Por Athaualpa Meirelles
Uma
reflexão necessária para a realidade maçônica brasileira
“Não entendo por que os irmãos estão deixando
minha Loja.”
Essa pergunta tem ecoado com frequência cada
vez maior nas Oficinas brasileiras — sejam elas jurisdicionadas ao Grande
Oriente do Brasil, às Grandes Lojas estaduais, COMAB ou outras obediências independentes
espalhadas pelo país.
A verdade é simples, ainda que desconfortável:
ninguém abandona uma Loja sem um motivo forte — especialmente depois de ter
sido iniciado. A Iniciação não é um ato banal. Ela envolve expectativa,
simbolismo, emoção e, sobretudo, esperança. Quando alguém parte, é porque algo
falhou.
E a primeira providência não é filosófica nem
burocrática. É humana: ligue para ele. Pergunte. Escute.
O
silêncio que fala alto
Muito do que acontece em uma Loja não aparece
nas atas. As verdadeiras impressões circulam no ágape fraternal, no
estacionamento antes da partida, nas conversas paralelas de WhatsApp.
Quando um terço — às vezes mais — dos irmãos
deixa de frequentar os trabalhos anualmente, não estamos diante de casos
isolados. Estamos diante de um sintoma coletivo.
Ignorar isso pode significar duas coisas:
1. Falta de interesse no destino da Oficina.
2. Ou, pior, sermos parte do problema.
Uma Loja é um conjunto de personalidades,
expectativas e ambições distintas. A harmonia permanente é uma ilusão
romântica. Ela pode existir por um tempo — até que disputas internas surjam,
especialmente nos períodos eleitorais.
Ambições, eleições e interferências
No contexto brasileiro, as eleições para Grão-Mestre
frequentemente se tornam momentos de tensão. Surgem candidatos com grupos de
apoio. Antigas rivalidades reaparecem. E, não raro, há influência de corpos
filosóficos — como o Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e
Aceito da Maçonaria.
Quando estruturas filosóficas passam a exercer
pressão indevida sobre os Graus Simbólicos, cria-se uma distorção. A Loja deixa
de ser soberana em suas decisões administrativas e passa a refletir interesses
externos.
Já houve, no Brasil, casos de Lojas que, após
conflitos internos e imposições consideradas abusivas, solicitaram carta
constitutiva a outra obediência. E conseguiram. O pluralismo maçônico
brasileiro — com dezenas de potências e centenas de Lojas independentes — torna
essa movimentação perfeitamente possível.
Hoje, o irmão insatisfeito não precisa
suportar. Ele migra.
O
perfil do novo maçom brasileiro
Após a pandemia de Covid-19, o perfil do
candidato mudou de forma perceptível.
Antigamente, muitos aceitavam longos períodos
de espera e progressão gradual. Hoje, a expectativa é mais imediata. O novo
iniciado chega com objetivos claros — e nem sempre são os que a Loja imagina.
Entre os motivos mais comuns:
Networking profissional
Oportunidades de negócios
Crescimento político
Inserção
social após mudança de cidade
Amizades
qualificadas
Busca
espiritual fora das religiões tradicionais
Interesse em simbolismo e esoterismo
Desejo
de uma experiência iniciática autêntica
O sistema federativo, as disputas entre
obediências, os conflitos de reconhecimento — isso interessa a uma minoria. A
maioria quer viver a experiência prometida.
Se essa expectativa não é atendida rapidamente,
o abandono é quase imediato. Muitos Aprendizes sequer completam o primeiro ano.
A espera até o Grau de Mestre, antes considerada natural, hoje é questionada.
O
erro da soberba hierárquica
Existe ainda um problema delicado: o
distanciamento entre lideranças e base.
Quando autoridades — sejam Conselheiros,
Inspetores, Delegados ou Oficiais — passam a tratar irmãos comuns como
insuficientes ou “sem espírito adequado”, esquecem que a responsabilidade pela
integração é da própria estrutura.
Com que direito se desqualifica aquele que
apenas buscava o que lhe foi prometido?
A Maçonaria não exige perfeição. Não é ordem
monástica. Não é convento. É escola de aperfeiçoamento humano.
Quando se exige santidade, perde-se humanidade.
A
falácia de “recrutar os melhores”
Houve Lojas brasileiras que tentaram se tornar
“elitistas”: só empresários, só autoridades públicas, só profissionais de alto
escalão.
Pergunta inevitável: melhores em relação a quê?
Virtude não é cargo.
Caráter não é função pública.
Sabedoria não é diploma.
Lojas construídas apenas sobre status social
raramente prosperam. Sem diversidade humana, não há verdadeira lapidação.
A nova
realidade: liberdade de escolha
O Brasil possui uma das maiores diversidades
maçônicas do mundo. Entre obediências regulares, independentes, Lojas mistas,
associações fraternas e corpos filosóficos, as opções são inúmeras.
A antiga “estratégia da cenoura” — prometer
graus, cargos ou reconhecimento — já não funciona.
Se o irmão não encontra propósito, ele parte.
E muitas vezes encontra mais felicidade em uma
associação fraterna menor do que em uma grande estrutura burocratizada.
E ninguém o impedirá.
Uma
verdade desconfortável
Frequentemente, são os melhores que saem.
Os sinceros.
Os que reagem.
Os que não aceitam incoerências.
Os fracos simplesmente desaparecem sem
explicação.
A vida já é suficientemente complexa fora do
Templo. Se a Loja se torna ambiente de tensão, politicagem ou frustração, o
irmão escolhe preservar sua paz.
O que
fazer?
1. Escutar antes de julgar.
2. Revisar práticas internas com humildade.
3. Separar simbolismo de vaidade.
4. Respeitar a soberania da Loja.
5. Entregar aquilo que se promete ao candidato.
Se a Loja promete fraternidade, que haja
fraternidade real.
Se promete crescimento moral, que haja estudo.
Se promete iniciação transformadora, que haja
vivência simbólica profunda — e não apenas formalidade ritualística.
Conclusão
Não podemos forçar ninguém a permanecer.
A Maçonaria brasileira vive um momento de
transição cultural. O irmão contemporâneo é mais autônomo, mais crítico e menos
disposto a suportar incoerências.
A pergunta correta talvez não seja:
“Por que estão indo embora?”
Mas sim:
“Estamos sendo, de fato, aquilo que afirmamos
ser?”
Se a resposta for sincera, a Loja se
fortalecerá.
Se for defensiva, o esvaziamento continuará.
E nenhum estatuto impedirá isso.


2 Comentários
Implacável!
ResponderExcluirPerfeita reflexão!
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