Por Que os Ditadores Sempre Amaldiçoaram a Maçonaria?


 


"Quando ditadores amaldiçoam a Maçonaria "

"Deve haver algo de bom na Maçonaria se ditadores genocidas a amaldiçoam." José Bono

A declaração atribuída a José Bono, ex-político espanhol, impressiona pela sua simplicidade. Não se trata de uma demonstração histórica completa nem de uma prova absoluta. Mas age como um martelo numa pedra bruta: força à reflexão. José Bono, ex-presidente do Congresso dos Deputados da Espanha, Ministro da Defesa e presidente de Castela-La Mancha, fez comentários favoráveis à Maçonaria num discurso que viralizou na Espanha. Em essência, explicou que, se os piores regimes tanto odiavam a Maçonaria, era porque viam nela algo profundamente contrário à sua própria lógica.

José Bono

Porque, no fundo, o que as ditaduras odeiam?

Eles não odeiam apenas uma instituição. Odeiam o que lhes escapa. Odeiam lugares onde se aprende a pensar por si mesmo. Odeiam fraternidades que não se submetem inteiramente ao Estado, ao partido, ao líder, à raça ou à ideologia dominante.

A Maçonaria, quando se mantém fiel ao seu ideal, não impõe uma verdade preestabelecida. Ela oferece um caminho. Não exige repetição, mas sim trabalho. Não fabrica súditos obedientes, mas consciências em desenvolvimento. E isso, para um regime totalitário, já é intolerável.


O que os tiranos não podem perdoar

Ditadores adoram multidões enfileiradas, slogans simples, olhares cabisbaixos e consciências silenciosas. A loja maçônica, no entanto, baseia-se numa lógica diferente: escutar, questionar, confrontar símbolos, acolher a diferença, reconhecer o outro como um irmão antes de reduzi-lo a uma afiliação social, religiosa ou política.

É precisamente essa universalidade que preocupa os poderes de mente fechada. Uma fraternidade que transcende fronteiras, que fala de luz, liberdade de consciência e aprimoramento moral, rapidamente se torna suspeita aos olhos daqueles que desejam possuir toda a humanidade.

O nazismo, por exemplo, associou violentamente os maçons a uma suposta conspiração "judaico-maçônica". A propaganda nazista usou essa fantasia para alimentar o ódio e justificar a perseguição. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos observa que os nazistas viam a maçonaria como uma ameaça ideológica e que exposições antimaçônicas foram organizadas na Europa ocupada para ridicularizar e demonizar os maçons.

Na Espanha, o franquismo também desenvolveu uma obsessão antimaçônica. A lei de 1º de março de 1940, sobre a repressão da Maçonaria e do Comunismo, foi um dos instrumentos dessa perseguição. A obra do historiador Julius Ruiz demonstra que o regime franquista via a Maçonaria como uma ameaça constante, ligada à ideia de uma suposta conspiração “judaico-maçônica-comunista”.

O ódio aos ditadores como fator revelador

Contudo, uma palavra de cautela: o ódio de um tirano por algo não o torna automaticamente bom. O inimigo do nosso inimigo nem sempre é nosso amigo. Mas, no caso da Maçonaria, essa hostilidade reiterada diz muito.

Ela revela que a Ordem Maçônica carrega uma ideia perigosa para regimes fechados: o homem nunca pertence inteiramente ao poder. Ele possui uma vida interior. Ele tem o direito de buscar, de duvidar, de se aprimorar, de confraternizar com aqueles que a propaganda designa como estrangeiros ou inimigos.

A loja maçônica torna-se, então, um espaço simbólico de resistência. Não necessariamente uma resistência ruidosa, espetacular ou política no sentido partidário do termo. Uma resistência mais profunda: a do espírito que se recusa a ser confiscado.

Um maçom pode ser discreto. Pode ser silencioso. Pode até parecer alheio ao tumulto do mundo. Mas seu trabalho interior carrega consigo uma afirmação formidável: a dignidade humana não é decretada de cima, ela é reconhecida em cada ser.


Uma instituição imperfeita, mas uma ideia poderosa.

Seria ingenuidade apresentar a Maçonaria como perfeita. Ela é composta por homens e mulheres e, portanto, sujeita às suas limitações, contradições, fraquezas e, por vezes, vaidades. Nenhuma instituição humana está completamente livre das imperfeições da vida.

Mas o que José Bono está destacando é outra coisa. Ele não está dizendo que todos os maçons são exemplares. Ele está sugerindo que o próprio ideal maçônico contém algo que as ditaduras não podem tolerar.

A ideia é que podemos construir uma fraternidade sem uniformidade. Que podemos acreditar de forma diferente, pensar de forma diferente, vir de origens diferentes e, ainda assim, nos encontrarmos unidos pela mesma obra simbólica. Que a luz não seja recebida como uma ordem, mas buscada como uma necessidade.

Talvez seja isto que os ditadores amaldiçoam: não os aventais, as colunas ou os rituais, mas o que eles representam quando vividos com sinceridade.

Eles amaldiçoam a liberdade de consciência.

Eles amaldiçoam a dúvida.

Eles amaldiçoam a irmandade que não pede permissão.

Eles amaldiçoam aquela pequena chama interior que continua a arder, mesmo quando os templos estão fechados, os livros confiscados e os irmãos dispersos.

O verdadeiro escândalo maçônico

O verdadeiro escândalo da Maçonaria não é o seu segredo. O verdadeiro escândalo, para os regimes autoritários, é que ela nos lembra que o homem pode ser mais do que uma engrenagem na máquina.

Ensina que todos podem moldar sua própria pedra, refinar suas arestas e encontrar seu lugar de direito no Templo da Humanidade. Não promete um novo homem fabricado por decreto. Oferece um homem em uma jornada, imperfeito, mas responsável.

É menos espetacular do que um discurso de propaganda. Mas é infinitamente mais subversivo.

Porque um homem que pensa, que duvida, que escuta e que trabalha em si mesmo torna-se difícil de governar pelo medo. Ele já não se deixa aprisionar tão facilmente pelo ódio. Ele sabe que a luz não pertence a nenhum líder, partido ou ideologia.

Conclusão

A declaração de José Bono deve, portanto, ser entendida como um apelo à vigilância. Quando as ditaduras condenam a Maçonaria, não estão apenas lhe prestando uma estranha homenagem. Estão revelando o que mais temem: consciências livres, fraternidades abertas e homens capazes de se defenderem sem abandonar o seu pensamento.

E se de fato existe "algo de bom" na Maçonaria, talvez seja isto: esta silenciosa obstinação em acreditar que o homem é melhor que o medo, que a fraternidade é melhor que o ódio e que a luz, por mais frágil que seja, sempre acaba por preocupar aqueles que reinam nas sombras.

________________________________________

Referências

Declarações de José Bono publicadas na imprensa espanhola sobre seus elogios à Maçonaria.

Notas biográficas sobre José Bono: ex-presidente de Castela-La Mancha, Ministro da Defesa da Espanha e Presidente do Congresso dos Deputados.

Sobre a perseguição à Maçonaria pelo nazismo.

Sobre a repressão antimaçônica sob o regime de Franco.

 







Postar um comentário

0 Comentários