Fernando Pessoa, a Humildade e o Mistério da Iniciação Espiritual


Da Redação

Em carta datada de 13 de janeiro de 1935, dirigida a um crítico literário português, Fernando Pessoa oferece uma das mais reveladoras confissões sobre a sua visão espiritual e sobre o lugar que recusava ocupar enquanto “mestre” ou “chefe”. Longe de ser uma simples declaração de modéstia, suas palavras configuram um verdadeiro manifesto da Humildade, entendido não como diminuição do ser, mas como condição essencial para o acesso ao Mistério.

“Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria o que ensinar.”

À primeira vista, a frase pode parecer uma renúncia. No entanto, em sua profundidade simbólica, revela exatamente o oposto: a consciência de que o verdadeiro ensinamento não se impõe, não se proclama e não se organiza sob a forma de autoridade exterior. Pessoa compreende que a sabedoria não nasce do domínio sobre o outro, mas da escuta do insondável que habita a própria alma.

Aqui se revela a sua anti-divindade — não a negação do sagrado, mas a recusa do fanatismo, da tirania espiritual e da falsa iluminação. Pessoa não perde a personalidade; pelo contrário, ganha identidade. Ao afastar-se da vaidade do magistério, supera o “Nada” característico das filosofias de abandono vivencial e reencontra Deus de forma humilde, silenciosa e interior.

Na mesma carta, o Poeta afirma que aquilo que realizou “por acaso e que se completou por conversa” fora, na verdade, talhado com Esquadria e Compasso pelo Grande Arquiteto. A metáfora não é casual. Ela remete a uma ordem invisível, a uma arquitetura espiritual que se constrói para além da vontade consciente, obedecendo as leis mais altas do que a razão imediata pode compreender. Pessoa sugere, assim, que sua vida e sua obra participaram de uma grande viagem iniciática, cuidadosamente estruturada, embora velada.

Curiosamente, os fatos mais profundos dessa jornada não foram divulgados sequer aos amigos mais próximos. O silêncio, aqui, não é omissão, mas respeito ao Mistério. O grau de iniciação a que alude não se expressa em títulos ou reconhecimentos exteriores, mas na compreensão de que o Templo sagrado só existe quando o Ser, exaltando o Mistério total, se dispõe a transformar as forças cegas pela visão que a alma possui:

“Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!”

Este verso sintetiza uma ética espiritual profunda: dominar não pela força, mas pela consciência; orientar não pela imposição, mas pela visão interior. Trata-se de uma espiritualidade que rejeita dogmas rígidos e hierarquias opressoras, afirmando-se como potência espiritual baseada no diálogo, no misticismo e na humildade radical.

Fernando Pessoa, assim, apresenta-se como alguém capaz de ser Mestre sem o ser. Não ensina, mas desperta; não conduz, mas aponta; não governa, mas testemunha. Sua grandeza reside justamente na recusa do poder espiritual exterior, tornando-se veículo de algo maior, que o atravessa e o transcende.

Nesse sentido, Pessoa permanece como uma das figuras mais singulares da modernidade: um poeta que, ao mergulhar no Mistério da alma, descobre que o verdadeiro conhecimento não se proclama — vive-se.

 


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