GOTEIRA: A ORIGEM DO TERMO

 Por Ir.'. Francisco Feitosa
Um termo muito comum e curioso, no linguajar maçônico, é o “Goteira”, servindo para identificar o não-maçom, que se utiliza de artifícios para descobrir nossos Arcanos, ou até mesmo para se introduzir no seio de uma Loja Maçônica, tentando se passar por um iniciado em nossos mistérios. Desde a Antiguidade, as escolas de ofícios, portadoras dos segredos de sua arte, resguardam-se de intrusos, que tentavam, ilegalmente, beneficiar-se dos direitos restritos aos membros daquelas classes organizadas.
Há relatos de que, no antigo Egito, muito antes da Maçonaria se estabelecer em suas Lojas de Ofício, existiam diversas outras Ordens, detentoras dos Mistérios da Construção (Medidas Canônicas, transmitidas através da Geometria Sagrada, aos iniciados), que já se utilizavam de sinais, toques e palavras para a identificação de seus membros, a fim de preservar seus segredos

Tais curiosos e “vantagistas” existem até os dias de hoje e, entre os maçons brasileiros, são tratados pela alcunha de “Goteira”. Alguns autores mais imaginativos alegam que sua origem remonta aos tempos em que os Maçons, a fim de se esconderem da perseguição dos inquisitores, reuniam-se, às escondidas, em cavernas, e quando um curioso tentava se infiltrar no grupo, era colocado embaixo da goteira de uma estalactite, onde permanecia de castigo. É fato notório que, ainda hoje, em nossos rituais, antes da Abertura dos Trabalhos, a primeira providência é a de se certificar da segurança do Templo, cabendo ao IrCobrExt a proteção do Templo contra as indiscrições profanas. Somente, após este ato, que se declara que o Templo está coberto. Ao IrCobrExt, cabe fazer o Telhamento em todos os visitantes, que pedirem ingresso, a fim de não permitir a entrada de intrusos, os “Goteiras”.

 O termo Telhamento, quando executado pelo IrCobrExt, é um ato constituído por perguntas e respostas, com a finalidade de se certificar se o visitante, de fato, é Maçom, aferindo-se o seu grau maçônico, sendo necessário que o visitante possua as respostas na íntegra e de memória, além do mesmo ter que comprovar sua regularidade através de seus documentos maçônicos. Ainda, existe muitos Irmãos que, erroneamente, utiliza-se, para esse ato, do termo Trolhamento. O termo Trolhamento está relacionado ao ato de se utilizar da Trolha, ferramenta do pedreiro, conhecido em diversos lugares como “colher de pedreiro”, usada pelo Mestre, para corrigir as imperfeições da Obra executada pelos Aprendizes e Companheiros.

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Nos países de língua inglesa, esse Ir recebe o nome de “Tyler” (Telhador), que vem de “tile” = telha; nos países de língua francesa, o de “Tulleur”, oriundo de “tuile” = telha; nos de língua italiana “Tegolatore”, que vem de “tegola” = telha).

Enfim, Telhamento é o ato de cobrir uma construção com telhas, a fim de protegê-la da chuva, das goteiras. Portanto, somente, após ser certificado quanto à segurança do Templo, ou seja, ser declarado que “ o Templo está coberto”, é que os Trabalhos maçônicos poderão ser abertos. Tudo isso evidencia o termo “Goteira”, porém, ainda, não revela sua origem, de fato.

Em nossas pesquisas, estudando os tempos da Maçonaria Operativa, deparamos com o termo “Cowan”, que era utilizado para se distinguir o pedreiro comum, grosseiro, que não era conhecedor dos segredos da arte de construir, reservado, apenas, aos pedreiros formados e iniciados nos mistérios da construção. Tais pedreiros desqualificados, recebiam bem menos que os demais e tinham que se submeter a executar trabalhos de menor importância.

