3 DE MAIO: DIA DO SERTANEJO

*Por Barbosa Nunes
A partir de 1960, violeiros seguiam sempre em romaria à Aparecida, São Paulo, para assistir missas. Quatro anos mais tarde, Geraldo Meireles, o "Marechal da Música Sertaneja", propôs que passassem a se encontrar todo ano em uma mesma data, visando instituir  o "Dia do Sertanejo". Naquela oportunidade levou a dupla Tonico e Tinoco, para se apresentar. Desde então a data ficou registrada, como Dia do Sertanejo. É comemorada devido ao gênero musical. Homenagens são realizadas ao povo sertanejo anualmente em Aparecida. Leia mais

Sertanejo é o que habita o sertão, região agreste, distante das povoações ou das terras cultivadas, terreno longe do litoral e pouco povoada, em especial da caatinga, onde a difícil criação de gado prevalece sobre a agricultura. Do sertanejo disse Euclides da Cunha em "Os Sertões". "É antes de tudo um forte". O maçom e Rei do Baião, Luiz Gonzaga, alma do nordestino, cantou: "Eu vou falar desse povo, que não faz mal a ninguém. O sertanejo do norte que de pau de arara vem. Desprotegido da sorte, sou pau de arara também". Escreveu e marcou eternamente com a sua voz o hino da música nordestina: "Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João. Eu perguntei a Deus do céu, ai, por que tamanha judiação. Que braseiro, que fornalha. Nem um pé de plantação. Por falta d'água perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. Até mesmo a asa branca, bateu asas do sertão". Gravo neste dia, minhas homenagens ao sertanejo nordestino, falando agora do sertanejo do interior do Brasil, do povo caipira, da área que abrange o interior de São Paulo, estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás.
Este sertanejo descrito por Monteiro Lobato como "Jeca Tatu", gerou obras no cinema e na literatura. Sua caricatura passou a ser utilizada em anedotas e mesmo nas histórias infantis, como o personagem "Chico Bento", de Maurício de Souza.
Nos tempos atuais houve uma inversão de valores. Hoje ser caipira é "chique". Figura altamente valorizada, através do sucesso de música de raiz, que canta as belezas da zona rural, da natureza e da vida nas fazendas. Embora os mais modernos tenham abandonado os temas de vida na roça, passando para as baladas de amor, vida urbana e suas tragédias.
A economia brasileira é impulsionada pelo alto volume financeiro gerado pela música sertaneja. Na confecção de roupas denominadas country, adquiridas e usadas pelos jovens que frequentam em massa as danceterias em épocas das festas de rodeio, em todas as cidades brasileiras, pequenos povoados e zona rural. Atualmente a Festa de Peão de Boiadeiro de Barretos, em São Paulo, é o maior evento do tipo na América Latina e um dos maiores do mundo. Soma-se os grande shows que lotam estádios, gravadoras produzindo CDs e DVDs, com os artistas presentes em campanhas comerciais milionárias.
Mas tudo começou a partir da década de 1910, por compositores rurais e urbanos, com as modas, toadas, cateretês e predomínio do som da viola.
A música sertaneja como se conhece hoje, surgiu em 1929, a partir de gravações feitas pelo jornalista e escritor Cornélio Pires, em época que o gênero era conhecido como música caipira. Cornélio Pires era folclorista, conheceu a música caipira no seu estado original, nas fazendas do interior do Estado de São Paulo e assim a descreveu em seu livro "Conversas ao pé do Fogo": "Sua música se caracteriza por letras românticas, por um canto triste que comove e lembra a senzala e a tapera, mas sua dança é alegre". Escreveu também o livro "Sambas e Cateretês", quando recolheu e registrou letras de músicas cantadas nas fazendas do interior paulista no início do século XX, antes de existir a música caipira comercial e gravada em discos. Sem este livro estas composições teriam caído no esquecimento.
Entre as duplas pioneiras estão destacadas nas gravações em disco vinil "Zico Dias e Ferrinho", "Laureano e Soares", "Mandi e Sorocaba" e "Mariano e Caçula", que abordaram temas ligados ao cotidiano daquele tempo, como "A Revolução Getúlio Vargas" e "A morte de João Pessoa", gravadas em 1930 e "A Crise" e "A Carestia",  gravadas em 1934. Os "causos" foram a fonte de Cornélio Pires, buscados no interior Paulista, Sul e Triângulo Mineiro, Sudeste Goiano e Matogrossense. Formou um grupo denominado "Turma Caipira", destacando-se nessa tendência, mesmo gravando em época posterior, Alvarenga e Ranchinho, Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco,  Vieira e Vieirinha, entre outros. A música raiz é guardada pelos corações saudosos, via base única de divulgação na televisão, por Inezita Barroso, no seu programa "Viola minha viola".
