PATRIOTISMO É TORCER PELA SELEÇÃO BRASILEIRA?

Por Barbosa Nunes (*)
O futebol tem grande expressão na vida do brasileiro. Um espetáculo que desperta emoção, alegria e paixão. Fenômeno social capaz de fazer uma pessoa chorar, gritar, vibrar, rir, pular de alegria, brigar, matar e morrer. Estes últimos comportamentos, usuais entre as torcidas organizadas. É também refúgio, com os indivíduos colocando, por momentos, os problemas de lado, esquecendo crise financeira e política. Ai o futebol anestesia a consciência dos torcedores, que chegam a ter como religião os seus clubes, caso do Corinthians.
O que é patriotismo?
É sentimento de orgulho, amor, devoção à pátria e aos seus símbolos, bandeira, hino, brasão, vultos históricos, riquezas naturais, patrimônio material e imaterial. É a razão do amor dos que querem servir ao seu país. Ser patriota implica em fazer algo de bom pela sua nação. Patriota prende-se com os deveres morais com a comunidade.

O futebol brasileiro desde 1956, com João Havelange, que passou para seu genro Eduardo Teixeira, encontra-se na mesma linha de corrupção com José Maria Marin e Marco Polo del Nero. João Havelange ficou 24 anos e renunciou. Ricardo Teixeira mandou por 14 anos, e às pressas também renunciou e está sendo processado. Somente ditadores ficam tanto tempo no poder. José Maria Marin, um ancião desrespeitoso com sua idade de 83 anos, ocupou altos cargos do poder público, inclusive governador de São Paulo. Assumiu a presidência da CBF. Agora, como vice-presidente, está preso na Suíça. Eleito foi o atual presidente, Marco Polo, que encontrando-se em Zurique, após a prisão de vários componentes do comitê da Fifa, de imediato voltou para o Brasil.

Em 22 de outubro de 2011, aqui no Diário da Manhã, foi publicado meu artigo: “Patriotismo é amor à pátria e não amor à Copa, que é da Fifa”. Disse que a Fifa é na verdade a senhora soberana da Copa, tendo a Copa do Mundo como um circo para ganhar muito dinheiro, grandes contratos de publicidade, livre de impostos federais, estaduais e municipais, controle total sobre transmissão de jogos e uso dessas imagens.

O Brasil foi submetido à vontade da Fifa, com sua soberania ferida, ao ponto desse que está sendo investigado pela justiça dos Estados Unidos, senhor Jérôme Valcke, ter afirmado quando visitava os estádios em construção atrasada: “O Brasil merece um chute no traseiro”. Estádios construídos na desonestidade e superfaturamento da corrupção praticada por políticos e empresários, muitos hoje presos. Estádios sem público e abandonados, em locais que não tem futebol e torcida para ocupá-los.
Os contratos da Copa do Mundo de 2014, segundo as últimas informações, estão sendo investigados e o foco é Jérôme Valcke e Ricardo Teixeira. Ambos estão na lista do FBI. Valcke está envolvido, conforme sua própria declaração, em uma transferência de 10 milhões de dólares feita ao presidente da Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe). No total, a Copa do Mundo no Brasil envolveu mais de mil contratos diferentes. Valcke, preparando documentos da candidatura do Brasil para 2014, prestou consultoria remunerada à CBF. Seu filho Sebastien Valcke, trabalhou na Copa. Certamente já foi dispensado. Era consultor de marketing da CBF.

Também desmoralizado e na iminência de prisão, dois dias após sua eleição, renunciou ao cargo, Joseph Blatter, que foi o “mandão” durante 40 anos, dos quais 17 como o cartola mais poderoso do futebol mundial, a quem todos defendiam. Inclusive deputados federais brasileiros, que fazem parte da chamada “bancada da bola” na Câmara Federal.

Uso desonesto dos recursos obtidos pela FIFA, CBF, federações estaduais e muitos clubes, especialmente na venda de jogadores para o exterior, é coisa conhecida de longo tempo, exemplo, a venda do jogador Neymar para o Barcelona. Dirigentes do Santos, do Barcelona, Neymar e seu pai estão comprometidos com órgãos do imposto de renda nos dois países. Mas tudo foi sempre abafado pelo poder da corrupção e cobertura política. Poucos falando, sem repercussão. Entre eles, o jogador Romário que não economiza acusações à CBF e FIFA. Como senador da república pelo Rio de Janeiro, encabeça movimento para, numa CPI, revelar os verdadeiros responsáveis, causadores de mais uma mancha sobre o Brasil, desta vez, com manchetes mundiais, comentada até pelo presidente Barack Obama. O senador Romário é odiado por diretores de clubes, federações, CBF e FIFA e grandemente contestado por muitos deputados federais da “bancada da bola”.

Concluo este artigo afirmando. A cada jogo que estamos vendo na tv, trazendo imagem paga, propaganda de inúmeros produtos, placas promocionais a altíssimo preço, comprando bolas, camisas, bebidas, e material esportivo de toda ordem com as marcas adquiridas a preço de ouro, que vão para CBF, FIFA e seus diretores, estamos sendo cúmplices dessa situação corrupta? Estamos nos vendendo para as empresas, ajudando para que a prática continue suja?

Avaliemos a verdade mentirosa que colocaram em nossas cabeças, de que, quem tem amor à pátria, quem honra a bandeira nacional, quem é patriota, torce por este futebol sujo. Penso que todos nós devemos ser patriotas, como exemplos de cidadãos bem informados, bem educados, conscientes das nossas condições ridículas em saúde, educação, segurança, transporte e outros. O que vai melhorar para o país com nossa torcida nessa Copa América que se inicia e que é vendida pela FIFA e CBF, como patriotismo?

Vamos protestar contra o aumento das passagens, contra miséria, contra as enchentes que ocorrem por falta de infraestrutura. Vamos votar melhor, lutar contra a corrupção e ter consciência que o futebol, as diversas copas e decisões, acontecem exclusivamente por interesse financeiro que enriquece poucos.

Nesta Copa América, se os jogadores tivessem voz e liderança permitida para integrar as diretorias de clubes, CBF e FIFA, com certeza estariam com uma tarja preta na gloriosa camisa amarela, cobrindo as letras CBF.

Senão, continuaremos a cantar como na paródia da música “Que Bonito É”, de Luís Bandeira:

“Que bonito é, esquecer a roubalheira, pendurar uma bandeira e ver o Brasil jogar”.

(*) Barbosa Nunes é Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente do Brasil

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Editor Luiz Sergio Castro