Quando os princípios tornam um estadista patrimônio da humanidade

CULTURA
Lincoln”, da historiadora norte-americana Doris Goodwin, traça a trajetória política de Abraham Lincoln, um dos mais importantes estadistas de todos os tempos, e faz um relato detalhado sobre a Guerra Civil americana e seus principais personagens
Abraham Lincoln, presidente norte-americano no
século 19. Liderou o país durante a maior crise
de sua história: a Guerra de Secessão
Por Salatiel Soares Correia
Fonte: Jornal Opção
Atente para seguinte história que nos conta, por meio de seus escritos, uma reconhecida historiadora norte-americana: no ano de 1908, numa distante e remota área do Cáucaso, isolada do mundo civilizado, o maior escritor da época — Liev Tolstói — era o ilustre convidado de um chefe tribal que habitava as montanhas daquele longínquo e distante local.
Solicitado por esse chefe, Tolstói se pôs a contar histórias dos grandes homens da história. Falou de Alexandre, César, Frederico, o Grande, e Napoleão. Quando acabou sua narrativa, o chefe tribal fez ao grande escritor russo a seguinte indagação: “Mas você não nos contou nada sobre o maior general e governante do mundo. Queremos ouvir alguma coisa. Ele foi um herói. Falava com a voz do trovão, ria como o amanhecer e seus feitos tinham a força das rochas. [...] seu nome era Lincoln e a terra em que viveu chama-se América, uma terra tão distante que, se um rapaz saísse a pé para viajar até lá, ele estaria velho ao chegar. Fale-nos desse homem”. “Olhei para eles”, retrucou Tolstói, “e vi que aqueles toscos bárbaros realmente estavam interessados num homem cujo nome e cujos feitos já tinham se tornado lendários”. Leia mais
Passados mais de 100 anos da constatação de Tolstói e quase 150 do trágico assassinato de Abraham Lincoln, o julgamento da história o colocou no justo patamar onde ele está e certamente permanecerá: o de patrimônio não só dos norte-americanos, mas de toda a humanidade. “Ele foi incontestavelmente o maior homem que conheci”, assim deu seu testemunho quem com ele diretamente conviveu: o general Ulysses Grant, herói da Guerra de Secessão.


O que fez Lincoln para ser considerado, hoje, uma unanimidade em seu país? Por que ele tem raízes tão profundas fincadas no coração dos norte-americanos? Por que esse estadista é considerado, atualmente, não só um patrimônio de seus conterrâneos, mas de toda a humanidade? E mais: que fatores contribuíram para que um modesto advogado de Springfield (Illinois) que lá chegou jovem e sem nenhum pertence, além de “alforges com poucas roupas”, ascendesse a tão alto patamar na vida política norte-americana? Certa­mente, não foi o acaso. Lincoln per­correu um longo caminho des­tinado a homens muito diferenciados e capazes de reu­nirem várias e raras ha­bilidades em torno de si.



A autora da recente e empolgante biografia do presidente dos Estados Uni­dos elenca algumas dessas habilidades em seus es­critos: era ele capaz de fazer do oponente um amigo e isso re­mediava sentimentos feridos que poderiam se transformar em ressentimentos; assumia responsabilidades pe­los fracassos dos subordinados, bem como com­partilhava o sucesso com colaboradores; aprendia com os próprios erros, sem nunca per­der a fé em si mesmo. A estas habilidades, acrescento a nobre capacidade de perdoar em nome dos interesses da nação. Fez isso no momento em que, no comando do Norte antiescravagista vitorioso na Guerra Civil, perdoou o Sul es­cra­vagista para que assim se construísse num novo futuro para a nação, alicerçado nos prin­cípios da igualdade e da liberdade.



Certamente, objetivando responder a questões dessa natureza que uma apaixonante biografia do líder norte-americano foi escrita. Aliás, trata-se de uma biografia resultante de uma minuciosa pesquisa, que foi muito bem-recebida pela crítica. Vejamos o que diz a imprensa especializada. Para o “New York Times”, trata-se de “um estudo elegante e preciso”. No mesmo tom, concorda outro influente jornal norte-americano, o “Los Angeles Times”. Para o qual, trata-se do “mais rico e detalhado relato sobre a Guerra Civil americana”. Um livro simplesmente “envolvente”, é o que declara o “The Wall Street Journal”. Tão envolvente que o premiado cineasta Ste­ven Spielberg a traduziu em um belo filme. A pesquisa tomou cerca de 10 anos da respeitada e premiada historiadora norte-americana Doris Goodwin, que nos brindou com uma inegável obra de fôlego intelectual. Falemos um pouco dela para, em seguida, mergulharmos um pouco mais na essência de sua obra. (Vale esclarecer que a edição brasileira é uma versão resumida.)



