Alcy Ribeiro da Costa: O Maçom Capixaba Que Abriu Caminho Para a Participação Feminina na Maçonaria Brasileira

Alcy Ribeiro da Costa

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Fundado em 17 de dezembro de 1958 e instalado em 4 de abril de 1959, o primeiro Departamento Feminino idealizado pelo Irmão Alcy Ribeiro da Costa, em Cachoeiro de Itapemirim, tornou-se uma referência histórica e o precursor de uma trajetória que prossegue com a FRAFEM.

Por Luiz Sérgio Castro


A história da participação feminina no universo maçônico brasileiro possui capítulos que merecem ser conhecidos e preservados. Um deles tem como protagonista o maçom capixaba Alcy Ribeiro da Costa, cuja iniciativa, no final da década de 1950, enfrentou resistências, provocou debates e abriu um caminho de aproximação entre as famílias dos maçons e as atividades de suas Lojas.

A criação do Departamento Feminino, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, representou uma iniciativa pioneira para a época. Mais do que organizar a participação das mulheres em atividades sociais e filantrópicas, o projeto demonstrou a disposição de seu idealizador de ampliar os espaços de colaboração em torno dos princípios de fraternidade, solidariedade e serviço ao próximo.

A iniciativa, entretanto, não nasceu sem dificuldades. Pelo contrário: antes de se transformar em realidade, precisou superar resistências dentro da própria estrutura maçônica.

Uma trajetória maçônica iniciada aos 18 anos

A história começa com a iniciação de Alcy Ribeiro da Costa na Maçonaria, em 20 de setembro de 1947, aos 18 anos de idade, na Augusta e Respeitável Loja Simbólica Liberdade e Luz, em Guaçuí, no Espírito Santo.

Em 5 de maio de 1949, ele se filiou à Loja Fraternidade e Luz, em Cachoeiro de Itapemirim, cidade onde desenvolveria parte importante de sua trajetória maçônica.

Sua dedicação à Ordem o levou a exercer o cargo de Venerável Mestre por três períodos alternados. O primeiro mandato ocorreu quando tinha apenas 25 anos, demonstrando que, ainda jovem, já assumia responsabilidades relevantes na administração de uma Loja maçônica.

Foi nesse ambiente de trabalho e convivência fraterna que amadureceu a ideia que marcaria seu nome na história da Maçonaria brasileira: a criação de um Departamento Feminino vinculado às atividades da Loja.

1958: uma ideia à frente de seu tempo

Na década de 1950, a participação das mulheres nas atividades ligadas às Lojas maçônicas ocorria, em grande medida, por meio de encontros familiares, ações beneficentes e iniciativas sociais. Alcy Ribeiro da Costa percebeu que essa colaboração poderia ser organizada de maneira mais estruturada.

A proposta consistia em criar um departamento destinado à participação das mulheres, especialmente das esposas e familiares dos maçons, em atividades de caráter social, beneficente e fraterno.

A ideia encontrou apoiadores, mas também provocou desconfiança e oposição. Para alguns integrantes da Ordem, a criação de uma organização feminina vinculada à Loja poderia ser interpretada como uma tentativa de estabelecer uma Maçonaria feminina, o que não correspondia à intenção atribuída ao projeto.

A diferença era fundamental: Alcy não pretendia fundar uma instituição maçônica feminina independente, mas estabelecer um espaço organizado de participação das mulheres nas iniciativas sociais e fraternas relacionadas à Loja.

O debate ultrapassou os limites do Espírito Santo e chegou à direção nacional do Grande Oriente do Brasil (GOB), cuja sede, naquele período, ficava no Rio de Janeiro, então capital federal.

O conflito com a direção nacional do GOB

Ao tomar conhecimento da iniciativa, o então Grão-Mestre Geral do Grande Oriente do Brasil, Cyro Werneck de Sousa e Silva, teria interpretado a proposta como uma tentativa de criação de uma Maçonaria feminina.

Segundo os relatos históricos sobre o episódio, a reação foi imediata. O dirigente enviou um telex determinando o afastamento de Alcy Ribeiro da Costa de suas funções de Venerável Mestre e sua posterior expulsão da Maçonaria, além da nomeação de um interventor para a Loja.

A notícia representava uma ameaça concreta ao projeto e à própria trajetória maçônica de seu idealizador.

A situação, porém, não terminou como se previa. Irmãos que compreenderam o propósito da iniciativa mobilizaram-se em defesa de Alcy. Entre eles estava Osmane Vieira de Resende, que posteriormente também ocuparia o cargo de Grão-Mestre Geral do Grande Oriente do Brasil.

