Uma rosa para Rosa

*Por Mário Vargas Llosa
Ter quase 5 milhões de desempregados, como tem a Espanha, é uma tragédia para qualquer país, principalmente para uma sociedade que, oito anos atrás, era a história de sucesso da Europa: uma nação de economia pujante e muito invejada, exemplo flagrante - para a América Latina, em particular, e para o Terceiro Mundo, em geral - de que, com estabilidade, democracia e políticas acertadas, um país pode pular etapas e, em um período breve, alcançar altos níveis de trabalho e bem-estar.

Ninguém duvida que os assustadores números do desemprego espanhol sejam consequência da crise financeira que há mais de três anos afeta o mundo ocidental. Mas ninguém pode ser ingênuo a ponto de crer que essa é a única causa, nem a principal, de semelhantes níveis de desemprego. Afinal, se assim fosse, por que não observamos no restante da Europa um fenômeno parecido? Nem a Grécia, na sua interminável descida ao fundo do poço, apresenta um desemprego comparável. Leia Mais

Por outro lado, uma investigação recente comprova que a Espanha é o país da União Europeia onde as diferenças econômicas entre ricos e pobres são as maiores no bloco - e atesta que o altíssimo desemprego entre os jovens, cerca de 48%, dificilmente recuará nos próximos três anos.

A principal razão desse desastre é uma política econômica errática e imprudente e a obstinação do governo socialista em negar a existência da crise por mais de um ano, coisa que o impediu de adotar as medidas corretivas que teriam moderado o declínio e encurtado o período de recuperação. Os prognósticos quanto ao tempo que será necessário para tal recuperação variam, mas todos concordam que o próximo ano será mais difícil.

Nas eleições do dia 20, o governo espanhol será sancionado por esse fracasso. E é natural que assim seja. Vale a pena recordar que só nas democracias essas sanções são possíveis e, por sorte, apesar dos problemas econômicos, a democracia espanhola goza de ótima saúde. Pesquisas de opinião dizem que o principal partido de oposição, o Partido Popular (PP), liderado por Mariano Rajoy, voltará ao poder.

Alegro-me que seja assim, pois creio que o PP conta com a melhor equipe de economistas e as ideias mais claras para enfrentar os sacrifícios e dificuldades para levar adiante as reformas radicais necessárias. Esperemos que o partido conte também com a coragem para tirar a Espanha do marasmo econômico, devolvendo-lhe o dinamismo visto durante os oito anos de governo de José María Aznar. Apesar de tudo isso, nessas eleições não votarei no PP, mas na União Progresso e Democracia (UPD), partido liderado por Rosa Díez, por motivos que gostaria de explicar neste artigo.

Tenho uma desconfiança instintiva em relação às maiorias absolutas, que podem alentar iniciativas arbitrárias e até autoritárias nos governos que formam. No caso espanhol, preocupa-me que, caso o PP obtenha a maioria, sua ala mais conservadora, impelida por motivações religiosas, faça o governo de Rajoy voltar atrás nas reformas sociais mais avançadas aprovadas sob o governo de Zapatero, as quais, na minha opinião, fizeram progredir a cultura da liberdade na Espanha.

A UPD é um partido comprometido com reformas genuinamente liberais e tenho certeza que ele as defenderá com convicção no Parlamento. Por isso, se o PP não obtiver a maioria necessária para governar sozinho e tiver de recorrer a alianças, a UPD seria seu aliado ideal.

Desde que nasceu como organização política, a UPD combateu os nacionalismos de maneira resoluta. E sustentou que, mantido o funcionamento do regime das 17 regiões autônomas, o risco de desintegração se acentua progressivamente. Defendeu que, por esse motivo, tal sistema deveria ser reformado, sem colocar em risco a descentralização, mas permitindo que o Estado recupere competências relativas à educação, à saúde e à Justiça, sem as quais é difícil que haja uma política coerente e homogênea em nível nacional.

Por outro lado, a UPD é o único partido que nessas eleições incorporou a seu plano de governo uma cláusula comprometendo-se a apoiar a oposição democrática que luta para libertar Cuba de 52 anos de ditadura. Também nesse campo é imprescindível retificar a política do governo socialista que, no que concerne a tirania cubana, foi de uma tolerância que beirou a atuação como procurador da ilha caribenha.

Não estou dizendo que a UPD é um partido liberal, mas é aquilo que mais se parece com isso no âmbito espanhol. Tanto no que tange a economia como em suas convicções democráticas, em suas posições tolerantes e na diversidade que admite e fomenta entre seus afiliados. Um espectro ideológico que vai da social-democracia ao liberalismo, passando pelo centro cristão ou laico e até com pequenos lampejos anarquistas, algo que confere ao partido um ar fresco, renovador e idealista, desprovido dos apetites que o tempo costuma incutir nos partidos políticos.

A melhor credencial da UPD é Rosa Díez, sua porta-voz e fundadora, a quem os cidadãos espanhóis costumam descrever com os melhores adjetivos. Essa mulher baixinha e de olhos efervescentes é dona de convicções firmes e demonstrou ao longo da vida pública uma coragem à prova de terroristas e fanáticos.

Ela viu o risco que o nacionalismo identitário representa para a sobrevivência da Espanha e da democracia e sempre criticou as concessões feitas pelo governo nesse sentido, afastando-se da política que entregasse a liberdade de comunidades inteiras ao sequestro coletivista.

Rosa Díez é aquilo que Max Weber chamava de "político de convicções". Ela e seu partido merecem uma presença mais expressiva. Seu objetivo é devolver à política a solvência moral e a confiança que depositam nela os cidadãos de uma democracia que enxergam na ação política o instrumento mais eficaz e menos violento para obter melhorias na qualidade de vida da população, corrigir aquilo que vai mal, promover a igualdade e a justiça.

Essa confiança foi esfriando na Espanha com a feroz crise econômica. Nas novas gerações, começa a surgir um pessimismo que se traduz, às vezes, numa recusa às regras do jogo democrático. Isso explica o estado de deriva que tem se disseminado no movimento dos "indignados". Num primeiro momento, a simpatia da opinião pública foi grande em relação à mobilização de jovens que, após terem recebido educação e se preparado para entrar no mercado de trabalho, agora o encontram fechado.

Muitos viram no período inicial do movimento dos "indignados" uma injeção de energia na democracia espanhola. No entanto, logo o movimento ultrapassou suas causas originais e adotou palavras de ordem tão anacrônicas quanto a estatização e o dirigismo econômico - e a substituição da legalidade parlamentar pela legalidade das ruas.

As eleições de novembro são uma oportunidade para comprovar que a democracia funciona e consiste no único sistema que permite a renovação. Para tanto, é preciso não se enganar na hora de votar.
MARIO VARGAS LLOSA, É NOBEL DE LITERATURA, COLUNISTA DO ESTADO - O Estado de S.Paulo

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
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Editor Luiz Sergio Castro