SANTA MARIA DEI FIORI, FLORENÇA A MAÇONARIA OPERATIVA E A DESCOBERTA DA AMÉRICA

Pelo Ven\ Ir\ William Almeida de Carvalho 33



"O livro destrói a catedral, i.e. o alfabeto destrói a imagem"
Humberto Eco

“A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
E as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.
Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!”
António Gedeão
I Introdução
Estive na primavera de 2004 excursionando pela Toscana e o Vêneto. Em Florença – a Atenas da Itália, capital da região Toscana, cidade dos Guelfos e dos Guibelinos, do Renascimento, da arte italiana e da família Médici pude sentir o impacto da Renascença italiana. Deparei-me com as figuras míticas de seus concidadãos mais ilustres como Michelangelo, Dante e Maquiavel.
O ponto alto, contudo, foi a visita à Catedral de Santa Maria dei Fiori, com sua fachada de mármore verde e branco que me lembrou as cores da Escola de Samba Mangueira do Rio de Janeiro. Lá, subi os 463 degraus para atingir a sua cúpula donde se tem a vista mais monumental da cidade. A cúpula do domo de Florença é uma das obras mais fundamentais do quatrocento renascentista italiano e é obra do imortal Filipo Brunelleschi, como bem demonstra o livro de Ross King – Brunelleschi´s Dome – The Story of the Great Cathedral in Florence, Pimlico, London, 2001.
O presente artigo busca dar uma visão da catedral e de sua cúpula, uma pequena biografia de Brunelleschi, a maçonaria operativa da época e a sua relação com a descoberta da América.


II – Santa Maria dei Fiori
A catedral ou o Duomo (Domo) de Florença é o resultado de anos de trabalho que cobrem mais de seis séculos. Sua pedra fundamental foi argamassada em 1294 e o projeto arquitetural básico foi desenhado por Arnolfo di Cambio, mas somente iniciado em 8 de setembro de 1296; a cúpula que se tornou um símbolo para toda a Toscana foi criação do gênio da Renascença, Filippo Brunelleschi, enquanto que a fachada que a completa é obra do século XIX. É a quarta maior catedral do mundo só perdendo para São Pedro em Roma, São Paulo em Londres e o Duomo de Milão.

Uma série de intervenções estruturais e decorativas tanto no exterior quanto no interior que enriquecem a história do monumento foram construídas durante séculos. Essas intervenções vão desde a construção das duas sacristias no século XVI, pavimentadas de mármore, até a execução das esculturas e dos afrescos, assinados por Paolo Uccello, Andrea del Castagno, Giorgio Vasari e Federico Zuccari .

A terceira e última catedral florentina (a catedral é sempre a sede do bispado) foi dado o nome de Santa Maria dei Fiori (fiori, ou seja, flores em honra a Florença) em 1412 em clara alusão ao lírio, símbolo da cidade de Florença. Construída no topo da segunda catedral, que os antigos cristãos florentinos tinham dedicado a Santa Reparata, perdurou por nove séculos até que uma ordem foi dada para sua demolição em 1375.

Com a morte de Arnolfo em 1310, os trabalhos ficaram paralisados durante anos. Um impulso à retomada dos trabalhos da nova catedral foi a descoberta do túmulo de São Zenóbio em 1330 na cripta de Santa Reparata e a guilda dos mercadores de lã – não esquecer que na época Florença era o maior centro produtor de roupas finas da Europa – resolveu retomar a construção.

Em 1334, Giotto foi nomeado capomaestro – uma espécie de Venerável Mestre na maçonaria operativa – dos trabalhos, por pouco tempo visto que morreu três anos depois. Sua grande obra, contudo, está perpetuada no campanário. Andréa Pisano – autor da Porta Sul do Batistério, outra obra de arte localizado em frente à Catedral e onde Dante foi batizado sucedeu-o até 1348 quando a terrível peste dizimou metade da população da cidade, reduzindo-a de 90.000 para 45.000 habitantes, ou seja, o mesmo tamanho de Londres na época. Houve diversas interrupções na construção até 1367, quando uma competição foi empreendida para dar um modelo final à catedral. Finalizou-se a abóbada da nave em 1378 e os corredores colaterais em 1380. Entre esse ano e 1421 as tribunas e provavelmente o suporte para a futura cúpula foram levantados.