Doris Goodwin é uma reconhecida e premiada historiadora norte-americana. Doris, Ph.D. pela universidade Harvard, da qual tornou-se, anos mais tarde, professora. Trabalhou no governo do presidente Lyndon Johnson, ocasião em que publicou seu primeiro livro a respeito do presidente (“Lyndon Johnson e o Sonho Americano”). Produ­ziu outras grandes obras. Em razão de uma delas, foi laureada, em 1995, com o prestigiado Prê­mio Pulitzer. O livro em questão tinha como tema o casal público mais famoso da política dos Estados Unidos: Franklin e Eleanor Roosevelt (“Tempos Muito Estranhos – Franklin e Eleanor Roosevelt: o Front da Casa Branca na Segunda Guerra Mundial”). Doris possui escritos reconhecidos pela crítica a respeito de outro presidente de atuação marcante na política dos Estados Unidos: John Kennedy (“Os Fitzgerald e os Kennedys”).

A arte de transformar adversários em aliados


O caminho de Abraham Lin­coln rumo ao patamar de grande líder da nação americana teve adversários à altura. Três outros grandes homens de Estado competiram diretamente com ele pela indicação do Partido Republicano à Presidência da República: Wil­liam Henry Seward, Salmon Chase e Edward Bates. Todos eles eram conhecidos e respeitados como homens públicos em todo o país. Seward, um célebre senador por Nova York, já tinha governado seu Estado por duas vezes; Chase, de Ohio, já tinha sido governador, além de ter desempenhado papel fundamental na constituição do Partido Re­pu­blicano; Bates destacava-se não apenas como homem público, mas, so­bre­tudo, por ter sido um dos mais relevantes delegados que elaborou a constituição do Estado de Mis­souri. Seu nome sempre foi lembrado quando se tratava de emitir opiniões a respeito dos interesses do país. Lincoln era o nome mais desconhecido entre os três pretensos candidatos à indicação do partido à Pre­sidência da República.



Seward, Chase e Bates, embora adversários entre si, tinham, no entanto, dois pontos em comum: eram legítimos homens de Estado. Além disso, tiveram mulheres extraordinárias em suas vidas, as quais marcaram presença bastante ativa na vida de cada um deles.



Doris Goodwin revela que Mary, mulher de Lincoln, marcou sua presença não só pela inteligência, mas também pela ambição poderosa e o constante apoio nos mo­mentos difíceis que o marido viria a enfrentar; Frances, mulher de Seward, era a consciência social do senador; Kate, filha de Chase, transformou em sua a verdadeira am­bição do pai de ser presidente; Ju­lia, mulher de Bates, tornou a vi­da do marido acolhedora e feliz, fa­to que foi atenuando cada vez mais as ambições de Bates pela po­lítica. Bates acabou sendo o terceiro em uma disputa que verdadeiramente deveria se travar entre os favoritos Seward e Bates. Mas não foi bem assim que de fato ocorreu.



Embora Chase fosse também um homem de Estado, Seward era mais habilidoso politicamente que o ex-governador de Ohio. Apon­ta-nos, a autora, como fatos que se tornaram empecilhos à vitória de Chase as divisões dentro de sua própria base eleitoral e a rejeição de uma parcela do poderoso eleitorado de origem germânica. Com isso, a vitoria de Seward era tida como certa. Consciente de sua evidente desvantagem, Lincoln trabalhou discretamente seu nome como segunda opção aos outros candidatos. Não depreciou ne­nhum deles, assim, evitando criar confrontos. Teve a paciência de esperar o momento certo, que veio posteriormente a ocorrer: o desgaste em andamento entre os candidatos mais representativos.



