Uma investigação histórica sobre a famosa “carta profética” atribuída ao maçom do século XIX
A suposta carta de Pike de 1871. endereçada a Giuseppe Mazzini
A origem da suposta profecia
Segundo uma história que circula há décadas, em agosto de 1871 o filósofo maçônico Albert Pike teria escrito ao revolucionário italiano Giuseppe Mazzini descrevendo três guerras mundiais: duas que remodelariam o mundo e uma terceira, futura, que transformaria a religião global.
A narrativa afirma que a carta teria sido exibida no Museu Britânico, mas desaparecido posteriormente. Contudo, nenhum manuscrito foi encontrado, nenhum catálogo registra o documento e instituições britânicas negam qualquer registro de sua existência.
Quem foram Pike e Mazzini?
Giuseppe Mazzini (1805–1872) foi um dos líderes intelectuais da unificação italiana. Revolucionário, jornalista e conspirador político, fundou a sociedade secreta Jovem Itália e defendeu o nacionalismo democrático.
Albert Pike (1809–1891), por sua vez, foi general confederado na Guerra Civil Americana e, após o conflito, tornou-se uma das figuras mais influentes da Maçonaria do Rito Escocês. Em 1871, publicou a obra Morals and Dogma, um tratado filosófico maçônico.
Ambos viveram em um século marcado por sociedades secretas e movimentos revolucionários, o que alimentou especulações posteriores, mas não há evidências documentais de colaboração conspiratória entre eles.
O conteúdo da “profecia”
As versões modernas da carta afirmam que Pike teria previsto:
- Primeira Guerra Mundial: derrubar monarquias e instaurar o comunismo na Rússia.
- Segunda Guerra Mundial: destruir o nazismo e permitir a criação do Estado de Israel.
- Terceira Guerra Mundial: um conflito entre o mundo islâmico e o sionismo, levando ao colapso das religiões tradicionais.
Essa narrativa impressiona porque parece alinhar-se a eventos reais do século XX, o que levou muitos a acreditar que se tratava de uma profecia ou plano secreto.
De onde surgiu a história?
A suposta carta não foi mencionada no século XIX nem durante a Primeira Guerra Mundial. Ela ganhou notoriedade apenas no século XX, principalmente após o livro Pawns in the Game (1955), do oficial naval canadense William Guy Carr.
Carr alegou que a carta estava arquivada no Museu Britânico, mas nunca apresentou provas. Sua narrativa também se baseou em material sensacionalista do escritor francês Léo Taxil, que mais tarde admitiu ter inventado histórias sobre conspirações maçônicas para ridicularizar o público.
Inconsistências históricas
Historiadores apontam vários problemas no texto:
- Termos como “sionismo” e “fascismo” só surgiram décadas após 1871.
- Não há qualquer referência contemporânea ao documento.
- Nenhum arquivo, manuscrito ou correspondência confirma sua existência.
Esses anacronismos tornam praticamente impossível que a carta tenha sido escrita no século XIX.
Entre mito e realidade
Para alguns, a ausência da carta é prova de censura. Para historiadores, é evidência de que se trata de uma construção posterior, alimentada por teorias conspiratórias.
Albert Pike e Giuseppe Mazzini foram figuras reais e influentes, mas não existe qualquer prova de que tenham planejado guerras globais ou uma reorganização religiosa mundial.
A história da “profecia de Pike” revela mais sobre o fascínio moderno por conspirações do que sobre o funcionamento real da política global.
📌 Conclusão: A carta atribuída a Albert Pike é considerada uma falsificação moderna sem base documental, popularizada por literatura conspiratória do século XX.
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