O grande problema, insolúvel no início do século XV, era a cúpula da catedral. Como construir uma cúpula que a arquitetura da época não tinha jamais enfrentado pelo tamanho, dimensão e peso? Em 1418, a Obra do Domo, dirigida pela poderosa guilda dos Mercadores de Lã, anunciou uma competição que Brunelleschi venceu, embora a obra só começasse dois anos depois. A cúpula octogonal, consistindo de duas carapaças concêntricas ligadas, foi finalizada em 1434. Os toques finais foram a lanterna da cúpula, terminada em 1461 e os revestimentos externos em mármore branco de Carrara, verde de Prato e vermelho de Sena.

A catedral de Florença foi consagrada pelo papa Eugênio IV em 25 de março (o Novo Ano florentino) de 1436, 140 anos após o trabalho ter sido iniciado.

A Basílica testemunhou momentos importantes da cidade. Entre eles, a abertura do Concílio de Florença em 2 de março de 1439 que levou à união temporária entre a Igreja Ortodoxa e a Católica e a trágica manhã da Páscoa de 26 de abril de 1478, quando Giuliano de Médici foi assassinado no “complô Pazzi” e seu irmão Lorenzo, o Magnífico, só não o foi por ter se refugiado na sacristia da basílica.

Existe uma diferença notável entre as várias partes da Catedral mostrando as diferentes fases do gosto durante o longo tempo passado entre a fundação da igreja e sua finalização. No exterior, a forma dos arcos redondos demonstra um estilo romanesco. Internamente, os seus arcos imensos, portas e janelas apresentam uma feição gótica. O domo é assim uma peça de arte da Renascença. A fachada, com seu estilo gótico, é obra do século XIX. No lado norte da catedral, a Porta da Mandorla, datada do século XV, apresenta uma influência gótica tanto no desenho arquitetural quanto na decoração. Ainda no interior, na forma de uma cruz latina, apresenta-se a nave e os corredores laterais. Maciços pilares com capitéis compósitos suportam as imensas e curvas abóbadas góticas. Os afrescos no corredor lateral norte, representam dois “condottieri” no lombo de um cavalo, obra de Paolo Uccello e Andréa Del Castagno. Nas lunetas, acima das entradas das duas sacristias, estão fixados trabalhos em terracota de Lucca della Robbia. O desenho dos vitrais redondos das janelas é obra de Lorenzo Ghiberti.

III – A Cúpula de Brunelleschi

Poucos ícones da Renascença são tão reconhecidos como a cúpula de Brunelleschi que paira sobre Florença.

No dia 10 de agosto de 1418, uma competição foi anunciada em Florença, na qual o corpo principal da magnífica Catedral de Santa Maria dei Fiori estava começando a tomar forma depois de um século de construção: “Quem desejar fazer um modelo ou desenho para a abóbada da principal Cúpula da Catedral sob a direção da Opera del Duomo – armação, andaime ou outra coisa, ou algum artefato de suspensão relacionado com a construção ou aperfeiçoamento da dita cúpula ou abóbada – deverá fazê-lo antes do fim do mês de setembro. Se o modelo for aprovado haverá um premio de 200 florins de ouro”.

O premio era tentador, pois um maçom operativo bem adestrado levaria, no mínimo, dois anos de árduo trabalho para juntar tal soma.

Nos últimos cinquenta anos, o corredor sul da catedral inacabada alojava um modelo em escala de 9 metros da estrutura final do que o arquiteto idealizara como obra acabada. O problema era que o modelo incluía uma enorme cúpula que, uma vez construída, seria a mais alta e a mais extensa abóbada jamais construída. Com um diâmetro de 36 metros, excederia por 3,5 metros a cúpula da mais espetacular igreja da época: a catedral de Santa Sofia em Constantinopla, que tinha sido construída 900 anos antes pelo Imperador Justiniano. E por cinquenta anos ficou óbvio que ninguém em Florença, ou em qualquer lugar da Itália, tinha a mínima ideia de como construir tal cúpula. A projetada abóbada da catedral tinha se tornado o maior desafio arquitetônico da época.

