Quando a Fraternidade Silencia: Amizade, Reciprocidade e Envelhecimento na Maçonaria

TOQUE NA IMAGEM PARA OUVIR O ARTIGO COMPLETO
O tempo revela quais amizades permanecer

quando deixamos de tomar a iniciativa.

Na Maçonaria, a verdadeira fraternidade

começa quando o ritual termina.

Por Irmão Luiz Sérgio de Freitas Castro

Há uma forma de solidão que não nasce necessariamente da ausência de pessoas, mas da descoberta de que algumas relações dependiam quase exclusivamente de nossa iniciativa para permanecerem vivas.

Essa constatação pode se tornar particularmente significativa com o passar dos anos. À medida que envelhecemos, diminuem algumas das circunstâncias que naturalmente nos aproximavam das pessoas. O trabalho termina, os filhos seguem seus próprios caminhos, os encontros tornam-se menos frequentes e muitos dos amigos que fizeram parte de nossa trajetória acabam se afastando.

Na Maçonaria, essa reflexão ganha uma dimensão ainda mais profunda.

A Ordem nos fala constantemente em fraternidade, união, solidariedade e auxílio mútuo. Entretanto, palavras tão bonitas somente adquirem verdadeiro significado quando se transformam em atitudes.

E talvez seja justamente com o passar dos anos que descobrimos quais relações foram realmente construídas sobre esses princípios.

A fraternidade colocada à prova pelo tempo

Quando ingressamos na Maçonaria, encontramos um ambiente de convivência. Reuniões, sessões, estudos, eventos, jantares, confraternizações e atividades ritualísticas criam oportunidades permanentes para o contato entre os Irmãos.

Enquanto existe essa rotina, é relativamente fácil manter relacionamentos.

Encontramo-nos porque existe uma sessão.

Conversamos porque estamos na Loja.

Participamos de uma atividade porque fomos convidados.

Cumprimentamo-nos porque fazemos parte do mesmo espaço.

Mas o que acontece quando a rotina muda?

Quando o Irmão deixa de frequentar as sessões com a mesma assiduidade?

Quando se aposenta?

Quando muda de cidade?

Quando enfrenta dificuldades pessoais?

Quando a idade reduz sua mobilidade?

É nesses momentos que a fraternidade deixa de ser apenas uma palavra e passa a ser colocada à prova.

"Se eu não procurar, ninguém me procura"

Talvez alguns Irmãos já tenham experimentado essa sensação.

Durante anos, somos nós que telefonamos.

Somos nós que enviamos mensagens.

Somos nós que perguntamos se está tudo bem.

Somos nós que convidamos para um café.

Somos nós que lembramos do aniversário.

Somos nós que procuramos aquele Irmão que há algum tempo não aparece.

Até que, por alguma razão, decidimos parar.

Não necessariamente por ressentimento.

Às vezes, simplesmente porque estamos cansados de sustentar sozinhos uma relação que deveria ser construída por duas pessoas.

E então percebemos algo desconcertante:

o silêncio permanece.

Ninguém telefona.

Ninguém pergunta.

Ninguém aparece.

É uma descoberta dolorosa, mas também reveladora.

Talvez aquela relação fosse muito mais dependente da nossa iniciativa do que imaginávamos.

A fraternidade não pode ser apenas ritualística

Existe uma diferença importante entre ser Irmão dentro de uma Loja e comportar-se como Irmão na vida.

O ritual nos ensina símbolos.

As reuniões nos proporcionam conhecimento.

Os cargos nos oferecem responsabilidades.

Mas a verdadeira fraternidade manifesta-se, sobretudo, quando não existe uma obrigação formal de fazê-lo.

O Irmão que telefona para saber como está outro Irmão que deixou de frequentar a Loja.

O Irmão que visita aquele que está enfrentando dificuldades.

O Irmão que percebe a ausência de alguém.

O Irmão que pergunta simplesmente: "Como você está?"

Essas atitudes talvez sejam pequenas diante da grandiosidade simbólica da Maçonaria.

Mas são justamente elas que dão vida aos símbolos.

O envelhecimento revela muitas verdades

Envelhecer é também fazer uma espécie de inventário afetivo.

Começamos a perceber quem realmente permaneceu.

Algumas pessoas desaparecem naturalmente de nossa vida. Outras permanecem apenas como boas lembranças.

E existem aquelas poucas que continuam presentes, mesmo quando a distância aumenta e a rotina deixa de favorecer os encontros.

Na vida maçônica acontece exatamente a mesma coisa.