Na luta pela indicação do partido, o desconhecido senador estadual pelo Estado de Illinois contou com ajuda de abnegados colaboradores que trabalharam entusiasticamente, “principalmente por amor ao homem, à sua elevada ética, à sua moralidade política imaculada”. Doris Goodwin aponta que a ida de vários colaboradores de Lincoln a diversos Estados americanos com a missão específica de convencer os delegados na convenção que ocorreria em Chicago viria a surtir resultados. Estados representativos como Indiana, Illinois, Nova Jersey e a Pensilvânia tornaram possível o que, até então, parecia ser algo impossível de acontecer: a indicação de Lincoln para concorrer na convenção.
Vale ressaltar que, durante esse processo em que se tornaram necessários fazer acordos, já se notava a maneira grandiosa como o senador estadual de Illinois consolidaria seu estilo de fazer política. “Não me faça nenhum acordo que me deixe atrelado”, orientava a seus liderados. Para conquistar o apoio de um Estado não aliado, a Pensilvânia, Lincoln orientou os delegados do Estado da seguinte forma: “Eles seriam colocados em pé de igualdade, como se sempre tivessem sido seus amigos”. Não perseguir adversários, certamente, foi uma das marcas que começavam a delinear-se no modo de fazer política do grande líder.



Falemos da convenção que indicou Lincoln. Os resultados, no primeiro escrutínio, retrataram a vantagem de Seward (173,5), o que ninguém esperava era o segundo lugar para o senador de Illinois (102) e a pouca diferença que separou Chase (49) de Bates (48). O jogo virou, logo, dando con­siderável visibilidade a Lincoln.



Com Bates e Chase fora do páreo, no segundo escrutínio, Seward e Lincoln eram então os reais competidores. Grande parte do eleitorado de Chase sufragou o nome de Lincoln, o que resultou num segundo escrutínio praticamente empatado. Apenas 3,5 pontos separaram um candidato do outro (Seward 184,5; Lincoln 181). Veio, então, o terceiro escrutínio. Estados representativos como a Pensilvânia, Ohio e Massachu­ssetes transferiram mais votos para o não mais obscuro senador estadual de Illinois. Contando com o apoio a mais dos eleitores de Chase, aconteceu aquilo que parecia ser impossível: Lincoln venceu a convenção. E, assim, torna-se de fato o candidato do Partido Repu­blicano à Presidência da Repú­blica. Doris Go­odwin descreve aquele mo­men­to de decepção dos derrotados: “Para os seguidores de Seward, a derrota foi devastadora. ‘Homens adultos choravam feito meninos’, observou um nova-iorquino, ‘semblantes fatigados, pálidos e envelhecidos, como se dez anos tivessem passado naquela única noite de luta intensa’”.



Lincoln, então, era o candidato do Partido Republicano à Presi­dência dos Estados Unidos. Uma indicação a qual o país não esperava, muito menos a imprensa, que procurou, no primeiro mo­mento, tripudiar da escolha. “Tra­ta-se de um advogado de terceira categoria do oeste”, dizia o “Herald Tri­bune”. Não satisfeitos em desdenhar do intelecto do candidato, os jornais passaram a criticar a sua aparência física. Quanto a isso, declarava, o mes­mo jornal: “Lin­coln é a massa mais desconjurada, magricela e esquálida de pernas, braços e rosto anguloso que já se reuniu num único corpo. Ele abusou de maneira injustificável do privilégio da feiúra, concedido a todos os políticos”.



No entanto um estadista não se constrói com atributos físicos, mas com atitudes em prol do bem comum. E isso o marido da bela Mary Lincoln tinha de sobra. Paciência, sagacidade, generosidade para com os derrotados e uma imensa capacidade de comandar o processo político eram os atributos mais evidentes do futuro presidente dos Estados Unidos.



Durante o processo em que foram estabelecidas as articulações, recebia a todos com amabilidade. Com o tempo, a imprensa foi percebendo sinceridade no seu modo de ser e passou a emitir opiniões favoráveis ao candidato republicano. “Sempre com boa aparência, ele jamais acompanha a moda; não é vaidoso, mas não é desleixado [...] sua alimentação é modesta e nutritiva. Nunca ingere bebida alcoólica de espécie alguma [...] não é viciado em tabaco [...] se eleito presidente, o senhor Lincoln não levará mais que uns poucos adornos para a Casa Branca. O país deve aceitar sua sinceridade, sua capacidade e sua honestidade do jeito que são.”