Em 1366, o capomaestro Giovanni di Lapo Ghini, o venerável mestre da época, desenhou um modelo de catedral bem tradicional no seu estilo. Planejou uma típica estrutura gótica com paredes finas, janelas altas e, para suportar a cúpula, arcobotantes externos tais como os que adornavam as igrejas góticas francesas no século anterior. Como se sabe, os arcobotantes eram uma das primeiras características estruturais da arquitetura gótica: pela acomodação do empuxo das abóbadas transferidas por eles de pontos estratégicos permitiam que as paredes fossem perfuradas por inúmeras janelas que deixassem penetrar a luz de alturas espetaculares, inundando a igreja com luzes celestiais, aspiração máxima de todos os arquitetos góticos.

A esse modelo do capomaestro, a guilda pediu também um contra modelo a Neri di Fioravanti que veio a prevalecer e que apresentou uma mudança radical de concepção. Neri e seu grupo rejeitaram os suportes externos propostos por Giovanni di Lapo Ghini e propuseram uma nova concepção. Arcobotantes eram raros na Itália, onde os arquitetos consideravam-nos horrorosos e substitutos embrutecidos e deselegantes. Contudo, as razões da rejeição de Neri eram provavelmente tanto políticas quanto estéticas e estruturais, pois rejeitavam e repeliam a arquitetura dos tradicionais inimigos de Florença: germânicos, francos e milaneses. Como os bárbaros alemães, os godos, cobriram a Europa com os deselegantes, desajeitados e desproporcionais edifícios que mais tarde tornaram-se um tema popular dos escritores da Itália Renascentista?

Se os arcobotantes não eram para serem construídos, como a cúpula seria sustentada? Neri di Fioravanti, o principal mestre maçom de Florença, tinha vasta experiência na arte de construção de abóbadas, a mais perigosa e dificultosa manobra de construção da arquitetura medieval. Acreditava ele que a cúpula poderia ser impedida de vergar sobre seu próprio peso não por meio de arcobotantes externos, mas pela incorporação de uma série de pedras ou correntes de madeira que poderiam circundar a circunferência, enfaixando a cúpula nos pontos de possíveis rupturas do mesmo modo que aros de ferro do barril conteriam a sua madeira.

A engenhosa solução de Brunelleschi, anos depois, seria de construir duas cúpulas, uma interna à outra. Na verdade, a cúpula não seria redonda, mas sim o que os romanos denominavam quinto acuto, ou uma abóbada octogonal composta de quatro arcos interpenetrantes. A tacada de gênio seria a de construir a carapaça visível e externa da cúpula de forma octogonal sobre um esqueleto circular. A genialidade não estava somente na forma da solução como também na resolução de inúmeros problemas mecânicos de guindastes, roldanas, polias para colocar toneladas de pedras na posição desejada.

O princípio descoberto por Brunelleschi não era o do método convencional utilizado pelos romanos na construção da cúpula do Pantheon e sim o princípio da curva catenária, ou seja, uma curva plana que representa a forma de equilíbrio de um fio homogêneo, flexível, pesado, suspenso por suas extremidades a partir de dois pontos fixos, e submetido exclusivamente à força da gravidade. O princípio da ação mínima universal de Leibniz-Bernouilli nos domínios complexos como o das funções hiperbólicas e dos logaritmos naturais. A única limitação prática desta tecnologia são os limites de elasticidade de cada material, definidos tempos depois pela Lei de Hook. A curva catenária representa uma curva física, não uma curva estática, não uma curva cartesiana. Seria como pregar uma corrente pelas extremidades e verificar o contorno da curva pela lei da gravidade.

IV – A Maçonaria Operativa da Época

As crônicas da construção de Santa Maria dei Fiori dão-nos uma visão de como era a vida dos maçons operativos da época.

