Por
José Martí M:. M:.
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Prince Hall |
Em
1775, um americano de raça negra com o nome de Prince Hall (1735/1807),
metodista e divulgador religioso, foi iniciado em Boston na companhia de mais
14 homens livres de raça negra, numa loja de constituição irlandesa.
Prince
Hall criou a primeira loja de negros da América, a Loja Africana nº 1, em 1775
e foi-lhe conferida a patente nº 495 pela Grande Loja dos Modernos de
Inglaterra, dada a recusa da Grande Loja de Massachusetts.
Em
1791, esta Loja Africana nº 1 constituiu-se em loja mãe com o nome de Grande
Loja Africana da América do Norte, da qual Prince Hall foi o primeiro
grão-mestre. Em 1808, um ano após a morte de Prince Hall, ela adoptou o nome
distintivo e emblemático de Grande Loja Prince Hall, Maçons Livres e Aceitos de
Massachusetts, que dará origem à designada maçonaria de Prince Hall.
Outras
grandes lojas de negros foram criadas em seguida noutros Estados que acabaram
por se fundir, em 1847, com a Grande Loja Prince Hall. Hoje, esta Grande Loja
conta com cerca de 500.000 membros de 5.000 lojas que se encontram repartidas
em 40 Grandes Lojas autónomas, quase uma por Estado, às quais se juntam outras
existentes nas Bahamas, Haiti, República Dominicana, Libéria e,
surpreendentemente, 3 lojas na Alemanha criadas no decurso da II Guerra Mundial
e na dependência da Grande Loja de Maryland.
A
Grande Loja Prince Hall pratica os ritos mais usuais nos Estados Unidos: York e
REAA.
Mantém
boas relações com outras obediências maçónicas americanas de negros como as
Grandes Lojas de Sto, André, do Rei David, do Rei Salomão, de Enoch, do Monte
Sinai, do Monte das Oliveiras e dos Maçons do Rito Escocês de S. Jorge.
A
maçonaria dos negros americanos, como reflexo dos graves problemas existentes e
da radicalização do movimento negro, esteve desde o início da sua criação
envolvida nas causas sociais e humanas. Para muitos maçons negros, a situação
não possibilitava somente a reflexão e o exercício da caridade diante da
imensidão de desafios e do aumento da miséria dos guetos.
Simultaneamente,
e apesar de alguns esforços em contrário, esta situação também era devida à
atitude de segregação racial persistente das lojas de brancos.
Se
Prince Hall é reconhecido como o fundador da franco-maçonaria dos negros na
América do Norte, ele não se limitou a esta importante intervenção. Foi um
activo militante em defesa da educação, sem a qual, segundo ele, não podia
concretizar-se a emancipação dos negros. Em 1777, endereçou uma petição à Corte
de Justiça de Massachusetts relativa à situação criada aos negros.
Em
1792 e em 1797, como venerável da sua loja, expôs em dois discursos a sua
preocupação sobre as questões da educação à qual os negros não tinham acesso.
Em 1800, fundou a primeira escola para negros em Boston, após quatro anos de
iniciativas empenhadas junto das autoridades da cidade.
Outros
maçons negros tomaram parte nesta luta como Prince Saunders, Booker T.
Washington e William Edward Du Bois. Ainda que condenando firmemente a
escravidão, estes maçons mantiveram uma atitude de ponderação, apelando à
moderação e procurando evitar os excessos que agudizassem os ódios entre as
duas comunidades.
Du
Bois, partidário de uma educação pacífica e de uma colaboração entre os
americanos, promotor da igualdade de oportunidades, defendia o universalismo, a
tolerância, a razão e a paciência, na perspectiva que a fraternidade acabasse
por se sobrepor ao racismo.
A
maçonaria de Prince Hall criou desde o século XIX estruturas mutualistas e de
ajuda aos seus membros para suprir a ausência de assistência médica e social
aos seus irmãos mais idosos e estendeu a sua participação aos organismos
sociais profanos.
Relativamente
às 50 Grandes Lojas americanas ditas WASP (White, American, Saxon, Protestant),
só uma vintena reconheceu oficialmente a regularidade da Grande Loja Prince
Hall do seu Estado. As outras, entre as quais a de Nova Iorque, continuam a
recusar esse reconhecimento sob pretextos aparentemente formalistas.
Entre
esses pretextos têm sido referidos que a recusa se baseia no artigo 3º das
Constituições de Anderson, confundindo escravo e negro, ou que a Grande Loja
Prince Hall deveria ter recebido a patente da Grande Loja de Massachusetts e
não da Grande Loja dos Modernos de Inglaterra.
Em
1947, esta loja de Massachusetts tentou desencadear o reconhecimento, mas
recuou face à aberta hostilidade das outras Grandes Lojas de brancos.
Por
outro lado, as Grandes Lojas de brancos não toleram as aproximações entre a
Prince Hall e as Grandes Lojas europeias continentais, como o caso da França.
São
as Grandes Lojas dos Estados do sul dos Estados Unidos que permanecem em total
oposição a este reconhecimento.
Esta
situação insólita em pleno século XXI, ainda se torna mais inadmissível quando
estamos perante lojas maçónicas. Trata-se de uma situação de clara segregação
racial, em total contradição e desrespeito pelos princípios fundamentais do
humanismo universal intrínsecos à maçonaria.
O
humanismo, a seriedade e os bons costumes não derivam da cor da pele com que
cada um nasce. Se um dos princípios da maçonaria é o respeito e a tolerância
pelas opiniões diferentes, a referida contradição assume níveis de muito maior
gravidade quando se distinguem seres humanos pela cor da pele.
Esta
situação inexplicável naquele país tem raízes muito antigas e contornos
indignos.
Bedford
Forrest, que era maçom, foi um dos principais dirigentes, no século XIX, do Ku
Klux Klan, organização dedicada à defesa da escravidão, da segregação racial e
que ao longo das décadas tem praticado crimes hediondos que além do
espancamento de negros tem assassinado vários cidadãos negros, inclusive pelo
fogo. Também Albert Pike, conhecido maçon no mesmo século, foi um dos
principais dirigentes do Ku Klux Klan.
A
defesa dos grandes ideais humanistas, a procura do contínuo aperfeiçoamento
humano, as práticas da tolerância, da fraternidade, da igualdade de
oportunidades para todos e a assumpção dos grandes valores da cidadania plena e
da liberdade que caracterizam o espírito maçónico não podem ser confundidos e
muito menos manchados com situações como a que foi abordada.
Num
momento tão delicado como aquele que as sociedades atravessam no plano
internacional, com uma marcada crise de valores e de princípios humanistas e
solidários, é indispensável que a intervenção maçónica seja uma referência que
contribua para a melhoria e a mudança de rumos.
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