Ao longo de décadas, um Maçom pode conhecer centenas de Irmãos.

Pode ocupar cargos.

Participar de inúmeras sessões.

Viajar para encontros.

Fazer parte de comissões.

Construir amizades.

Mas, quando o tempo passa, talvez descubra que apenas alguns desses vínculos sobreviveram às mudanças da vida.

E isso não significa necessariamente que as demais relações tenham sido falsas.

Algumas amizades pertencem a determinadas fases de nossa existência.

Outras conseguem atravessá-las.

O valor da reciprocidade

A psicologia moderna reconhece a importância da reciprocidade na construção e manutenção dos relacionamentos.

Uma relação saudável não precisa apresentar uma contabilidade perfeita. Não é necessário que cada telefonema seja retribuído imediatamente, nem que cada gesto de carinho receba outro de igual intensidade.

A vida não funciona dessa maneira.

Há períodos em que um precisa mais do outro.

Mas, ao longo do tempo, deve existir alguma forma de equilíbrio.

Na fraternidade maçônica, esse princípio é ainda mais significativo.

O auxílio deve ser mútuo.

A consideração deve ser mútua.

A preocupação deve ser mútua.

A presença deve ser, quando possível, mútua.

Porque fraternidade não significa apenas receber o tratamento de Irmão.

Significa também agir como Irmão.

Quando o Irmão deixa de frequentar a Loja

Talvez esse seja um dos maiores desafios das Lojas contemporâneas.

Quando um Irmão deixa de aparecer, muitas vezes sua ausência passa a ser apenas uma informação administrativa:

"Fulano não está frequentando."

E a vida da Loja continua.

Mas será que não deveríamos perguntar:

Por quê?

Será que está doente?

Está enfrentando dificuldades financeiras?

Está passando por problemas familiares?

Perdeu o interesse?

Está se sentindo deslocado?

Está simplesmente envelhecendo e já não possui a mesma disposição física?

Ou será que, silenciosamente, está se sentindo sozinho?

Uma ligação telefônica pode revelar aquilo que uma lista de presença jamais mostrará.

O perigo da fraternidade burocrática

Existe o risco de transformarmos a Maçonaria em uma instituição extremamente organizada, mas pouco afetiva.

Podemos ter atas perfeitas, calendários preenchidos, eventos programados, cargos distribuídos e sessões realizadas com absoluta regularidade.

Mas, se um Irmão desaparecer e ninguém sentir sua falta, alguma coisa importante estará faltando.

A fraternidade não pode ser reduzida à frequência.

Um Irmão pode estar ausente fisicamente e continuar presente em nosso coração.

Da mesma maneira, alguém pode estar sentado ao nosso lado em uma sessão e, ainda assim, sentir-se completamente sozinho.

A verdadeira pergunta talvez não seja:

"Quantos Irmãos temos em nossa Loja?"

Mas:

"Quantos de nossos Irmãos sabem que podem contar conosco?"

A solidão entre os Irmãos

A solidão pode existir mesmo dentro de uma Loja cheia.

Pode existir no templo.

Pode existir durante um jantar.

Pode existir em uma confraternização.

Pode existir até mesmo entre pessoas que se cumprimentam todas as semanas.

Porque solidão não é simplesmente estar sem companhia.

É não sentir conexão.

É acreditar que sua presença ou ausência não faz diferença.

É ter a sensação de que, se você deixar de procurar, ninguém irá procurá-lo.

E talvez seja justamente aí que a Maçonaria tenha uma enorme oportunidade de cumprir uma de suas mais nobres funções.

O Irmão mais velho não deve ser esquecido

À medida que uma pessoa envelhece, sua participação pode mudar.

Talvez já não consiga ocupar determinados cargos.

Talvez não tenha a mesma disposição para viajar.

Talvez prefira ouvir a falar.

Talvez precise de mais tempo para realizar determinadas atividades.

Isso não diminui seu valor.

Ao contrário.

Um Irmão mais velho carrega consigo algo que nenhum livro pode substituir completamente: experiência vivida.

Suas memórias fazem parte da história da Loja.

Seus erros podem servir de ensinamento.

Suas experiências podem orientar os mais jovens.

Sua presença pode representar continuidade.

Por isso, uma Loja que cuida de seus Irmãos mais velhos não está apenas praticando caridade ou gentileza.

Está preservando sua própria memória.

Também precisamos aprender a fazer novos amigos

Existe, porém, outro lado dessa reflexão.