A vida no canteiro de obras não era fácil e digna de não se ter inveja. O pagamento era baixo e o trabalho de longas horas era perigoso e esporádico devido ao mau tempo. Muitos trabalhadores provinham de famílias pobres, o chamado popolo minuto (povo miúdo). Para piorar, os menos adestrados, os homens que carregavam a cal e as pedras eram conhecidos como uomini senza nome e famiglia (homens sem nome e família). Algo em torno de 300 homens trabalhavam nas obras da catedral, inclusive aqueles nas pedreiras. Sua jornada de trabalho semanal era longa, pois labutavam de segunda a sábado, do nascer ao por do sol, significando que no verão podia chegar a 14 horas por dia. Todo sábado acontecia o pagamento, quando o contramestre distribuía os bilhetes que davam direito de serem apresentados ao pagador da Opera para que o dinheiro pudesse cair nos seus bolsos. Era um acontecimento, pois em geral podiam ser dispensados uma ou duas horas mais cedo para poderem comprar os mantimentos no Mercato Vecchio, que, como tudo mais, era fechado no domingo.

Os feriados religiosos ofereciam aos maçons um refrigério ao seu duro labor. Nesses dias, marchavam em procissão através das ruas que previamente tinham sido expurgadas dos mendigos e das prostitutas ou então pagavam promessas em peregrinação em busca de indulgências vendidas em barracas da Via San Gallo. A festa mais importante era o oito de novembro, a festa de seus santos padroeiros: os Quattro Coronati (os Quatro Coroados). A lenda sobre os mesmos diz que eram quatro cristãos escultores martirizados pelo Imperador Diocleciano por recusarem a esculpir uma estátua do deus pagão Esculápio. (Convém recordar que a primeira e maior loja de pesquisa maçônica do mundo em Londres também possui o mesmo nome: a Quattro Coronati Lodge). Nesse dia, os maçons deviam assistir à missa juntos e em seguida comer e beber. Os excessos na bebida eram perdoados, pois os estatutos da guilda dispunham que alguns dos homens deviam se conduzir nessa solene ocasião como se fussino alla taverna (como se eles estivessem na taberna).

Tirante os domingos e os feriados religiosos, um maçom operativo deveria esperar trabalhar teoricamente uns 270 dias no ano, mas se se levar em conta as condições do tempo, menos de 200 dias. Quando estava muito frio, úmido ou ventava muito para alguém trabalhar na cúpula, os nomes de todos os maçons eram colocados numa bolsa de couro onde cinco eram sorteados para trabalhar na cobertura, no revestimento e na cobertura das pedras, enquanto o resto era mandado para casa sem pagamento. Desemprego era uma condição crônica.

Essas eram as condições incertas então, nas quais os maçons começavam o seu dia de trabalho. Os sinos das igrejas tocavam de manhã em cada distrito da cidade para acordá-los nos seus catres e chama-los ao trabalho. Carregavam suas próprias ferramentas: cinzel, régua, nível, prumo, maço, desempenadeira e malhete. Ao chegar ao canteiro de obras da catedral, o maçom tinha seu nome inscrito num tabuleiro de gesso, como se fosse um relógio de ponto numa fábrica moderna, enquanto as horas transcorriam marcadas através de uma ampulheta de areia. Durante a Idade Média, o tempo estava associado com as horas litúrgicas. A palavra latina hora, era na verdade sinônimo de prece. Cada uma dessas horas tinha sido dividida em quatro partes de dez minutos de duração, enquanto cada minuto era dividido em quarenta `momentos´. A partir de 1400, entretanto, começaram a dividir as horas em sessenta minutos e cada minuto em sessenta segundos. O ritmo da vida profana estava começando a pulsar fortemente.

Além das ferramentas, os maçons também carregavam sua matula em bolsas de couro. A refeição do dia – comesto – era engolida às 11 horas quando os sinos tocavam uma segunda vez. Sabese hoje, que o comesto era deglutido lá no alto da obra por que em 1426, na ânsia de evitar os vagabundos, a Opera decretou que nenhum maçom poderia descer da cúpula durante o dia. Isso significava que até mesmo nos dias mais quentes do verão, os maçons não poderiam gozar o dolce far niente, a sesta após o almoço quando todos tiravam um cochilo para se refazer da temperatura escaldante. As crônicas de 1426 relatam que Brunelleschi mandou instalar uma cozinha entre as duas paredes da cúpula para servir a refeição aos maçons. O perigo de um incêndio na cúpula era possivelmente mitigado pelo fato de os maçons serem também os bombeiros de Florença. A responsabilidade de bombeiros caia sobre os ombros dos maçons por que eles possuíam as ferramentas usadas no único modo prático de combater o fogo naqueles dias: derrubando as paredes para criar clareiras por onde se pudesse apagar o fogo.

