entendia como desvios da Igreja de
Roma.
Mas os
caminhos começariam a se separar.
Erasmo:
reformar sem destruir
Erasmo não
desejava uma ruptura violenta com a Igreja. Seu projeto era essencialmente
reformador e humanista.
Ele acreditava
que os problemas da cristandade poderiam ser enfrentados por meio da educação,
do estudo das Escrituras, da recuperação dos valores do cristianismo primitivo
e da transformação moral dos indivíduos.
Para Erasmo,
uma reforma deveria evitar a violência e preservar a possibilidade de diálogo.
Essa posição
tornou-se cada vez mais difícil de sustentar à medida que a Reforma iniciada
por Lutero ganhou força e passou de uma discussão teológica para uma crise
política, social e religiosa de enormes proporções.
Lutero,
entretanto, não estava disposto a esperar.
Lutero e a
ruptura com Roma
Em 1517,
Lutero tornou públicas suas críticas às indulgências e a determinados aspectos
da prática e da autoridade da Igreja. O episódio das 95 Teses tornou-se um dos
símbolos da Reforma.
Erasmo
compartilhava algumas críticas aos abusos e à corrupção existentes na Igreja,
mas não aceitava necessariamente os métodos ou todas as conclusões de Lutero.
Essa diferença
é fundamental para compreender a relação entre os dois.
Erasmo
desejava uma reforma da
cristandade.
Lutero acabou
protagonizando uma ruptura
da cristandade ocidental.
O humanista
holandês via com preocupação a crescente radicalização do conflito. Para ele, a
violência e a intolerância poderiam destruir justamente aquilo que pretendia
salvar: uma cultura cristã europeia baseada no conhecimento, na educação e na
convivência.
O grande
conflito: o livre-arbítrio
A ruptura
intelectual definitiva ocorreu em torno de uma questão aparentemente abstrata,
mas que para ambos tinha consequências enormes: o ser humano possui liberdade para escolher o bem e
cooperar com a graça divina?
Em 1524,
Erasmo publicou De libero
arbitrio, conhecido como Sobre
o livre-arbítrio. A obra defendia uma concepção na qual a graça
divina era indispensável, mas o ser humano ainda possuía capacidade de
responder a ela.
Lutero
respondeu em 1525 com De servo
arbitrio, ou Sobre
o arbítrio escravo. A obra tornou-se uma das exposições mais
importantes de sua teologia.
Para Lutero, o
problema não era meramente filosófico. Estava em jogo a própria compreensão da
salvação.
Se a salvação
dependesse, ainda que parcialmente, da capacidade humana de escolher Deus,
então haveria algo no próprio ser humano que poderia ser apresentado como
mérito.
Para Lutero,
isso diminuiria a centralidade da graça.
Erasmo
enxergava a questão de maneira diferente. A graça de Deus continuava sendo
fundamental, mas a liberdade humana não desaparecia completamente. O indivíduo
poderia responder à ação divina.
É justamente
nesse ponto que os dois pensamentos se tornam difíceis de conciliar.
Humanismo
contra determinismo?
A oposição
entre Erasmo e Lutero não deve ser reduzida simplesmente a "humanismo
contra religião". Ambos eram profundamente religiosos.
A verdadeira
diferença estava na maneira como compreendiam a natureza humana, a graça e a liberdade.
Erasmo
mantinha maior confiança nas capacidades humanas. A educação e o conhecimento
poderiam contribuir para a transformação moral do indivíduo.
Lutero possuía
uma visão muito mais pessimista da condição humana. Para ele, o pecado atingia
profundamente a vontade e a razão, de modo que a salvação não poderia depender
da iniciativa humana.
O debate
tornou-se, assim, uma das primeiras grandes discussões da Reforma sobre
livre-arbítrio, graça e predestinação.
Dois caminhos
para a liberdade
Há uma ironia
profunda nessa história.
