A MAÇONARIA E OS QUATRO MÁRTIRES COROADOS

Por Ir.'. Honório Sampaio Menezes(*)
Os quatro mártires romanos, em Orsanmichele, em Florença.
Conta a história que entre os condenados a trabalhar nas pedreiras de mármore haviam muitos cristãos que foram perseguidos por sua fé. A Igreja Católica lembra os Quatro Santos Coroados que, provavelmente, foram martirizados no reinado de Diocleciano por se recusarem a esculpir uma estátua de Esculápio (Deus da Medicina). Suas relíquias são mantidas em Roma, na Igreja chamada de Quatro Santos Coroados, em túmulos feitos da mesma pedra que causou sua morte. A identificação dos nomes desse grupo de mártires é uma questão de investigação acadêmica difícil porque tem muitos aspectos enigmáticos. Através da análise de algumas fontes disponíveis os pesquisadores chegaram à conclusão que eram cinco os Quatro Santos Coroados Santos que teriam sido condenados à morte sob o reinado de Diocleciano, em 306 DC em Sirmium (hoje Sremska Mitrovica). As fontes romanas e não romanas não esclarecem a identidade dos Quatro Mártires Coroados.
Mesmo em documentos do vaticano como no Sacramentário Leonino, o único gregoriano, em Liber Pontificalis de Onofrio l (625-638), em Adriano I (772-795) e Leão IV (847-855) não há nada que possa esclarecer a questão dos nomes dos mártires. Os documentos de origem não-romanas (século 7) listam os nomes dos Quatro Mártires Coroados que são quase os mesmos que os relatados por um Passio (um documento hagiográfico do século 6), que conta a história de cinco mártires de Pannonia, então podemos concluir que todos esses documentos, de alguma forma, derivam do mesmo Passio.

Todas as Martirologias posteriores (coleções de vidas dos mártires) acrescentaram dúvidas, o que influenciou o Martirológio Romano, que dá aos Quatro Mártires Coroados os nomes dos mártires de Albano chamando-os de Severo (em vez de Secundius), Severiano, Vitorino e Carpóforo.

As fontes romanas relatam a celebração dos Quatro Mártires Coroados e ignoram os nomes dos mártires, as fontes não romanas relatam os nomes (quatro ou cinco) extraídos do Passio. Discute-se o grau de credibilidade deste documento uma vez que remonta ao século 4 e deve ser considerado um documento muito importante, para outros é uma espécie de lenda, sem credibilidade histórica, de pouco valor, cheia de clichês e indigno de ser colocado entre os escritos hagiográficas do século 4. O documento conta que Diocleciano, em seu caminho para Pannonia (zona sudoeste do Danúbio entre a Áustria e a Hungria) para extrair o mármore para seus edifícios, encontrou entre os seus trabalhadores, quatro artistas escultores: Cláudio, Castorius, Simpronian e Nicostratus. Diocleciano pediu-lhes para esculpir uma estátua do Sol e entusiasmado com sua habilidade, ele encomendou-lhes outras obras de esculturas. Simplício, outro escultor pertencente à região da Pannonia, ficou impressionado com as habilidades e disponibilidade dos quatro trabalhadores e seguiu-os na fé cristã. Ele foi batizado pelo bispo Cirilo de Antioquia em Sirmium. A inveja e suspeita de outros trabalhadores, que acusaram os cinco escultores de praticar magia, causou uma série de discordâncias, criando duas facções opostas e muitos se converteram ao cristianismo. O imperador estava satisfeito com o trabalho realizado pelos cinco e encomendou-lhes uma grande estátua de Esculápio, fato que causou inveja dos outros talhadores que acusaram os cinco escultores de serem lentos para executar a estátua de Esculápio e de serem cristãos e desobedientes. Eles foram forçados a confessar sua fé e se recusaram a esculpir uma estátua dedicada a um deus pagão. Por esta razão, eles foram entregues ao julgamento de Lampadio, que morreu logo em seguida, não antes de açoitá-los e julgá-los ímpios e profanos. Então Diocleciano mandou colocar os cinco cristãos, ainda vivos, em caixões revestidos de chumbo e jogá-los no rio, no dia 8 de novembro.