Para saciar sua sede em dias calorentos, os maçons bebiam vinho que carregavam em frascos junto com suas ferramentas e o seu farnel. Estranho e curioso costume, pois como um trago de vinho nessas circunstâncias, diluído ou não, poderia concorrer com a água? Não se deve esquecer que a água nessa época, carregava inúmeras bactérias e por consequência, as diversas doenças. Além do mais, os florentinos acreditavam nas propriedades miraculosas do vinho. Beber com moderação, dizia-se, apurava o sangue, estimulava a digestão, acalmava o intelecto, animava o espírito e expulsava os gases. Além do mais, proporcionava uma réstia de coragem para se trabalhar a dezenas de metros de altura numa cúpula curvada e perigosa.

Consta que os maçons almoçando lá no alto, na base da cúpula, num agosto abafadiço, haviam de ter uma dose extra de coragem. Abaixo deles, podiam ver o arco recém construído da tribuna sul, onde justamente há duas semanas, o maçom Donato di Valentino tinha despencado dezenas de metros para a morte. Além do mais, outro maçom também morreu na pressa de terminar a tribuna para que o trabalho na cúpula pudesse começar no próximo verão. A Opera pagou ambos os funerais, uma espécie de extensão da caridade que os maçons podiam esperar. Qualquer um, ferido no trabalho, ou sua família enfrentaria um futuro não muito risonho, pois nem a Opera nem a fraternidade ou guilda dos maçons teria feito um pecúlio para socorrer os inabilitados ou as viúvas e filhos dos mortos. A única obrigação social da fraternidade era atender tão somente ao funeral.

V – Santa Maria dei Fiori e a Descoberta da América

Maravilhas arquitetônicas, como a cúpula de Brunelleschi, tornavam-se locais de investigação científica visto que suas estruturas únicas e dimensões extraordinárias para a época podiam servir de locais de teste para novas teorias e tecnologias. Galileu pode jogar balas de canhão da Torre inclinada de Pisa para provar de maneira ocular que os corpos arremessados do alto descem com igual velocidade independente de peso. Centenas de anos depois, Gustave Eiffel estudou a aerodinâmica do alto de sua torre (onde o vento irrompe a mais de 100 quilômetros por hora) e finalmente provou que a sucção sobre a superfície superior da asa de um aeroplano é mais importante para seu vôo do que a pressão do ar por baixo. A cúpula de Santa Maria del Fiori, da mesma forma, ajudou os estudos científicos, somente que nesse caso o conhecimento ganho foi usado, não para o transporte aéreo, mas para a navegação oceânica.

Paulo Toscanelli era um dos maiores matemáticos e astrônomos do século. Tudo leva a crer que teria encontrado com Brunelleschi em torno de 1425, tanto que teria escrito que essa amizade com o capomaestro seria a maior associação de sua vida. Tanto quanto Brunelleschi, Toscanelli teria sido um solteirão por toda a vida, uma criatura fisicamente não muito simpática, com lábios grossos, nariz adunco e queixo pequeno. Embora fosse um homem saudável, era um fundamentalista em termos de castidade e vivia como um monge, dormindo numa tábua de madeira junto de sua mesa de trabalho e seguindo uma rígida dieta vegetariana. Estudou física em Pádua, onde passou muito de seu tempo observando o firmamento e desenvolvendo cálculos matemáticos complexos. Instruiu Brunelleschi nas sutilezas da geometria de Euclides e, mais tarde o capomaestro retribuiu o favor, embora inconscientemente, assistindo-o nas suas observações celestes. Em 1475, inspirado pela altura da cúpula, Toscanelli escalou-a até o topo e, com as bênçãos da Opera del Duomo colocou um prato de bronze na base da lanterna (a lanterna está situada no ápice da cúpula). Assim sendo, os raios do sol puderam passar através da abertura no centro e iluminar noventa e tantos metros abaixo um medidor especial no solo da Capela da Cruz da catedral, de tal modo que esta se transformou num imenso relógio de sol.

