Por Luiz Sérgio Castro
21 de janeiro é uma daquelas datas que, ao
folhear o calendário da História, revela um tecido rico e complexo de eventos.
Um dia marcado pelo som seco da guilhotina, pelo silêncio da morte de líderes,
pelo rugido dos motores de máquinas revolucionárias e pela luta pelo respeito
às crenças humanas. Cada efeméride deste dia é um fragmento que nos ajuda a
compreender o mundo de hoje.
Da Revolução ao Terror: O Fim de uma Era
A efeméride mais emblemática deste dia, que
ecoa através dos séculos, ocorreu em 1793. Na Place de la Révolution (atual
Place de la Concorde), em Paris, o rei Luís XVI foi executado na guilhotina.
Este ato foi muito mais do que o fim de um monarca; foi o ponto de não retorno
da Revolução Francesa, um símbolo radical da queda do Ancien Régime e do
triunfo (mesmo que momentâneo e sangrento) dos ideais de "Liberdade,
Igualdade e Fraternidade". O evento cristalizou o chamado "Reino do
Terror" e alterou para sempre o conceito de poder, soberania e direitos na
política ocidental.
Líderes que Partem, Ideias que
Permanecem
O século XX viu a despedida de dois gigantes
que moldaram realidades completamente distintas no mesmo dia 21 de janeiro.
Em 1924, morria Vladimir Lênin, arquiteto da
Revolução Russa de 1917 e fundador da União Soviética. Sua morte desencadeou
uma feroz luta pelo poder que culminaria no regime de Stalin, definindo o curso
geopolítico do mundo por décadas durante a Guerra Fria.
Já em 1950, era a vez de partir George Orwell
(Eric Arthur Blair), o escritor britânico cuja obra se tornaria profética.
Morto por tuberculose, ele deixou como legado romances como "A Revolução
dos Bichos" e "1984", que criaram o vocabulário essencial
("Grande Irmão", "duplipensar", "novilíngua")
para discutir totalitarismo, vigilância e manipulação da verdade – temas
incrivelmente pertinentes no século XXI.
A Marcha da Tecnologia e da Conquista
Se no século XVIII a guilhotina era o ápice da
"tecnologia" do terror, o século XX trouxe inovações que prometiam um
futuro diferente.
Em 1954, era lançado ao mar o USS Nautilus, o
primeiro submarino de propulsão nuclear do mundo. Este marco não só
revolucionou a guerra naval como inaugurou a era nuclear nos mares,
demonstrando o poder pacífico dos átomos para a propulsão.
Quase duas décadas depois, em 1976, a aviação
comercial dava um salto para o futuro com o início dos voos supersônicos do
Concorde. Operado pela Air France e British Airways, o Concorde encurtou
distâncias e capturou a imaginação do mundo, simbolizando a audácia da
engenharia e um certo ideal de luxo e velocidade que, por questões econômicas e
ambientais, se mostraria efêmero.
Cultura, Moda e Resistência
Esta data também é pontuada por figuras que
moldaram a cultura global.
Em 1905, nascia Christian Dior, cujo "New
Look" de 1947 redefiniu a silhueta feminina no pós-guerra e consolidou
Paris como a capital mundial da alta-costura.
No campo da comédia, Benny Hill (1924-1992) e
do drama, Telly Savalas (1922-1994), nascidos nesta data, tornaram-se ícones da
televisão, demonstrando o poder crescente desse meio no século XX.
Por fim, em 2000, uma tragédia no Brasil daria
origem a uma importante conquista civil. A morte de Mãe Gilda, ialorixá vítima
de intolerância religiosa, levou à instituição do Dia Nacional de Combate à
Intolerância Religiosa (21 de janeiro). A data, sancionada por lei, é um
lembrete poderoso da necessidade contínua de respeito à diversidade de crenças
em uma sociedade plural.
Conclusão: Um Mosaico da Condição Humana
O dia 21 de janeiro funciona como um microcosmo da jornada humana nos últimos séculos. Nele, vemos a violência radical da revolução política, a profundidade das ideias literárias, o assombroso avanço da tecnologia e a contínua luta por direitos e respeito. É um dia que encapsula tanto nossa capacidade de criar e inovar quanto nosso potencial para o conflito e a intolerância. Relembrar essas efemérides não é um exercício de mero registro histórico, mas uma oportunidade de reflexão sobre os caminhos que percorremos e os que ainda temos pela frente. Cada evento deste dia é um fio no tecido do tempo, lembrando-nos de que o futuro é sempre construído sobre os alicerces, marcos e cicatrizes do passado.


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