Com estilo conciliador e com sua capacidade de não carregar ódio, sabendo reconhecer qualidades nos homens que foram seus adversários, Lincoln impôs sua liderança pelo carisma; e não pelo autoritarismo. As qualidades pessoais distinguiam cada vez mais a figura de Lincoln na cena política norte-americana. Ao derrotar o democrata Stephen Douglas,  Lincoln assumia o co­mando de uma das mais poderosas nações do mundo. Seus principais auxiliares viriam a ser exatamente os políticos que tinha derrotado no Partido Republicano: ao senador por Nova York William Seward caberia o importante cargo de secretário de Estado; o governador de Ohio, Salmon Chase, seria o secretário do Tesouro; e o estadista do Missouri, Edward Bates, tornar-se-ia o secretário da Justiça. Com esse gabinete, o presidente Abraham Lincoln viria a liderar os Estados Unidos no mais sangrento conflito de sua história: a Guerra Civil em torno dos dois maiores princípios que nortearam os anos Lincoln na Casa Branca: igualdade e liberdade.



O gabinete e a fogueira de vaidades



A formação do gabinete de colaboradores do presidente Lincoln constituiu-se, de fato, na junção do primeiro time de estadistas, os quais eram políticos co­nhecidos e reconhecidos pela pátria — antes seus adversários — que a generosidade do presidente, no poder,  cooptou para seu go­verno. Estadistas reconhecem qualidades de estadistas, mesmo em se tratando de adversários. Lincoln, embora vitorioso, ainda, era desconhecido quanto às suas habilidades referentes ao comando do sistema político de seu país.



Lidar com estrelas reunidas num espaço só, requeria enfrentar vaidades pessoais. Gente é gente em todo o lugar. Chase considerava Smith (colaborador do governo) “uma nulidade” e o próprio Lincoln como seu inferior. Para ele, Bates era um “advogado medíocre”. Seward enfureceu-se com Bates e Chase quando estes insistiram em nomeações em seu território. Além disso, um sentimento comum nutria os colaboradores de Lincoln pela proeminente posição de Seward no gabinete. “Ficavam irritados por ser ele quem convocava as sessões do gabinete; e o tempo que passava com Lincoln causava inveja.”



A temperatura elevou-se ante a iminência da guerra e a crescente influência de Seward no governo. Essa impressão se mostrava mais evidente no momento em que o futuro secretário de Estado conseguiu que Lincoln abrandasse o tom em torno de um conflito que tinha sido gestado pelo governo anterior: o da invasão do Forte Sunter. Estavam, naquele momento, prestes a arrefecerem-se as já crescentes animosidades entre o Norte antiescravagista e o Sul escravagista. Tinha-se a impressão de que Lincoln não estava à altura do cargo. “Os unionistas contam com o senhor e apenas com o senhor, como membro do gabinete, para salvar o país”, expressava-se assim um admirador do secretário de Estado. Para muitos, Lincoln dava atenção demais à distribuição de cargos, mas pouca atenção “às ideias importantes”. Ledo engano. A habilidade política do presidente o levou a não fazer o que lhe aconselhava o experiente secretário de Estado. Cortou os suprimentos para o forte. Assim descreve a autora a visão mais aguçada de Lincoln que a de seu secretário de Estado: “Com isso, o presidente manteve-se coerente com seu discurso de posse de que manteria as propriedades do governo ‘mais  além do que fosse o necessário’, para tanto ‘não haverá invasão nem uso da força’”. Assim, continua ela, “se Lincoln tivesse optado por abandonar o forte, teria descumprido sua promessa ao Norte. Se tivesse usado a força, com qualquer objetivo que não fosse ‘manter’ propriedades do governo, teria descumprido sua promessa com o Sul”. Um chefe de Estado governa não para as partes, mas para o todo cons­tituído da nação. E a nação estava, naquele momento, completamente dividida em torno de uma causa. Lincoln estava sim no co­man­do do sistema político. A eclosão da Guerra Civil viria a evidenciar o estilo de ser de um grande es­ta­dista: manter a calma ante as turbulências, esperando o momento certo de agir em nome do interesse nacional; firmeza nos momentos certos e capacidade de cultivar sentimentos nobres e transportá-los para a ação política seriam algumas das qualidades que viria a mostrar Abraham Lincoln no momento mais doloroso pelo qual passaram os Estados Unidos em toda a sua história: a Guerra de Secessão. É dela que falaremos a seguir.