Esse instrumento se tornou vital na história da astronomia. A altura e a estabilidade da cúpula permitiram a Toscanelli obter um conhecimento superior do movimento do sol (ou melhor, da órbita da terra ao redor do sol), que lhe facultou calcular com grande acurácia, antes que qualquer um, o exato momento do solstício de verão e do equinócio vernal. Esses cálculos serviram, primeiramente, a um propósito eclesiástico em que as datas religiosas, como a Páscoa, pudessem ser reguladas cuidadosamente, contudo, proporcionaram, posteriormente, aplicações de longo alcance bem mais profanas e científicas.

Convém recordar que o D. Henrique, o Navegador, ao fundar a Escola de Sagres em 1419, permitiu aos portugueses trafegar por “mares nunca dantes navegados” e desencadear inúmeras viagens do ciclo dos descobrimentos. No início, no Atlântico oriental, usando um novo tipo de barco: as caravelas. Eram embarcações leves, ligeiras e destinadas a velejar contra o vento. Os frutos dessas viagens eram múltiplos. Os navegantes, apadrinhados pelo Príncipe, exploraram as duas remotas ilhas dos Açores (descobertas em 1427) e desembarcaram em diversos portos da África Ocidental. O arquipélago de Cabo Verde foi alcançado em 1456 e quinze anos depois os portugueses cruzaram o equador pela primeira vez. Prêmios maiores, contudo, ainda estavam por vir. Ilhas como Brasil, Antilhas e Cantão existiam nas lendas, mas ninguém ainda tinha posto os olhos e as mãos nelas. A última delas, dizia-se, estava repleta de especiarias.

Essas viagens no Atlântico não poderiam se realizar sem a ajuda da astronomia, que permitia aos marinheiros navegar por mares não cartografados e só depois assinalá-los nos portulanos. A navegação num mar restrito como o Mediterrâneo era feita por meio de cartas mostrando a escala das distancias e um padrão de doze linhas de curso (mais tarde expandidas para 16) que irradiavam de um ponto central conhecido como rosa dos ventos. O navegador podia simplesmente traçar uma linha entre dois pontos e assim encontrar a correspondente linha de curso e delinear sua trajetória real com a ajuda da bússola. “Navegar é preciso, viver não é preciso.”

Questões de latitude e longitude podiam certamente ser ignoradas no Mare Nostrum, mas quando os portugueses se aventuraram no Atlântico Sul descobriram que o método funcional no Mediterrâneo não se aplicava nesses mares. A grande era da navegação celeste estava por começar.

Crucial nesse tipo de navegação era o astrolábio, um instrumento náutico dos antigos, pois era usado pelos gregos desde 200 a.C., em forma esférica ou de círculo graduado, com haste móvel, que os astrônomos usavam para calcular a posição e a altura do sol e das estrelas em relação ao horizonte. Em meados de 1400, recomeçou a ser usado pelos pilotos para calcular sua posição no oceano. Como as determinações da longitude eram não confiáveis durante longos anos (vide a expansão portuguesa no Brasil após o Tratado de Tordesilhas), a acurada leitura das distâncias norte sul, ou seja, a determinação da latitude era de grande importância, tanto na navegação como na elaboração dos mapas. Os navegadores então computavam sua latitude usando o astrolábio para calcular o ângulo entre a Estrela Polar e a linha do horizonte. No entanto, quanto mais se aproximassem da linha do equador, a Estrela Polar desaparecia no horizonte e o método se tornava impraticável. Deveriam, pois, utilizar o sol no lugar da mesma, medindo o ângulo entre o astro e a linha do horizonte ao meio dia.

Essa determinação era simples o bastante para operar exceto pelo fato de que a posição do sol, assim como da Estrela Polar anteriormente, não coincidia com o pólo celeste. Em outras palavras, nenhuma dessas rotas para a navegação celeste caía diretamente na extensão imaginária do eixo terrestre proveniente da Estrela Polar. Assim, para obter a latitude de uma área era necessário então aplicar a correção para suas altitudes observadas. Um número de tabelas de declinação devidamente compiladas por astrônomos era usado para esse propósito, sendo a mais notável delas as Tabelas Alfonsinas, que tinham sido preparadas por astrônomos judeus na Espanha em 1252. Essas tabelas permitiam aos astrônomos e aos navegadores calcular a posição do sol e da Estrela Polar através das várias estações, assim como as eclipses lunares e solares e as coordenadas de qualquer planeta em um dado momento. Dois séculos após a sua compilação, essas tabelas ainda continham várias inexatidões e necessitavam de uma séria revisão. A observação de Toscanelli do movimento do sol – observação feita com a ajuda do prato de bronze no topo da Santa Maria dei Fiori – permitiu que ele corrigisse e refinasse as Tabelas Alfonsinas e, ao fazê-lo, colocou nas mãos do navegadores e dos elaboradores de mapas uma mais acurada ferramenta para plotarem suas posições.


