A “Cordonite” Maçônica: Quando o Avental Sobe à Cabeça


Da Redação

Existe, na Maçonaria, uma doença que não aparece nos rituais, não é identificada por médicos e não pode ser tratada com medicamentos. Seus sintomas, entretanto, são bastante conhecidos por aqueles que frequentam regularmente as Lojas.

É a chamada “cordonite maçônica” — uma expressão bem-humorada utilizada para descrever o comportamento daquele que, depois de conquistar um cargo, um grau, uma medalha ou um novo paramento, começa a acreditar que se tornou uma pessoa mais importante do que os demais.

Não há febre, dor ou alteração na pressão arterial. O que aumenta é o ego.

O irmão acometido pela “cordonite” passa a valorizar excessivamente títulos, cargos, precedências, condecorações e sinais exteriores de distinção. O avental, que deveria representar trabalho e responsabilidade, transforma-se, aos poucos, em uma espécie de símbolo de autoridade pessoal.

E é justamente aí que começa o problema.

QUANDO O CARGO DEIXA DE SER SERVIÇO

A Maçonaria ensina que seus cargos representam responsabilidades e serviços prestados à instituição.

Ser Venerável Mestre, membro de uma administração, Oficial de Loja, dirigente de uma Potência ou ocupante de qualquer outra função não deveria significar uma promoção pessoal. O cargo é temporário. A responsabilidade termina. O avental volta para o armário.


O maçom, porém, permanece.

Quando o exercício de uma função começa a modificar a maneira como alguém trata seus próprios Irmãos, é necessário parar e refletir.

O problema não está em exercer uma função com autoridade, organização e respeito às normas. O problema surge quando a autoridade administrativa passa a ser confundida com superioridade pessoal.

O irmão deixa de servir e passa a exigir ser servido.

Deixa de ouvir e passa a determinar.

Deixa de aconselhar e passa a impor.

E, algumas vezes, deixa até mesmo de enxergar o Irmão que está ao seu lado.

O TEMPLO NÃO É UMA CORTE

Uma das reflexões mais interessantes propostas pelo texto original é justamente essa: uma Loja Maçônica não é uma corte real.

O Venerável Mestre não é um rei.

O Grão-Mestre não é um monarca.

Um Grande Oficial não pertence a uma aristocracia.

E o maçom que possui muitos anos de caminhada na Ordem não é proprietário da Maçonaria.

Os títulos e funções são instrumentos necessários para a organização das instituições maçônicas. Mas eles não deveriam estabelecer uma aristocracia entre homens que, iniciaticamente, compartilham uma mesma fraternidade.

Aquele Irmão que ocupa discretamente o seu lugar no Oriente ou no Ocidente, sem medalhas, títulos ou funções, pode possuir uma compreensão da Maçonaria muito mais profunda do que alguém coberto de condecorações.

Porque quantidade de títulos não é sinônimo de qualidade maçônica.

QUANDO O AVENTAL VAI PARA A CABEÇA

O avental é um dos mais importantes símbolos maçônicos. Ele nos remete ao trabalho, à construção e à disposição para transformar a pedra bruta.

Mas existe uma diferença enorme entre usar o avental e deixar que o avental determine quem somos.

A “cordonite” começa quando o símbolo deixa de representar um compromisso e passa a representar uma identidade baseada no status.

É quando a pessoa começa a pensar:

“Eu sou importante porque ocupo este cargo.”

“Eu mereço tratamento diferenciado porque tenho este grau.”

“Minha opinião vale mais porque tenho tantos anos de Maçonaria.”

“Devem me respeitar porque já exerci determinada função.”

Nesse momento, o símbolo deixou de cumprir sua função pedagógica.

O avental já não está apenas na cintura.

Subiu para a cabeça.

MAIS RESPONSABILIDADE DEVERIA SIGNIFICAR MAIS HUMILDADE

Existe uma relação que talvez mereça ser lembrada constantemente dentro da Maçonaria:

quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a humildade.

Os verdadeiros líderes maçônicos não precisam lembrar permanentemente aos outros que são líderes.

Não precisam apresentar seu currículo maçônico em todas as conversas.

Não precisam transformar sua chegada a uma Loja em uma espécie de visita oficial.