O termo “Cowan” não possui, na língua inglesa, um significado em si, e nem encontramos uma tradução literal para o português, por ter sido um termo utilizado, somente, entre os Maçons da época, talvez, uma espécie de apelido maçônico, porém há quem diga que vem do escocês arcaico. Eventualmente, os “Cowans” tentavam se infiltrar no meio dos maçons de ofício, com o objetivo de tomar posse de seus conhecimentos e de se beneficiar das regalias de um pedreiro livre.

Existem relatos sobre “Cowans” que tentavam se infiltrar no seio de uma Loja Operativa, e quando descobertos, por castigo, eram surrados e colocados na chuva, ou na beira do telhado, embaixo de uma calha de chuva, até ficarem totalmente encharcados. Muitos afirmam que o cargo de Cob Ext (Telhador), nasceu da real necessidade de impossibilitar o acesso à Loja de tais sujeitos, e que fora criado no séc. XVIII, devido ao crescente assédio dos “Cowans” às Lojas Maçônicas.

Na Inglaterra, em outubro de 1730, o inglês Samuel Prichard, um traidor da Ordem, publicou em um jornal local, a íntegra de um Ritual Maçônico. Não satisfeito, lançou o livro “Masonry Dissected” (Maçonaria Dissecada), revelando, em detalhes, a ritualística maçônica. Observa-se, naquele ritual publicado, um trecho com as seguintes perguntas e respostas: “P- Aonde tem assento os Aprendizes mais novos? R- No Norte. P- Qual é a sua função? R- Manter afastados todos os “Cowans” e os “Eavesdroppers” (bisbilhoteiros). P- Como deve ser castigado um “Cowan” ou “Eavesdroppers”, se apanhado? R- Deve ser colocado debaixo do beiral, em dias de chuva, até que as goteiras a escorrer por seus ombros, saiam pelos seus sapatos”.

Nosso Irmão Guilherme Cândido, em sua matéria sobre o tema, reporta-nos, com base na cerimônia de instalação do Monitor de Webb – Rito de York Americano - edição de 1865, sobre a função do Ir Cobr (Tyler): “Irmão, você foi eleito Cobr desta Loja e eu o investirei com o instrumento de seu ofício. A Espada deve ficar nas mãos do Cobr para que ele seja, efetivamente, capaz de nos proteger da aproximação de Cowans e Eavesdroppers (bisbilhoteiros), e não permitir que ninguém passe a não ser quem esteja, devidamente, qualificado”. Ainda, Guilherme Cândido, com base no Ritual da Grande Loja de Nevada (EUA), assim como na maioria das Grandes Lojas americanas, revela, na abertura dos trabalhos, um diálogo entre o Venerável Mestre e o 2º Diácono, em que se diz em tradução livre: “Venerável Mestre: Qual é o seu dever lá? 2° Diácono: Observar a aproximação de “Cowans” e “Eavesdroppers”, e se certificar de que ninguém vá ou venha, exceto aqueles que estejam, devidamente, qualificados e tenham a permissão do Venerável Mestre”

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Fica muito evidente, portanto, que “eavesdrop” é a água que cai em forma de gotas, que goteja, do beiral ou da calha de um telhado, ou seja, uma goteira.

“Eavesdroper”, em sua tradução literal significa “bisbilhoteiro”, “intrometido”, aquele que se mete em assuntos que não são de sua alçada; sujeito de curiosidade demasiada quanto a assuntos ou à vida de outrem. Termo que, em sua origem inglesa, indica que essa pessoa ficava embaixo do beiral do telhado, do lado de fora da casa, para ouvir a conversa alheia. Provavelmente, isso tenha inspirado o castigo imposto aos “Cowans”, de ficar com a cabeça na goteira da chuva, no beiral do telhado

Os termos “Cowan” e “Eavesdropper”, embora pouco conhecidos de muitos maçons brasileiros, são os que mais se aproximam do termo que, hoje, utilizamo-nos para identificar aquela pessoa curiosa sobre os Arcanos de nossa Ordem – o “Goteira”.

Com isso, concluímos, salvo melhor juízo, derivarem desses termos sua origem, embora a prudência nos convida a não dar por esgotado o assunto.

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Editor Luiz Sergio Castro