O líder de um país em guerra civil


A Guerra Civil Americana em torno da causa escravagista foi sem dúvida o mais sofrido acontecimento da história dos Estados Unidos. Uma guerra que, a princípio, imaginava-se curta acabou prolongando-se por longos quatro anos. Se computarmos todas as guerras em que se envolveram os Estados Unidos, da Guerra da Independência até a do Iraque, a Guerra Civil — só ela — foi consideravelmente mais representativa na vida dos norte-americanos.



Quase todas as famílias tiveram as vidas de seus filhos ceifadas por esse conflito. Morreram mais de 600 mil pessoas, num país que tinha, na época, 31,5 milhões de habitantes. Doris Goodwin relata em seus escritos que, se comparada à população atual do país, é como se tivessem morrido 5 milhões de norte-americanos. Quase a metade da população do Chile.



O governo Lincoln vivenciou por completo esses terríveis anos em que norte-americanos matavam norte-americanos em torno de uma causa comum: a escravidão. São nos momentos de turbulências como esse, quando não se sabe que rumo seguir, que aparecem as qualidades do estadista. Sob seus ombros e sua responsabilidade que decisões são tomadas.



É a partir daí que, com foco nas qualidades de Abraham Lincoln, intencionamos delinear as ações e decisões tomadas em momentos muito difíceis para a nação. Pro­cu­ra­mos nestes escritos responder ao por­quê de Lincoln constituir-se não só em um patrimônio dos norte-americanos, mas de toda a humanidade.



Posto isso, os escritos que se seguem intencionam evidenciar alguns momentos de grande instabilidade na política americana num contexto de guerra. Mo­mentos em que, ao comando do país, exigia-se a grandeza de um estadista. Lincoln veio a ser esse nome. O homem certo, no lugar certo e para o momento certo.



Momentos que exigiam a visão de um líder detentor de autoconfiança, ponderação e a necessária firmeza para iluminar caminhos incertos. Uma dessas situações veio a manifestar-se no tocante a uma crise com a In­glaterra, que certamente teria se concretizado de modo drástico não fosse a habilidade política do chefe da nação. Caso tivesse o presidente dado vazão à impetuosidade de seu secretário de Estado, Seward, possivelmente, a Guerra Civil teria tomado rumos mais trágicos ante a vontade da Inglaterra de entrar no conflito apoiando o Sul escravagista, que produzia produtos primários — como o algodão — indispensáveis para sua indústria.



A ira de Seward com a petulância inglesa levou o secretário de Estado a entregar a minuta de uma carta que seria enviada ao governo inglês, a carta fora redigida rispidamente e manifestava a insatisfação dos Estados Unidos com a intromissão de outro país em assuntos domésticos.



O momento exigia ao mesmo tempo prudência e firmeza de posição. Enxergando aonde a situação poderia levar o país, Lincoln conteve a fúria do secretário, mas não deixou de mostrar com firmeza qual seria a posição de seu país caso a situação viesse a persistir. Resultado: o conteúdo da carta foi alterado, mas mantendo a firmeza que a situação exigia.
Assim, onde Seward manifestava que “o presidente estava sur­preso e desgostoso”, a ponderação de Lincoln amenizou para “o presidente lamenta”. Onde Se­ward ameaçava que “não seria tolerada nenhuma dessas medidas [reconhecimento informal ou formal, ou ainda rompimento do bloqueio]”, Lincoln mudou para “nenhuma dessas medidas passará despercebida”. O presidente deixou ainda bem claro qual seria a posição do país caso a Inglaterra insistisse, visando aos seus interesses econômicos, em se aliar ao Sul escravagista. Ciente disso, Lincoln explicitou que, se persistisse tal situação, “poderia resultar” numa guerra causada “pelos atos da Grã-Bretanha, não por nossos próprios atos”, e, assim, a mão invisível de Lincoln moldou um posicionamento crítico que poderia resultar num enorme conflito internacional.



