ANÁLISE (quase) MAÇÔNICA DO QUE POSTOU O "BATMAN"

Por José Maurício Guimarães

O Ex-Ministro do STF, Joaquim Barbosa, em posts publicados pelo site brasilpost.com.br (11 de março/2015, 2:43 AM) disse, ao ser entrevistado sobre a atual situação política brasileira:
"Vamos mudar de assunto? Que tal falarmos um pouco de História? Acho importante no momento atual. Farei três singelos posts, para reflexão."
E o "Batman" Barbosa (1) começou recordando a Revolução Francesa e a queda de regimes absolutistas:
"1) quem diria em maio de 1789 que aquele convescote (2) estranho  realizado em Versalhes iria desembocar na terrível revolução francesa?
"2) em 15/11/1889, nem mesmo o general Deodoro da Fonseca tinha em mente derrubar o regime imperial sob o qual o Brasil vivia. Aconteceu.
"3) nem o mais radical bolchevique imaginaria lá pelos idos de 1914 que a primeira guerra mundial facilitaria a queda do regime czarista da Rússia.
"Por que fiz esses 3 posts sobre História? Porque no Brasil pouca gente pensa nas 'voltas' e nas 'peças' que a História dá e aplica."


Fico tranquilo quando um homem da estatura de Joaquim Barbosa vem nos convidar a refletir sobre a História. Só espero que a ilustre plêiade de donos da verdade não torça o nariz para o Ex-Ministro. Nem usem o obtuso argumento de as pessoas não gostam de ler, ou que História é para museu. Guardem seus rancores apenas para mim, que sou um modesto escriba não remunerado e sem rabo-preso.

Nosso país e nossas instituições precisam voltar o olhar crítico para o passado recente, a fim de que não caiamos duas, três ou quatro vezes no mesmo buraco. Tanto a República quanto a Ordem Maçônica (pois esta é uma amostragem daquela) andaram juntas durante mais de 120 anos, sofrendo ambas (e entre si) dissensões e rupturas dramáticas, apesar das relevantes conquistas (juntas e/ou separadas) no campo político e social. No últimos doze anos, entretanto, os limites entre a boa política e a Maçonaria tornaram-se difusos apesar das toneladas de fotografias que desperdiçamos.

Permitam-me, apesar de tudo, exercer a audácia de comentar as palavras do eminente jurista Joaquim Barbosa, dito o "Batman".

A queda do regime czarista na Rússia (lá pelos idos de 1914), apesar de ter desembocado no brutal stalinismo, teve a virtude de derrubar a monarquia da família Romanov. As Monarquias podem ser lindas nas fotografias e eventos coloridos, nas carruagens escoltadas por vassalos e poses fictícias, mas o poder permanece restrito a um grupo ungido pelos deuses: entre os pais e os filhos, sobrinhos, irmãos, tios, cunhadas, afilhados, o papagaio, o gato e a matilha de cachorros do palácio. É a maldição da ordem sucessória, irracional e antidemocrático.

O stalinismo foi pior ‒ é verdade, pois instituiu a ditadura burocrática do partido único onde funcionários analfabetos cortavam as cabeças dos que pensavam com a própria cabeça ‒ reescreviam a história e a verdade, perseguiam as religiões e sociedades iniciáticas, promoviam a militarização da sociedade com intensa propaganda estatal e o culto à personalidade dos líderes, eliminando quaisquer formas de oposição. Os meios de produção agrícola e industrial foram obrigatoriamente coletivização e os processos de tomada de decisão centralizados; foram censurados os meios de comunicação e expressão, etc.

Os que conhecem alguma coisa parecida, por favor, permaneçam como estão....... Aprovado!
Joaquim Barbosa lembra-nos a história de nosso Irmão, o general maçom e "poderoso" Deodoro da Fonseca, que talvez nem pensasse em derrubar o regime imperial... mas aconteceu. A "república maçônica", no entanto, não cheirava bem para os maçons que insistiam em prosseguir pensando com a própria cabeça: poucos sabem, por exemplo, que os maçons José do Patrocínio (jornalista e abolicionista) e Carlos Gomes (compositor) foram vítimas da retaliação maçônico-republicana. José do Patrocínio, logo após a abolição, manifestou gratidão à Princesa Isabel e ficou "marcado" pelo marechal (também maçom) Floriano Peixoto, que o deportou para Cucuí, no alto Rio Negro. Para o longínquo norte também foi "enviado" o genial Carlos Gomes, que recusou compor um hino para a República. Teve suspensa sua nomeação para o cargo de Diretor do Conservatório de Música do Rio de Janeiro, sendo despedido para o Pará sob o governo e vigilância de Lauro Sodré, também maçom (3).

Joaquim Barbosa cita ainda o estranho convescote realizado em Versalhes que desembocou na Revolução Francesa, tornada terrível ‒ digo eu ‒ mesmo sendo obra de Irmãos maçons: Georges Jacques Danton, procurador da Comuna, Ministro da Justiça e deputado, foi iniciado na mesma Loja que Voltaire - Les Neuf Soeurs de Paris. Jean Paul Marat, médico e jacobino extremista, conheceu a Ordem na Inglaterra e alcançou o Grau de Mestre em 1774 na Loja King Head. Maximilien Robespierre frequentava os meios acadêmicos na qualidade de membro da Loja Hesdin do Pas-de-Calais em Arras. E o jornalista e advogado Camille Desmoulins tornou-se maçom em 1776 na Loja Des Maîtres de Amiens.

E guilhotinaram-se mutuamente.

Os que conhecem alguma coisa parecida, por favor, permaneçam como estão....... Aprovado!
E viva a república! E viva a democracia!

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
(1) O Ministro ficou conhecido pelo apelido de Batman, nas redes sociais, em 2012, devido à sede dos brasileiros por justiça e ao fantasma das pizzas. A imprensa reforçou a ideia do super-herói no artigo "A disparada de Joaquim Barbosa, o Batman brasileiro", http://exame.abril.com.br/ 03/10/2012.
(2) Convescote quer dizer piquenique; Joaquim Barbosa usa de evidente ironia para com as assembleias cujo objetivo é difuso e confuso, estando os participantes de olho apenas no turismo e na comilança e bebidas que serão desfrutadas "com moderação" e "socialmente".
(3) Os episódios em questão estão descritos no meu livro "Grande Loja Maçônica De Minas Gerais-História, Fundamentos e Formação", nas páginas 94 e seguintes.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - -


Postar um comentário

0 Comentários