Da Redação
Com o desembarque de tropas europeias em Nuuk,
a disputa geopolítica no Ártico alcança um nível inédito de tensão. A reiterada
defesa pública do presidente Donald Trump pela anexação da Groenlândia,
justificada por supostas exigências de segurança nacional ligadas ao projeto
denominado “Domo de Ouro”, reposicionou a maior ilha do mundo no centro de uma
crise transatlântica. A reação foi rápida e coordenada: Alemanha, França,
Suécia, Noruega, Finlândia e Holanda enviaram forças militares a pedido da Dinamarca,
sinalizando coesão no âmbito da Otan e rejeição às pretensões unilaterais dos
Estados Unidos. O governo groenlandês foi enfático ao afirmar que não aceitará
qualquer forma de apropriação “sob nenhuma circunstância”. O impasse, que opõe
aliados históricos no campo diplomático, remete a dilemas do passado nos quais
redes fraternais, como a Maçonaria, atuaram como canais discretos de
interlocução em contextos de profunda divisão.
A história escandinava oferece um pano de fundo
revelador. A Maçonaria, em especial por meio do Rito Sueco, manteve vínculos
estreitos com as estruturas de poder e a diplomacia regional. Diferentemente de
outras tradições maçônicas, o Rito Sueco exige a profissão da fé cristã e, ao
longo de séculos, teve à frente membros da família real sueca e da alta
nobreza. Essa inserção nas elites permitiu que, durante períodos de guerra e
ocupação — notadamente na Segunda Guerra Mundial —, a fraternidade funcionasse
como uma rede de solidariedade e resistência não violenta. Um episódio
emblemático foi a participação decisiva na evacuação de judeus dinamarqueses
para a Suécia, em 1943, evidenciando como laços que transcendem fronteiras
nacionais podem servir a fins humanitários e à proteção de civis em tempos de
conflito. Esse legado contrasta com o presente, no qual os mecanismos
diplomáticos tradicionais parecem paralisados.
Diante desse quadro, impõe-se uma reflexão:
haveria espaço para que a Maçonaria, robustamente estabelecida nos Estados
Unidos e com raízes profundas na Europa, voltasse a oferecer um canal informal
de diálogo? Historicamente, a Ordem foi um ambiente no qual indivíduos de
nações em confronto podiam se encontrar sob princípios de fraternidade,
tolerância e construção pacífica. Na crise atual, a existência de membros em
posições de relevo nas administrações americana e europeia, possivelmente
unidos por esse vínculo fraternal, poderia, em tese, viabilizar uma mediação
confidencial. Não se trataria de firmar acordos políticos, mas de restaurar a
confiança mínima e construir uma linguagem comum capaz de evitar uma ruptura
grave no seio da aliança ocidental. Em momentos críticos, a lembrança dos
valores de diálogo e moderação pode ser tão estratégica quanto qualquer
dispositivo militar.

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