O presidente foi duro sem ser ríspido. O secretário de Estado co­me­çava, naquele momento, a perceber as qualidades do líder da nação norte-americana. Expressou essa ad­miração ao emitir o seguinte co­mentário à mulher: “Sua autoconfiança e solidariedade [de Lincoln] aumenta a cada dia [...] o vigor e a habilidade executiva são qualidades raras. O presidente é o me­lhor de nós; mas ele precisa de co­operação constante e assídua”. Era o início de uma grande amizade entre dois homens de Es­ta­do que outrora foram adversários e que se admiravam mutuamente.



Lincoln evidenciou em vários momentos da guerra suas qualidades de grande estrategista, assumindo para si a responsabilidade de direcionar o exército e seus generais. Um desses momentos se deu logo no início de uma guerra que até então se imaginava que duraria pouco. O avanço das tropas sulistas até as imediações da capital Washington mostrou ser essa hipótese uma inverdade, vez que o conflito se estendeu durante os anos em que o ex-senador de Illinois presidiu o país.



Nessa ocasião, a progressão das tropas sulistas elevou consideravelmente as incertezas quanto aos rumos que se deveria seguir. Agi­gantou-se, assim, a figura do chefe da nação, que tomou para si a responsabilidade de conceber a estratégia composta de três avanços que evitariam a tomada da capital pelos rebeldes: enfrentamento em Mo­nas­sas, cidade do Estado da Virginia; descida pelo Rio Mississippi rumo a Memphis, no Estado do Tennessee; e ofensiva de Cincinnati, no Estado de Ohio, para o leste do Tennessee.



Walt Whitman, notável poeta norte-americano da Revolução, refletiu em seus escritos o grande feito: “Se na história não houvesse mais nada com que pudesse rotular Abraham Lincoln, já seria suficiente para consagrá-lo à memória para sempre o fato de ele ter resistido àquela hora, àquele dia, mais amargo que fel — de fato um dia de crucificação —, de não ter deixado abater-se por ele, de ter feito frente àquela vicissitude sem hesitar e de ter decidido erguer a si mesmo e à União, deixando aquele momento para trás”. Viriam muitos outros momentos que consolidariam o merecido lugar no qual Abraham Lincoln se encontra até hoje: o coração do povo norte-americano e de muitos outros povos pelo mundo afora.



Lincoln é considerado patrimônio da humanidade pelos valores universais que sua liderança defendeu e procurou transformar em ação política nos tempos em que ele comandou os Estados Unidos da América.



Sua liderança centrou-se na defesa de princípios universais dos quais viriam a sobressair-se a defesa da liberdade e da igualdade entre os norte-americanos. Para atingir esse fim, lutou sempre com serenidade e extrema confiança em si mesmo, condições tão necessárias para conduzir a nação em tempos tão difíceis como foram aqueles da Guerra de Secessão.



Para ele, “a luta para salvar a União continha um propósito ainda maior do que o de abolir a escravidão”. Sua liderança acentuava-se mais ainda nas frequentes visitas que fazia aos campos de batalha procurando, com isso, elevar o moral das tropas. Atitudes como essa falavam fundo no coração dos soldados, que o adoravam.



Doris Goodwin relata, em seus escritos, a emoção que causava entre as tropas ver que estava ali, bem diante deles, o presidente a dar-lhes apoio. “Os soldados que estavam por perto saudavam-no com grandes vivas sempre que o avistavam ‘sentado e sorrindo com serenidade no convés de popa da embarcação’[...] durante três horas, o presidente passou em revista uma divisão depois da outra, cavalgando lentamente pelas longas filas de soldados que o saudavam. Ficou aliviado ao encontrar o exército num estado de espírito tão animado depois da batalha sangrenta de uma semana inteira.”



