Cuba: Novo Líder do Supremo Conselho Denuncia Pressão Das Autoridades Sobre a Maçonaria

 

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Eleito com ampla maioria, Ángel Santiesteban-Prats assume o comando do Supremo Conselho do Grau 33 em meio a uma antiga disputa com o governo cubano

A eleição de um novo Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 para a República de Cuba, realizada em 26 de setembro de 2026, não foi suficiente para encerrar as tensões entre a Maçonaria cubana e as autoridades do país.

O escritor e maçom Ángel Santiesteban-Prats foi eleito por 19 votos contra apenas um, sucedendo José Ramón Viñas Alonso, que ocupava a função desde 2015 e passou a exercer o cargo de Lugar-Tenente Grande Comendador.

Poucos dias depois da eleição, porém, Santiesteban denunciou uma situação que demonstra que a crise está longe de terminar. Segundo seu relato, sua residência teria sido cercada por agentes da segurança do Estado justamente no dia em que ele deveria comparecer ao Ministério da Justiça, acompanhado do Grande Secretário do Supremo Conselho, para entregar a documentação referente à eleição e às decisões tomadas pela Alta Câmara.

A escolha de Santiesteban-Prats ocorreu durante uma sessão extraordinária do Supremo Conselho, em Havana. A expressiva votação — 19 votos favoráveis e apenas um contrário — representou uma decisão interna da estrutura maçônica em favor de uma nova direção.

O novo dirigente, entretanto, não é uma figura desconhecida no cenário cubano. Escritor, ex-preso político e crítico do governo, Santiesteban possui uma longa trajetória na Maçonaria e mantém vínculos com a Ordem há várias décadas.

Sua chegada ao comando do Supremo Conselho ocorre, portanto, em um momento particularmente sensível.

A mudança de dirigente poderia representar uma oportunidade para solucionar o conflito institucional que se arrasta há mais de um ano. Mas, segundo relatos publicados por veículos independentes cubanos, os problemas administrativos e financeiros continuam.

Um dos principais pontos da crise está relacionado às contas bancárias do Supremo Conselho.

Segundo denúncias divulgadas recentemente, os recursos da instituição permanecem bloqueados há meses. Como consequência, trabalhadores vinculados ao Supremo Conselho estariam há mais de quatro meses sem receber seus salários.

A situação teria levado maçons a fazer contribuições pessoais para ajudar os funcionários e manter as atividades da instituição.

Para Santiesteban, uma das prioridades de sua gestão é recuperar a legalidade administrativa e financeira do Supremo Conselho, permitindo novamente o funcionamento regular da organização e o pagamento dos trabalhadores.

A atual crise não surgiu com a eleição de Santiesteban.

O confronto entre setores da Maçonaria cubana e o Ministério da Justiça vem se desenvolvendo há vários meses. Em 2024, as autoridades cubanas suspenderam a operação bancária da Grande Loja e do Supremo Conselho, alegando irregularidades estatutárias, segundo relatos publicados por veículos independentes.

Em 2025, o conflito se agravou quando as autoridades teriam tentado reconhecer Lázaro Cuesta Valdés como dirigente do Supremo Conselho, enquanto parte significativa dos maçons defendia a continuidade de José Ramón Viñas Alonso.

A disputa chegou a um ponto crítico em agosto de 2026, quando cerca de uma centena de maçons se reuniu na sede do Supremo Conselho, em Havana, para manifestar apoio a Viñas Alonso e contestar o que consideravam uma interferência governamental nos assuntos internos da instituição.

Por trás da disputa administrativa existe uma questão muito mais profunda: a autonomia da Maçonaria diante do poder político.

Para os dirigentes maçônicos que contestam a atuação do governo, as decisões sobre a direção do Supremo Conselho devem ser tomadas pelos próprios membros da instituição, segundo suas normas e procedimentos internos.

As autoridades, por outro lado, sustentam a necessidade de cumprimento das normas legais aplicáveis às associações e organizações existentes no país.

É justamente nesse ponto que surge o conflito.

A pergunta central é até onde pode ir o poder do Estado na fiscalização de uma organização e em que momento essa fiscalização passa a ser percebida como interferência em sua autonomia interna.

Apesar de sua conhecida trajetória crítica ao governo cubano, Santiesteban afirma que pretende evitar que o cargo maçônico seja transformado em instrumento de disputa política.

Segundo ele, a própria Alta Câmara do Rito teria pedido que sua atuação como Soberano Grande Comendador não fosse politizada.

A prioridade declarada é recuperar o funcionamento institucional do Supremo Conselho, desbloquear suas contas bancárias e garantir que os funcionários possam voltar a receber seus salários.

Essa posição é importante porque separa duas questões que frequentemente acabam misturadas: a trajetória política pessoal do novo dirigente e a defesa da autonomia administrativa da instituição que ele passou a comandar.

A situação de Santiesteban também chama atenção por sua própria trajetória. Em junho de 2026, ele havia sido submetido a medidas restritivas em um processo relacionado a uma doação de US$ 200 destinada ao Asilo Nacional Maçônico Llansó, segundo veículos independentes cubanos.

Agora, no comando do Supremo Conselho, ele enfrenta o desafio de conduzir a instituição em meio a dificuldades financeiras, administrativas e políticas.

Sua eleição modificou a liderança, mas não eliminou o problema fundamental.

As contas continuam sendo apontadas como bloqueadas e, segundo sua própria denúncia, até mesmo a entrega da documentação oficial da eleição ao Ministério da Justiça teria sido dificultada pela vigilância policial.

É importante registrar que essas acusações são apresentadas principalmente por Santiesteban e por veículos independentes que acompanham o caso. Até o momento, não foi localizada nas fontes consultadas uma manifestação detalhada das autoridades cubanas respondendo especificamente a todas essas acusações.

O episódio cubano ultrapassa a questão de quem ocupa o cargo de Soberano Grande Comendador.

No fundo, está em discussão a capacidade de uma instituição maçônica tradicional de escolher seus próprios dirigentes e administrar seus recursos sem interferências externas.

A Maçonaria cubana possui uma longa história e atravessou diferentes períodos políticos do país. Atualmente, porém, enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história recente.

A eleição de Ángel Santiesteban-Prats pode representar uma tentativa de reconstrução institucional. Mas o verdadeiro teste ainda está por vir.

Será que o novo dirigente conseguirá regularizar a situação do Supremo Conselho, recuperar o acesso aos recursos financeiros e estabelecer uma relação institucional estável com o Ministério da Justiça?

As próximas semanas poderão indicar se a eleição de setembro representará o início de uma solução ou apenas uma nova etapa de um conflito que já dura mais de um ano.

Em Cuba, a questão deixou de ser apenas quem dirige o Supremo Conselho. O que está em jogo é até onde pode chegar a autonomia da Maçonaria diante do poder do Estado.

 

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