Erasmo
defendia a liberdade humana como instrumento de responsabilidade moral.
Lutero, ao
negar a autonomia da vontade no processo da salvação, acreditava estar
defendendo uma liberdade ainda maior: a liberdade da consciência diante de Deus
e da confiança absoluta na graça.
Assim, os dois
falavam de liberdade, mas atribuíam significados diferentes à palavra.
Para Erasmo, a
liberdade exigia responsabilidade.
Para Lutero, a
salvação exigia reconhecer a incapacidade humana e depender inteiramente da
graça divina.
Essa
divergência explica por que o diálogo entre eles acabou se tornando
praticamente impossível.
Uma Europa
dividida
O conflito
entre os dois intelectuais refletia uma transformação muito maior.
A Europa do
século XVI estava deixando para trás a relativa unidade religiosa da
cristandade medieval. As discussões teológicas rapidamente se transformavam em
conflitos políticos, guerras e perseguições.
Erasmo tentou
permanecer em uma posição intermediária. Não queria simplesmente aceitar todos
os argumentos de Roma, mas também não desejava acompanhar a radicalização da
Reforma.
Essa posição
moderada acabou deixando-o praticamente isolado.
Lutero, ao
contrário, tornou-se uma das figuras centrais da Reforma e sua influência
cresceu enormemente.
A divergência
entre os dois mostrou uma questão que permaneceria viva durante séculos: como conciliar liberdade de consciência,
verdade religiosa e tolerância diante daquele que pensa de maneira diferente?
Uma reflexão
para a Maçonaria
Embora a
Maçonaria moderna tenha surgido posteriormente, no século XVIII, a história de
Erasmo e Lutero oferece uma reflexão particularmente interessante para a
tradição maçônica.
A liberdade de
consciência, o estudo, o diálogo e a tolerância tornaram-se valores importantes
na cultura maçônica posterior. O próprio espaço maçônico pode ser compreendido
como uma tentativa de reunir homens diferentes em torno daquilo que possuem em
comum, sem exigir necessariamente que abandonem suas convicções particulares.
Nesse sentido,
Erasmo oferece uma lição sobre a importância do diálogo e da moderação. Lutero,
por sua vez, lembra que determinadas convicções podem ser tão profundas que o
indivíduo está disposto a enfrentar instituições poderosas para defendê-las.
Mas existe
também uma advertência.
Quando a
convicção transforma o adversário em inimigo absoluto, o diálogo desaparece. E
quando o diálogo desaparece, a diferença de ideias pode transformar-se em
intolerância.
A história
europeia mostrou isso de maneira dolorosa.
O legado de
Erasmo e Lutero
Erasmo morreu
em 1536, ainda convencido da necessidade de uma renovação cristã baseada na
educação, na cultura e na moderação.
Lutero morreu
dez anos depois, em 1546, deixando um movimento religioso que transformaria
profundamente a Europa.
Apesar das
diferenças, os dois pertencem à mesma grande história intelectual: a história
de homens que questionaram certezas estabelecidas e procuraram respostas para
problemas fundamentais da existência humana.
O mais
importante talvez seja perceber que a história não precisa escolher entre eles.
Erasmo nos
lembra que a razão sem
tolerância pode transformar-se em arrogância, mas a razão acompanhada de
diálogo pode construir pontes.
Lutero nos
lembra que uma consciência
convencida de estar diante da verdade pode desafiar estruturas inteiras de
poder.
Entre esses
dois extremos existe uma pergunta que continua atual:
até onde deve ir a liberdade de consciência — e como podemos defender
nossas convicções sem negar ao outro o direito de possuir as suas?
Talvez seja
justamente nessa pergunta que a história de Erasmo e Lutero encontre sua maior
atualidade.
Não apenas
como episódio da Reforma Protestante, mas como uma lição permanente sobre liberdade, consciência, tolerância, fé e
os perigos do fanatismo.
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