Uma denominada segunda era, iniciada após a Segunda Guerra Mundial, destaca Cascatinha e Inhana, Sulino e Marrueiro, Palmeira e Biá, Luizinho Limeira e Zezinha, José Fortuna, adaptador da guarânia no Brasil, Tião Carreiro e Pardinho, Pena Branca e Xavantinho e ao longo da década de 1970, Milionário e José Rico, usando elementos da tradição mexicana mariachi.
Na chamada terceira era, veio a exploração comercial massificada, com linha romântica, quase sempre em duplas, entre as quais Trio Parada Dura, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo, Zezé Di Camargo e Luciano, Chrystian & Ralf, João Paulo e Daniel, Chico Rey e Paraná, João Mineiro e Marciano, Gian e Giovani, Rick e Renner, Gilberto e Gilmar, Nalva Aguiar, Roberta Miranda e Almir Sater, violeiro muito apreciado.
Com certeza, dado ao número de milhares de composições sertanejas, algumas estão por mim esquecidas, outras lembradas pelo amigo leitor e leitora. Emociono-me ao ouvir Mágoas de Boiadeiro, Estrada da Vida, Moreninha Linda, Meu Primeiro Amor, Romaria, Flor de Cafezal, Pingo d'água, Calix Bento, Um Violeiro Toca, Majestade o Sabiá, Saudade de Minha Terra, Rio de Lágrimas, Fio de Cabelo, Pense em Mim, É o Amor, Chalana, India, Boi Soberano, Cana Verde, Chico Mineiro, Ferreirinha, Menino da Porteira, Pagode em Brasília, Moda da Mula Preta, Marvada Pinga, Luar do Sertão, Tristeza do Jeca, Beijinho Doce, Boate Azul, As Andorinhas, Cabelo Loiro, 60 Dias Apaixonado, Baile na Roça, Cabecinha no Ombro, Sorriso Mudo, Boneca Cobiçada, Colcha de Retalhos, Ainda Ontem Chorei de Saudade, Franguinho na Panela, Telefone Mudo.  Estas e tantas outras estão no coração, na alma do brasileiro e em todas as festas simples, comuns, chiques e boates de alto luxo.
Em conclusão, registro a dupla mais avançada, mais moderna, introdutora da guitarra no gênero sertanejo, revolucionária com os seus cabelos longos, que causou espanto. Ponto de passagem para um novo estilo na música sertaneja, Léo Canhoto e Robertinho. O primeiro de São Paulo e o segundo goiano de Água Limpa. Léo Canhoto, poeta, grande compositor, produziu uma página cristã, imorredoura e que conclama o homem para uma meditação muito séria. Música sempre presente nas igrejas e nas missas sertanejas: "O último julgamento".
“Senta aqui neste banco, Pertinho de mim Vamos conversar. Será que você tem coragem, De olhar nos meus olhos, E me encarar. Agora chegou sua hora, Chegou sua vez, Você vai me pagar. Eu sou a própria verdade, Chegou o momento, Eu vou te julgar. Pedi pra você não matar, Nem pra roubar, Roubou e matou. Pedi pra você agasalhar, A quem tinha frio, Você não agasalhou. Pedi pra você não levantar falso Testemunho, Você levantou. A vida de muitos coitados você Destruiu, Você arrasou.
Meu pai te deu inteligência, Para salvar vidas, Você não salvou. Em vez de curar os enfermos, Armas nucleares você fabricou, Usando sua capacidade. Você destruiu, você se condenou, A sua ganância foi tanta, Que a você mesmo você exterminou. O avião que você inventou, Foi para levar paz e a esperança, Não pra matar seu irmão, E nem para jogar bomba nas Minhas crianças.
Foi você que causou essa guerra, Destruiu a terra de seus ancestrais. Você é chamado de homem, Mas é o pior dos animais. Agora que está, Acabado pra sempre, Vou ver se você é culpado, Ou inocente. Você é um monstro, Covarde e profano, É um grão de areia, Frente ao oceano. Se o ouro falou alto, Você tudo comprou, Pisou nos mandamentos, Que a lei santa ensinou. A mim você não compra, Com o dinheiro seu, Eu sou Jesus Cristo, o filho de Deus.”
*Barbosa Nunes, advogado, ex-radialista, membro da AGI, delegado de polícia aposentado, professor e maçom do Grande Oriente do Brasil -barbosanunes@terra.com.br.
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Editor Luiz Sergio Castro