Outra qualidade inerente à personalidade de Lincoln, que consolidaria sua liderança entre seus subordinados diretos, era a capacidade de assumir responsabilidades. Para isso, não se deixava levar pelas opiniões dos outros, preferindo fazer seus próprios julgamentos, como no caso em que seu secretário da Guerra sofria ataques de todos os lados pelo modo de lidar com situações conflitantes. Ante o fato, o presidente tirou suas próprias conclusões. Para ele, “o estilo vigoroso e ríspido de Stanton [secretário da Guerra] era exatamente aquilo que precisava nessa crítica conjuntura”. Resultado: recusou-se a deixar o secretário levar uma culpa que julgava ser sua e o defendeu em público, no local mais público para o político norte-americano: o Capitólio. Vejamos um pouco da defesa do presidente no momento em que tentavam “fritar” seu secretário da Guerra: “Em assunto em que temos ouvido outras pessoas levarem a culpa por algo que é de minha responsabilidade” [Lincoln se referia à acusação feita contra o secretário de que ele não quisera enviar soldados para o front de guerra]. Acrescenta, para deixar bem claro: “O secretário da Guerra não pode ser culpado por não dar, quando ele não tinha nada para dar”. No momento, as pessoas começaram a aplaudir e ele concluiu: “Acredito que ele é um homem corajoso e capaz e aqui estou eu, como me obriga o espírito de justiça, para assumir a culpa de tudo que tem sido acusado o secretário da Guerra”.



Não poderia ter melhor maneira de transmitir confiança a subordinados que já viam em Lincoln um líder de grande estatura. “Ele é um dos melhores homens que Deus criou”, afirmou um deles. “Sua expressão franca, cordial e generosa e a simplicidade direta de sua postura conquistaram todos os corações”, disse outro. Agindo assim Lincoln construiria com suas atitudes uma ligação indissolúvel entre seus liderados, os quais muito o ajudariam a comandar a nação em momentos de extrema turbulência e sofrimento. Era ele o farol que conduziria o navio em um mar revolto.



A vida não privou o casal Lincoln de sofrimentos na vida pessoal. Um acontecimento que os marcou significativamente foi a perda de um filho. Ao tomar conhecimento da morte de Willie, o filho, o entristecimento falou fundo na alma do estadista. “Meu menino se foi”, disse o marido de Mary Lincoln, enterrando as mãos na cabeça e deixando seu corpo autossucumbir pela mais pura emoção. “Não imaginava que aquela natureza austera pudesse se emocionar tanto”, assim relatou a escrava liberta Elizabeth Keckley, que se tornou auxiliar e confidente da esposa do presidente. Com a morte de Willie e o outro filho, Tad, acometido por uma grave doença, Lincoln sentiu qual era a imensa dor que sentiam as milhares de famílias norte-americanas com a perda de seus filhos na guerra. O mesmo sentimento embeveceu a primeira-dama.



A partir de então, Mary Lincoln voltou-se numa devoção silenciosa para os milhares de enfermos que, heroicamente, visitava de hospital em hospital. Doris Goodwin assim relata a devoção da primeira-dama àqueles que tanto sofriam: “Antes de partir para suas visitas ao hospital, Mary enchia a carruagem de cestas de frutas, alimentos e flores recém-cortadas. Ela colhia os morangos do jardim da Casa Branca; e conseguiu, de um próspero comerciante, impressionado pela ‘forma silenciosa e sem alarde’ com que ela cuidava dos enfermos, uma doação equivalente a 300 dólares em limões e laranjas, tão necessários para prevenir o escorbuto. Passava horas distribuindo as frutas e iguarias e colocando flores sobre os travesseiros dos feridos para mascarar o mau cheiro penetrante dos desinfetantes e da decomposição. Sentava-se ao lado de soldados so­litários, conversava sobre as ex­periências que eles tinham tido, lia para eles e ajudava-os a escrever cartas para a família”. Mais adiante, a autora acrescenta algo ex­traordinário que a primeira-dama descobriu. Algo que unia ela e o marido aos soldados em guerra. “Nas horas em que cuidou daqueles soldados, a primeira-dama deve ter percebido a crença inabalável que eles tinham em seu marido e na União pela qual lutaram. Uma fé como aquela não era fácil de encontrar em qualquer lugar — não no gabinete, no Con­gresso, na imprensa, nem nos círculos sociais da cidade.”

