As Razões do Afastamento de Irmãos Das Lojas Maçônicas: Um Diagnóstico Necessário


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Nas últimas décadas, observa-se um fenômeno cada vez mais recorrente no universo maçônico: o afastamento gradual — e por vezes definitivo — de irmãos das lojas. Esse movimento não pode ser explicado por um único fator, mas por um conjunto de causas diversas, interligadas e frequentemente cumulativas, que afetam tanto a vivência iniciática quanto a dimensão fraternal e administrativa da Ordem. Refletir sobre essas razões não é um exercício de crítica estéril, mas um passo indispensável para a preservação da vitalidade maçônica.

 A distância geográfica e os limites da vida moderna

A realidade contemporânea impõe desafios objetivos. Muitos irmãos residem longe das lojas, enfrentando longos deslocamentos, trânsito intenso e incompatibilidade de horários. Aquilo que antes era vivido como um sacrifício virtuoso passa, com o tempo, a ser percebido como um peso excessivo, sobretudo quando a recompensa simbólica e fraternal deixa de compensar o esforço despendido.

 O custo financeiro e a exclusão silenciosa

Mensalidades, taxas administrativas, contribuições extraordinárias, jantares e eventos paralelos criam um custo acumulado que nem sempre é compatível com a realidade econômica de todos os irmãos. Quando o aspecto financeiro se sobrepõe ao iniciático, a loja corre o risco de transformar-se em um espaço seletivo por renda, promovendo uma exclusão silenciosa e incompatível com os princípios de igualdade e fraternidade.

 Clãísmo e monopolização da governança

Um dos fatores mais corrosivos da vida em loja é o clãísmo interno. Pequenos grupos que se perpetuam no poder, controlam eleições, decisões e cargos, acabam por transformar a governança em um patrimônio privado. Essa monopolização afasta irmãos que desejam servir à Ordem, mas não se submetem a jogos de influência, favores e lealdades pessoais.

 Egocentrismo e boêmia burguesa

Em algumas oficinas, o trabalho simbólico cede lugar à autopromoção social. Reuniões transformam-se em palcos de vaidade, status e ostentação, marcadas por uma boêmia burguesa que pouco dialoga com a proposta iniciática. O egocentrismo coletivo mina o sentido do trabalho maçônico e afasta aqueles que buscam silêncio interior, profundidade simbólica e verdadeira transformação.

 Gerontocracia e rejeição da renovação

A experiência dos mais antigos é valiosa, mas quando se converte em gerontocracia, torna-se um obstáculo. A resistência à renovação, o desprezo pelas ideias dos mais jovens e a repetição de modelos ultrapassados geram frustração e desânimo. Sem diálogo intergeracional, a loja envelhece espiritualmente, mesmo que seus quadros permaneçam cheios.

 O cansaço da rotina ritualística

O ritual é um meio, não um fim. Quando se torna excessivamente repetitivo, mecânico e desprovido de reflexão, ele perde sua força transformadora. Muitos irmãos se afastam não do ritual em si, mas da sua execução vazia, desconectada de estudo, aprofundamento simbólico e aplicação prática na vida profana.

 Fraternidade superficial

A fraternidade proclamada nem sempre é vivida. Em algumas lojas, ela se limita a formalidades, cumprimentos protocolares e discursos vazios. A ausência de escuta, apoio real e solidariedade concreta gera um sentimento de isolamento. O irmão comparece, mas não se sente pertencente.

 Panelinhas e concentração de poder

A formação de panelinhas que concentram cargos e influência reforça a sensação de injustiça e imobilismo. Quando sempre os mesmos ocupam as mesmas funções, a loja transmite a mensagem de que a participação é permitida, mas a decisão é restrita. Esse cenário desestimula o engajamento e favorece o afastamento silencioso.

 A pressão dos graus superiores sobre as lojas simbólicas

Outro fator sensível é a relação, por vezes tensa, entre os corpos de altos graus e as lojas simbólicas. Críticas constantes, ingerências administrativas e disputas de prestígio enfraquecem a autonomia das lojas azuis, gerando desmotivação entre irmãos que sentem sua oficina desvalorizada e subjugada.

 Os “donos da loja” e o abuso de autoridade

Por fim, destaca-se um dos pontos mais graves: a figura dos “donos da loja”, líderes todo-poderosos e presunçosos que confundem autoridade com domínio. Quando o Venerável ou um pequeno grupo governa pela imposição, pelo medo ou pelo personalismo, a loja perde sua alma iniciática. A autoridade que não se fundamenta no exemplo, na escuta e na humildade transforma-se em fator direto de evasão.

 Considerações finais

O afastamento de irmãos das lojas maçônicas não é fruto de indiferença ou desinteresse pela Ordem, mas, muitas vezes, de uma profunda decepção com práticas que contradizem seus princípios fundamentais. Reconhecer essas causas é o primeiro passo para uma necessária reforma de atitudes, métodos e estruturas. Sem essa autocrítica, a Maçonaria corre o risco de conservar templos abertos, mas consciências fechadas — e lojas cheias de ausências invisíveis.

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