Da narrativa acima se origina a tradição de que no dia 8 de novembro é comemorado o dia dos patronos dos trabalhos da construção civil, dos pedreiros, dos escultores, conhecidos como Os Quatro Santos (Mártires) Coroados. As atividades corporativistas dos pedreiros, escultores, estucadores e arquitetos que trabalharam durante vários séculos em toda a Europa, deixando vestígios tangíveis do seu trabalho que, certamente, foi caracterizado por um profundo sentido religioso que se expressa em uma devoção simples e sincera que se reflete na adoração de seus patronos a manifestação de uma fé genuína, intimamente ligada às suas necessidades espirituais e materiais. Os longos períodos passados longe de suas terras de origem contribuíram para a criação de associações reais com o objetivo de cuidar, e dar assistência material e espiritual aos companheiros em dificuldades, representando o papel de sua família. A criação de lugares reservados para os pedreiros e construtores, como as inúmeras capelas nas igrejas nas cidades atingidas pela migração artística é uma prova do desejo de criar uma espécie de consulado, um pequeno pedaço de sua terra em lugares onde fossem trabalhar. Muitas dessas capelas foram dedicados para os Quatro Santos Coroados cujo culto, por tradição, sempre foi associado com pedreiros, escultores, trabalhadores da construção civil que os elegeram como seus patronos celebrando-os no dia 8 de novembro.

A comemoração de um dia consagrado aos Quatro Santos foi a principal causa da propagação de sua religião em toda a Europa. Durante os períodos em que as sociedades de pedreiros livres tiveram um papel importante na vida das cidades, uma produção iconográfica prolífica sobre os Quatro Santos Coroados floresceu e quando as corporações enfraqueceram essas representações desapareceram.

A coincidência da sua celebração com o “dies natalis” dos quatro mártires da Via Labicana (em Roma) sugere que as relíquias utilizadas para que a celebração pertenciam aos mártires enterrados no lugar chamado “em Comitatum”, e eles eram geralmente chamados de Quatro Mártires Coroados, uma vez que não há outros dados em seu nome.

Em contraponto à confusão que reina na busca de uma “verdade histórica” sobre as Quatro Mártires Coroados existe um culto genuíno de adoração aos mesmos que durou muitos séculos e é demonstrado pelo inventário iconográfico encontrado na Pannonia, que marca a história da aliança de pedreiros e de trabalhadores da construção civil com a maioria das cidades europeias.

Em diversos locais do mundo a maçonaria tem homenageado os Quatro Santos Coroados colocando esse nome em suas lojas. A mais importante loja nesse sentido está em Londres, é a Loja Quatuor Coronati Nº 2076. Esta Loja Maçônica londrina é dedicada a pesquisas maçônicas. Ela se encontra no Freemasons’ Hall, na Great Queen Street. O seu título (Quatuor Coronati) significa, em latim, Quatro Coroados, uma referência à lenda dos Quatro Mártires Coroados.

Nove maçons (Sir Charles Warren, William Harry Rylands,Robert Freke Gould,Rev. Adolphus Frederick Alexander Woodford,Sir Walter Besant,John Paul Rylands, Major Sisson Cooper Pratt,William James Hughan, and George William Speth), insatisfeitos com a maneira como a história da Maçonaria havia sido exposta no passado, fundaram a Loja em 1884. Eles insistiam em utilizar uma abordagem para o estudo da história maçônica baseada em evidências. Como tal, essa abordagem era nova e incomum, e eles pretendiam que os resultados deveriam “substituir os escritos imaginativos de antigos autores sobre a história da Maçonaria”.