E não precisam exigir respeito.

O respeito verdadeiro nasce naturalmente do comportamento.

É conquistado pela capacidade de ouvir, pela serenidade diante das divergências, pela disposição de servir e pela maneira como tratamos aqueles que não possuem nenhum cargo.

Talvez o verdadeiro prestígio maçônico não esteja no número de medalhas que carregamos no peito, mas na maneira como tratamos o Irmão que não possui nenhuma.

O PERIGO DA INFLAÇÃO DE TÍTULOS

Também é necessário reconhecer que o problema não está exclusivamente no comportamento individual.

As próprias estruturas maçônicas podem, em determinadas circunstâncias, favorecer uma excessiva valorização de títulos, distinções e precedências.

Quando se multiplicam medalhas, homenagens, graus honoríficos, cargos e qualificações, existe o risco de que os símbolos destinados a reconhecer serviços prestados acabem sendo interpretados como medidas de superioridade pessoal.

A distinção simbólica pode transformar-se em distinção social.

A distinção social pode transformar-se em hierarquia pessoal.

E a hierarquia pessoal pode transformar-se em vaidade.

Quando isso acontece, a fraternidade corre o risco de perder espaço para aquilo que a própria Maçonaria procura combater no mundo profano: a valorização excessiva das aparências e dos privilégios.

UM TESTE SIMPLES

Existe uma maneira bastante simples de descobrir se o avental está começando a subir à cabeça.

Imagine retirar do maçom todos os seus símbolos exteriores.

Sem avental especial.

Sem medalhas.

Sem colares.

Sem títulos.

Sem cargos.

Sem precedência.

Sem referências à sua trajetória.

Restariam apenas o homem e seus princípios.

Então surge uma pergunta bastante incômoda:

Quem somos quando ninguém está vendo o nosso grau?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que um maçom pode fazer a si mesmo.

Porque, se a retirada dos adornos provoca a sensação de perda de importância, talvez seja sinal de que os adornos passaram a ocupar espaço demais.

O VERDADEIRO “ALTO GRAU”

A Maçonaria possui graus, cargos, funções e responsabilidades. Tudo isso faz parte de sua estrutura e pode possuir profundo significado simbólico e administrativo.

Mas nenhum grau transforma automaticamente alguém em uma pessoa melhor.

Nenhum cargo concede sabedoria.

Nenhuma medalha produz virtude.

Nenhum avental substitui o trabalho interior.

Pode haver um maçom carregado de títulos que ainda tenha muito a aprender sobre humildade. Da mesma maneira, pode existir um Irmão quase desconhecido, sem cargos ou condecorações, cuja vida seja um verdadeiro exemplo dos princípios maçônicos.

Talvez o mais elevado grau seja justamente aquele que não precisa ser anunciado.

O grau da humildade.

QUANDO O CORDÃO VOLTA PARA O ARMÁRIO

Todo mandato termina.

Todo cargo passa.

Toda administração é substituída.

Toda medalha perde o brilho.

Todo avental, um dia, volta para o armário.

No final da jornada, aquilo que permanece não é o título que carregamos, mas a marca que deixamos nas pessoas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:

“Quantos cargos você exerceu?”

Mas:

“Que tipo de homem você se tornou ao exercê-los?”

A verdadeira autoridade maçônica não precisa ser exibida.

Ela é percebida.

Está na palavra ponderada, na mão estendida, na capacidade de reconhecer um erro, no respeito ao contraditório, na disposição de ensinar e, principalmente, na humildade para continuar aprendendo.

O avental deve lembrar ao maçom que ele está ali para trabalhar.

Nunca para se sentir superior.

Porque, quando o avental sobe à cabeça, é sinal de que talvez esteja na hora de parar, respirar e lembrar uma verdade simples:

antes de sermos ocupantes de qualquer cargo, somos simplesmente Irmãos.

E, quando todos os cargos terminarem, é exatamente isso que continuará importando.

O texto original destaca justamente essa crítica à transformação de funções e símbolos maçônicos em instrumentos de vaidade pessoal, defendendo que a verdadeira medida do maçom está no trabalho sobre si mesmo e na forma como trata os demais. 

Fonte: (GADLU.INFO)



 


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