A tolerância de um estadista


Na condição de homem mais poderoso dos Estados Unidos e um dos mais poderosos do planeta, Lincoln soube exercer a tolerância com aqueles que, em certos momentos, insurgiram ante o excesso de vaidade pessoal, contra ele.
Este foi o caso do secretário do Tesouro, Salmon Chase, que sempre ambicionou seu lugar, mas que o estadista soube, em nome do interesse nacional, reconhecer suas qualidades. Manteve-o no cargo — mesmo perante os seus constantes pedidos de demissão. Lincoln só o substituiu quando a situação se tornou insustentável. “Aceito seu pedido de exoneração do cargo de secretário do Tesou­ro”, respondeu o presidente ao secretário Chase após seu quarto pedido de demissão. E acrescentou: “Não retiro nada do que já disse em elogio à sua capacidade e lealdade; contudo, o senhor e eu chegamos a um ponto de constrangimento recíproco, em nossa relação oficial, que parece não poder ser superado, nem sustentado por mais tempo, em atendimento ao interesse público”. Problema de Chase diagnosticado por Lincoln: “A coisa mais fácil do mundo é um homem adquirir um mau hábito. Chase adquiriu dois maus hábitos. [...] Ele acha que se tornou indispensável ao país [...], também acredita que deveria ser presidente; quanto a isso, não tem a menor dúvida”. Mesmo assim o presidente não deixou de reconhecer as qualidades de homem público do ex-secretário: “Seria um ótimo nome para uma vaga na Suprema Corte”.



Outro subordinado insubordinado que Lincoln tolerou ao extremo, em nome do interesse nacional, foi o poderoso e vaidoso comandante do exército: general McClellan. O presidente reconhecia suas qualidades. “Não existe outro homem melhor que ele no exército para equipar nossas fortificações e levar esses nossos soldados à plena forma”, disse o presidente a respeito do general. Tolerou muito as insubordinações do vaidoso McClellan. Testou-o à exaustão até decidir por sua demissão. “Comecei a recear que ele não estivesse sendo leal — que ele não quisesse ferir o inimigo [...] vi que modo poderia interceptar o inimigo a caminho de Richmond [capital do Estado da Virginia]. Resolvi testá-lo com isso. Se ele os deixasse escapar, eu o demitiria. Ele deixou que escapassem, e eu o demiti.” E assim o contínuo exercício da tolerância prolongava situações de reflexão para que decisões nunca fossem tomadas precipitadamente. Quem estava no comando do processo político era um nome só e esse nome era Abraham Lincoln.

A política como um ato de amor


O amor é certamente o sentimento mais sublime que pode existir entre os seres humanos. Lincoln soube como nenhum outro estadista cultivar esse nobre sentimento no coração do povo norte-americano.



A maior prova do cultivo desse amor pelo seu povo se manifestou no momento em que o norte antiescravagista venceu a guerra contra o Sul escravagista. Conflito encerrado, Lincoln poderia impor ao sul elevados preços pela derrota. Não fez isso. O presidente compreendeu algo grandioso inerente só a grandes homens: que não era presidente só do Norte, mas também do Sul. Ou seja, de todos os norte-americanos.



Resultado: perdoou em nome do propósito maior de unir a nação. “O que fazer com os exércitos e líderes políticos quando derrotados?”, indagou a ele um general subordinado. Eis o desejo do presidente: “Tudo o que queria de nós era que derrotássemos os exércitos adversários e fizéssemos com que os homens que compunham os exércitos confederados voltassem para casa, para trabalhar em suas terras e em suas lojas [...], deixem que mantenham seus cavalos para arar a terra e, se vocês quiserem, suas armas para atirar nos corvos. Não quero que ninguém seja punido.



Tratem a todos com liberalidade. Nós queremos que essas pessoas voltem a ser à União e que se submetam às leis”. Este era o modo Lincoln de ser: transformar princípios em ação política que constrói. Mais que a causa escravagista, havia os interesses da nação que necessitava ser reconstruída unindo os irmãos do Norte aos irmãos do Sul. Lincoln foi tragicamente assassinado por um fanático sulista no momento em que assistia a uma peça de teatro.

Encarnou em vida as palavras proferidas no seu segundo discurso de posse, o compromisso de governar “sem hostilidades, com caridade para todos”. Foi coerente com a maior ambição confessa de sua vida: ser estimado pelo seu próximo, tornando-se digno de sua estima. Mais de um século se passou de sua morte e continua a estar no coração de seu povo e no panteão dos grandes homens da humanidade. Tolstói já havia percebido isso, há mais de um século, entre aqueles toscos bárbaros que habitavam aquela distante região do Cáucaso. 
Salatiel Soares Correia, é engenheiro e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp, é colaborador do Jornal Opção. 
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Editor Luiz Sergio Castro