Em adição às reuniões trimestrais onde artigos são apresentados e os apresentadores respondem perguntas, a loja publica anualmente o Ars Quatuor Coronatorum, que é um registro de todos os artigos apresentados na Loja, bem como outros artigos e comentários aceitos para publicação, e ela mantém o Círculo de Correspondência Quatuor Coronati (Quatuor Coronati Correspondence Circle- QCCC) que permite a participação de maçons do mundo todo.

Os Fundadores da Quator Coronati inglesa planejaram desenvolver o interesse em pesquisa entre irmãos em todos os lugares, para ter artigos lidos e discutidos na Loja e publicados como documentos na Ars Quatuor Coronatorum (AQC), assim mantiveram a cooperação de estudiosos e professores maçônicos em todas as partes do mundo. Em 1887 estabeleceram os objetivos principais que eram: 1. Fornecer um centro e laço de união para estudiosos maçônicos. 2. Atrair maçons inteligentes para suas reuniões, a fim de estimulá-los para a pesquisa maçônica. 3. Submeter as descobertas ou conclusões de alunos para o julgamento e crítica de seus semelhantes, por meio de trabalhos lidos em Loja. 4. Submeter essas comunicações e as discussões decorrentes desse acompanhamento ao corpo geral da Maçonaria pela publicação, em intervalos apropriados, os artigos apresentados em Loja, na sua totalidade. 5. Reimprimir trabalhos escassos e valiosos sobre a Maçonaria, e publicar os manuscritos, etc. 6. Fazer o ofício de língua Inglesa familiarizar-se com o progresso do estudo maçónico no exterior, por traduções (no todo ou em parte) de obras estrangeiras. 7. Tabular de forma concisa, os artigos impressos da Loja, o progresso da Maçonaria em todo o mundo. 8. Adquirir instalações permanentes e formar uma biblioteca e um museu maçónico. A loja Quatuor Coronati, a primeira para investigação maçônica, continua trabalhando com as normas estabelecidas em 1884 mantendo a alta qualidade de trabalhos de pesquisa, palestras e discussão estabelecidas desde sua fundação, mantendo uma ótima divulgação através de seu site. A loja Quatuor Coronati Lodge tem entre seus membros a maioria dos professores das Palestras Prestonianas, sistema educacional maçônico da Grande Loja da Inglaterra criado em 1824 como legado de William Preston (1742-1818). O seu trabalho de investigação exemplar na criação de documentos recebe reconhecimento mundial pela publicação e por meio de turnês internacionais de palestras. As Prestonian Lectures são as únicas palestras realizadas sob a autoridade da Grande Loja da Inglaterra.

Na Itália temos, também, uma loja em homenagem aos Quatro Santos Coroados. É uma Loja de pesquisa histórica, filosófica, artística e humanística. Massimo Antoci é o venerável mestre atual (2014/2015) da loja, que foi fundada em 05 de abril de 1997, e está envolvida no campo da pesquisa maçônica conduzindo investigação com base em fontes bibliográficas reais e registradas. A Quator Coronati admite Mestres Maçons de todas as Lojas da Itália ou Grandes Lojas estrangeiras reconhecidas pelo RGLI, e é possível participar apenas por convite. Os estudos originais e as intervenções feitas pelos Irmãos no Loja foram publicados no volume “Proceedings of the Quatuor Coronati Lodge Nº. 112″.

(*) Irmão Honório Sampaio Menezes, 33º, REAA, Loja Baden-Powell 185, GLMERGS, Porto Alegre, RS, Brasil

Referências:
Michele Sottile .Magistriticinesi e I loroprotettori,.Giornale del Popolo, 4 Nov 1999
“Four Crowned Martyrs”, 1913, Catholic Encyclopedia (em inglês), em domínio público.
http://www.quatuorcoronati.com/founders.html
Fonte: www.systri.com/blog/maconaria.


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Editor Luiz Sergio Castro