Será que a Maçonaria está sem tempero?


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Reflexões a partir de Jean-Michel Mathonière

Por Luiz Sérgio Castro

Publicado originalmente em 6 de janeiro de 2026, o texto de Jean-Michel Mathonière provoca uma reflexão incômoda, porém necessária, sobre o modo como a Maçonaria contemporânea se percebe — e se apresenta. A metáfora escolhida é curiosa: a ideia de que reunir-se entre maçons para refletir seria como acrescentar “pimenta-caiena” a um prato sem sabor. A expressão, que vem circulando no meio maçônico, revela mais do que um simples recurso de linguagem: ela expõe um certo mal-estar, a sensação de que algo essencial estaria faltando.

A escolha desse termo não é inocente. “Pimenta-caiena” não pertence ao vocabulário tradicional da Maçonaria simbólica ou especulativa. Trata-se de uma importação semântica, um tempero “operativo” acrescentado a posteriori, como se fosse necessário dar mais intensidade, mais ardor, mais emoção a práticas que, para alguns, se tornaram previsíveis ou mornas. Mas a pergunta central permanece: será que a Maçonaria realmente carece de tempero, ou será que estamos procurando sabores onde deveríamos buscar sentido?

Ao recorrer a expressões externas à tradição, muitos irmãos e irmãs acabam sucumbindo à tentação de acreditar que a renovação da Ordem depende apenas da adoção de novos vocabulários, rituais paralelos ou práticas consideradas mais “cúmplices”, mais envolventes ou mais modernas. Essa postura, no entanto, corre o risco de confundir profundidade com exotismo, e vitalidade com adorno. O tempero, nesse caso, passa a ser um fim em si mesmo, e não um meio de revelar o verdadeiro sabor do prato.

A Maçonaria, enquanto via iniciática, nunca se propôs a ser um espetáculo sensorial ou emocional. Seu “sabor” reside no trabalho paciente, repetitivo e simbólico, na reflexão silenciosa, na escuta atenta e na transmissão de uma tradição que se constrói mais pela interiorização do que pela excitação. Quando se diz que é preciso “apimentar” as reuniões, talvez o que esteja em jogo não seja a pobreza da tradição, mas a dificuldade contemporânea de aceitar processos lentos, exigentes e discretos.

Isso não significa negar a necessidade de adaptação aos tempos atuais. Toda tradição viva dialoga com o presente. Contudo, esse diálogo não deve resultar na diluição de seus fundamentos nem na substituição de seu conteúdo por efeitos de linguagem. O risco é transformar a Maçonaria em algo que busca constantemente agradar, seduzir ou entreter, esquecendo-se de que sua vocação primeira é formar, despertar e transformar interiormente.

Assim, a provocação de Mathonière nos convida a inverter a pergunta: talvez a Maçonaria não esteja sem tempero; talvez sejamos nós que, habituados a sabores fortes e imediatos, já não saibamos apreciar a sutileza de um prato que exige tempo, atenção e trabalho para ser plenamente degustado. O verdadeiro desafio, então, não é acrescentar pimenta, mas reaprender a sentir o gosto essencial da tradição maçônica.

 

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