Toscanelli tinha um particular interesse em mapas e explorações. Em 1459, entrevistou vários marinheiros portugueses familiarizados com a Índia e a costa ocidental da África para que pudesse criar um novo e mais acurado mapa do mundo. O mapa, a seguir, é uma demonstração de sua visão da época, com o paredão americano desconhecido em cor diferenciada:

Este mapa então parece ter dado vazão, na mente arguta de Toscanelli, a uma nova, original e fulminante idéia. Quinze anos mais tarde, quando tinha 77 anos, escreveu a um amigo em Lisboa – Fernão Martines – um cônego da corte do Rei Afonso de Portugal. Pressionava Martines para interessar Afonso numa nova rota para a Índia, assegurando que o Oceano Atlântico era o caminho mais curto para a região das especiarias do oriente, caminha bem mais curto do que a rota terrestre monopolizada pelos árabes. Essa nova rota marítima era mais do que necessária, pois várias partes do caminho terrestre para a Índia tinham sido bloqueadas aos europeus após a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. Toscanelli parece ter sido a primeira pessoa na história a acalentar a idéia de que navegar para o ocidente daria com os costados na Índia.

O rei Afonso pode não ter sido persuadido a adotar as revolucionárias idéias de Toscanelli, pois embora sobrinho D. Henrique, o Navegador, estava mais interessado em lutar contra os mouros do que em descobrir novas ilhas no meio do oceano. Contudo, sete anos mais tarde, o astrônomo foi contatado por um parente de Fernão de Martines: um ambicioso capitão genovês chamado Cristóvão Colombo. Navegador experiente, Colombo tinha velejado sobre todo o mundo conhecido da época: da Grécia à Groenlândia à Costa Dourada da África. Na sua viagem para a costa ocidental da África, detectou destroços de madeiras como pinheiros, caniços e outras peças boiando nas margens oceânicas que lhe convenceram da existência em direção ao oeste de terras ainda desconhecidas. Quando retornou a Portugal, teria visto a carta de Toscanelli a Martines, fato que lhe causou um profundo impacto tanto que a copiou numa folha em branco de um de seus livros, um tratado de geografia que posteriormente o acompanhou em todas as suas quatro viagens ao Novo Mundo.

Toscanelli escreveu a Colombo repetindo suas convicções sobre a nova rota marítima para as Índias. Enviou até mesmo a Colombo um mapa no qual a distância para a China era otimisticamente calculada como sendo de apenas 6.500 milhas, uma séria subestimação da distância, mas que calou profundamente na alma do navegador genovês na qual o mapa e a carta tinha encontrado terreno fértil. Apesar de Colombo não ter encontrado melhor acolhida do que Toscanelli em persuadir e elite portuguesa em empreender a aventura para o ocidente, e só em 1486 peticionou por uma audiência com os representantes dos reis católicos de Espanha. O resto é história por demais sabida. Seis anos depois, em 3 de agosto de 1492, após o levantamento dos fundos necessários e promessas de honras e títulos a Colombo, a flotilha de três navios levantou âncora do porto de Palos, perto de Cartagena. Embora, Colombo pudesse mais tarde afirmar, com típica arrogância, que nenhum mapa ou cálculo matemático tivesse tido a mínima utilidade para ele, seria de admirar-se que algum europeu pudesse aportar no Novo Mundo tão cedo e tão “facilmente” sem a ajuda dos mapas e das tabelas de Toscanelli, tão arduamente compiladas com a ajuda de suas observações na cúpula de Santa Maria dei Fiori.



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Editor Luiz Sergio Castro