Por Iván
Herrera Michel
Pouco mais de
três anos e meio depois da estreia pública da IA, estamos vendo os primeiros
maçons alcançarem o grau de Mestre cujas carreiras foram conduzidas
inteiramente com o auxílio de inteligência artificial.
Na verdade,
para esses novos Mestres, as IAs não representam uma ruptura com a tradição,
mas sim um ambiente sociológico normal no qual podem examinar as instruções
recebidas e ser menos dependentes do prestígio dos nomes e mais respeitosos com
a solidez dos argumentos. Essa contingência é especialmente significativa na
Maçonaria, um fenômeno com uma rica mistura de alegoria, simbolismo, tradição e
especulação.
Por exemplo,
ao longo dos três séculos de existência da Maçonaria, circularam falsidades
históricas, tentando ligá-la aos construtores das pirâmides, aos Templários,
aos mistérios do Egito, às escolas pitagóricas e a inúmeras figuras bíblicas e
não bíblicas. Agora, o novo maçom, com inteligência artificial à disposição,
pode questionar a veracidade dessas narrativas, comparar versões, investigar as
evidências existentes e descobrir quem oferece provas, quem propõe uma
interpretação e quem simplesmente repete algo que não corresponde à realidade
histórica.
Sinceramente,
é preciso reconhecer que a IA os ajudou a expressar seus pensamentos com mais
clareza e até mesmo mostrou que eles não haviam refletido o suficiente sobre
determinado assunto, apontando contradições, recomendando esclarecimentos e
sugerindo nuances. Uma das contribuições mais interessantes dessa tecnologia é
que ela os obrigou a formular perguntas melhores, pois não é a mesma coisa
perguntar qual o significado de um símbolo e perguntar quando ele surgiu, em
qual Rito é usado, o que dizem os documentos mais antigos ou como foi
interpretado por um determinado autor ou escola maçônica. Tampouco é a mesma
coisa perguntar se uma pessoa era maçom e solicitar provas de sua Iniciação, a
Loja à qual pertencia ou a fonte contemporânea que a confirma.
Portanto, num
espírito de crítica construtiva, podemos nos perguntar o que significa
trabalhar maçônicamente hoje em dia. Porque se uma inteligência artificial
consegue redigir um documento, explicar um símbolo, resumir um livro, comparar
rituais e localizar em segundos uma referência histórica que antes exigia horas
ou dias de pesquisa, nenhuma dessas atividades, individualmente ou em conjunto,
pode continuar a definir o que entendemos como trabalho maçônico.
Talvez a IA
esteja nos forçando a reconhecer que o trabalho maçônico realmente começa após
o recebimento da informação. Começa quando o maçom a compara com sua própria
consciência, a submete ao escrutínio, a discute fraternalmente com outros e
permite que o que compreendeu modifique sua maneira de pensar, viver ou agir.
Uma máquina pode nos ajudar a escrever um artigo magnífico sobre tolerância,
mas não pode praticá-la por nós. Pode nos explicar o simbolismo da Pedra Bruta
por horas, mas não pode suavizar nossas arestas. Pode descrever perfeitamente o
que significa fraternidade, mas não pode nos reconciliar com um Irmão de quem
estamos afastados. E pode produzir um texto impecável para uma reunião da Loja,
mas não pode vivenciá-la.
Isso também
introduz uma mudança em algo muito humano dentro da própria Maçonaria: o
prestígio do conhecimento. Por muito tempo, aqueles que possuíam uma boa
biblioteca, lembravam-se de muitos autores, tinham uma melhor compreensão dos
Rituais ou estavam na Ordem há décadas possuíam um capital intelectual difícil
de ser alcançado por um novo iniciado. Hoje, grande parte dessa informação está
disponível em segundos, e isso desloca o valor da posse do conhecimento para a
capacidade de compreendê-lo, questioná-lo, relacioná-lo e formar o próprio
julgamento.
Talvez seja
por isso que o próximo maçom não será necessariamente mais valioso por saber
mais, mas sim por saber discernir melhor. O prestígio poderá passar de quem
acumula respostas para quem formúla perguntas melhores, de quem cita mais
autores para quem consegue identificar uma fonte sólida, e de quem apresenta o
artigo mais erudito para quem consegue transformar o conhecimento em reflexão
compartilhada e, sobretudo, em ação.
Mas talvez a
mudança mais profunda resida no surgimento de um novo tipo de maçom que está
acostumado a não receber uma resposta sem perguntar novamente. E isso não
empobrece necessariamente a Maçonaria, porque um mito ou alegoria pode conter
uma lição profunda sem que precisemos apresentá-lo como um evento real, e uma
tradição pode ser muito bela e significativa sem que precisemos transformá-la
artificialmente em história.
E talvez aí
resida o verdadeiro desafio que a inteligência artificial nos apresenta. A
questão não é se uma máquina pode criar um documento maçônico, porque
claramente pode, mas sim o que fazemos com esse documento depois de lê-lo.
Porque se o trabalho maçônico consiste unicamente em coletar informações,
redigi-las e apresentá-las na Loja, a inteligência artificial pode realizar uma
grande parte desse trabalho, e muitas vezes melhor do que nós. Mas se consiste
em transformar conhecimento em consciência, consciência em diálogo e diálogo em
uma forma diferente de nos relacionarmos conosco mesmos, com nossos Irmãos e
com a sociedade, então a ferramenta terá mudado, mas o trabalho permanecerá
profundamente humano.
E aqui surge o
paradoxo extraordinário de que, quanto mais tecnológica se torna a sociedade,
mais valor pode ser atribuído àquilo que a Maçonaria preserva como
profundamente humano.

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