Não podemos esperar que toda a responsabilidade pela nossa vida social esteja nas mãos dos outros.

O envelhecimento também pode ser uma oportunidade para criar novos vínculos.

Um novo Irmão pode tornar-se um grande amigo.

Um antigo companheiro de Loja pode ser reencontrado.

Um convite para um café pode iniciar uma amizade que ainda durará muitos anos.

Talvez seja necessário diminuir um pouco a expectativa de que os outros sempre tomarão a iniciativa.

A fraternidade também exige movimento de nossa parte.

Se queremos proximidade, precisamos oferecer proximidade.

Se queremos amizade, precisamos oferecer amizade.

Se queremos ser lembrados, precisamos também lembrar.

Não transformar ausência em ressentimento

Existe ainda uma lição de maturidade.

Quando descobrimos que determinada amizade não era tão recíproca quanto imaginávamos, podemos escolher entre duas atitudes.

Podemos guardar ressentimento.

Ou podemos compreender.

As pessoas têm suas próprias dificuldades, limitações, famílias, preocupações e prioridades.

Nem todo afastamento é rejeição.

Nem todo silêncio significa falta de consideração.

Por isso, antes de fechar definitivamente uma porta, talvez valha a pena perguntar:

"Eu também fiz a minha parte?"

A reciprocidade começa por nós.

A verdadeira fraternidade começa depois da sessão

Talvez uma das maiores lições que a Maçonaria possa oferecer seja justamente esta:

o verdadeiro teste da fraternidade acontece quando o ritual termina.

É quando voltamos para casa.

É quando percebemos que um Irmão não esteve presente.

É quando recebemos a notícia de uma dificuldade.

É quando alguém precisa de ajuda.

É quando podemos telefonar sem que exista qualquer obrigação.

É quando perguntamos:

"Você está bem?"

E esperamos sinceramente pela resposta.

Porque ser Maçom não deveria significar apenas pertencer a uma Loja.

Deveria significar fazer com que outro ser humano se sinta menos sozinho.

Uma reflexão para as Lojas

Talvez cada Loja pudesse fazer um exercício simples.

Escolher alguns Irmãos que estão afastados e perguntar:

"Quando foi a última vez que alguém desta Loja telefonou para ele sem pedir absolutamente nada?"

A resposta poderia ser surpreendente.

E talvez fosse ainda mais importante perguntar aos próprios Irmãos:

"Se eu deixar de tomar a iniciativa, alguém perceberá minha ausência?"

Se a resposta for "sim", existe fraternidade.

Se a resposta for "não", talvez tenhamos encontrado algo que precisa ser reconstruído.

Não necessariamente com grandes projetos.

Às vezes, basta um telefonema.

Uma mensagem.

Um café.

Uma visita.

Um abraço.

Uma palavra.

O legado que deixaremos

No final de nossa caminhada, provavelmente não serão os cargos ocupados que terão maior importância.

Nem os títulos.

Nem a quantidade de sessões frequentadas.

Nem os diplomas e certificados.

Talvez aquilo que permanecerá seja muito mais simples:

as pessoas que se sentiram melhores porque cruzaram nosso caminho.

O Irmão que ajudamos.

O amigo que ouvimos.

Aquele que visitamos quando estava doente.

O jovem que orientamos.

O velho companheiro que não deixamos esquecer.

A pessoa que procuramos quando todos os outros haviam parado de procurar.

Essa talvez seja uma das formas mais bonitas de compreender a fraternidade.

Porque o tempo pode levar muitas coisas.

Pode levar a juventude.

Pode levar a força.

Pode levar cargos, posições e oportunidades.

Pode até levar algumas amizades.

Mas existe algo que podemos escolher preservar:

a capacidade de não abandonar aqueles que caminharam conosco.

No envelhecimento, talvez descubramos que não precisamos de muitos amigos.

Precisamos de amigos verdadeiros.

E, na Maçonaria, talvez não precisemos apenas de muitos Irmãos.

Precisamos de Irmãos que realmente se reconheçam como tal.

Afinal, a verdadeira fraternidade não se mede pelo número de mãos que apertamos no templo.

Mede-se pelo número de mãos que estamos dispostos a estender quando alguém, fora dele, precisa de nós.

E talvez a pergunta mais importante que cada Maçom possa fazer a si mesmo seja esta:

"Se amanhã eu deixar de procurar meus Irmãos, quem irá procurar por mim?"

A resposta talvez revele muito mais sobre a fraternidade de uma Loja do que qualquer discurso.

 


Postar um comentário

0 Comentários