Uma comitiva deslocou-se ao Rio de Janeiro para conversar diretamente com Cyro Werneck e esclarecer a natureza do projeto. O argumento central era que o Departamento Feminino não pretendia criar uma Maçonaria feminina, tampouco modificar a estrutura ritualística da Ordem. Seu objetivo era organizar a participação das mulheres em atividades sociais e beneficentes vinculadas à Loja.

O esclarecimento permitiu superar o impasse. Alcy não chegou a ser afastado de suas funções, e o projeto pôde prosseguir.

O episódio demonstra como uma proposta inovadora pode provocar interpretações divergentes, sobretudo quando desafia costumes estabelecidos. Também evidencia a importância do diálogo e da capacidade de esclarecer intenções para evitar que divergências comprometam iniciativas de interesse coletivo.

17 de dezembro de 1958: o nascimento do Departamento Feminino

Superadas as resistências, o sonho de Alcy Ribeiro da Costa começou a se concretizar.

O primeiro Departamento Feminino foi fundado em 17 de dezembro de 1958, vinculado à Loja Liberdade e Luz, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Sua instalação oficial ocorreu em 4 de abril de 1959.

A presidência ficou a cargo da cunhada Paula Mello Jacques, que assumiu a responsabilidade de conduzir os trabalhos dessa organização pioneira.

Cunhada Paula Mello Jacques e Alcy Ribeiro na comemoração do 
cinquentenário do Departamento Feminino

A criação do Departamento Feminino estabeleceu um modelo de participação que despertou o interesse de outras Lojas maçônicas brasileiras. Conforme os relatos sobre sua história, começaram a chegar solicitações de cópias do estatuto, utilizadas como referência por grupos interessados em organizar departamentos semelhantes.

Assim, uma iniciativa nascida no interior capixaba passou a inspirar experiências em outras regiões do país.

O feito também alimentou uma possibilidade histórica frequentemente mencionada por seus defensores: a de que o Departamento Feminino de Cachoeiro de Itapemirim tenha sido uma das primeiras iniciativas desse tipo no mundo. Essa afirmação, contudo, exige pesquisa documental internacional para ser estabelecida com segurança.

Da iniciativa capixaba à FRAFEM

A história não se encerrou com a fundação do primeiro Departamento Feminino. Ao longo das décadas, a participação das mulheres nas atividades relacionadas à Maçonaria brasileira ganhou novas formas de organização, ampliando as oportunidades de atuação social, cultural e filantrópica.

Nesse percurso, a FRAFEM — Fraternidade Feminina — passou a ocupar um lugar importante na organização e no desenvolvimento desse trabalho.

A tradição preservada por suas integrantes mantém viva a memória da iniciativa de Alcy Ribeiro da Costa, reconhecida como um marco precursor desse movimento no âmbito do Grande Oriente do Brasil.

A continuidade histórica entre o Departamento Feminino de 1958 e a FRAFEM representa, portanto, um legado de organização, solidariedade e participação. Trata-se de uma trajetória construída por diferentes gerações de mulheres e maçons que compreenderam a importância de somar esforços em favor das famílias e da sociedade.

É importante reconhecer, entretanto, que a evolução dessas organizações não significou necessariamente uma mudança no caráter masculino da Maçonaria simbólica tradicional. O Departamento Feminino surgiu justamente como uma estrutura de participação complementar, com objetivos próprios e vinculada ao ambiente social das Lojas.

O maior feito de sua trajetória

Segundo relato do Irmão Kheytte Vasconcellos Gomes, Alcy Ribeiro da Costa considerava a criação do primeiro Departamento Feminino da Maçonaria brasileira o maior feito que havia realizado em favor da Ordem.

Alcy Ribeiro e Kheytte Vasconcellos Gomes

Essa avaliação ajuda a compreender a dimensão pessoal e institucional que a iniciativa assumiu para seu idealizador. Para ele, o projeto não representava apenas a criação de uma nova estrutura administrativa, mas a possibilidade de fortalecer os vínculos de fraternidade e ampliar a colaboração em torno de ações voltadas ao bem comum.

A história também recorda que grandes mudanças nem sempre começam nos principais centros de poder. Às vezes, nascem em uma Loja do interior, a partir da iniciativa de alguém disposto a apresentar uma proposta diferente, enfrentar questionamentos e buscar apoio para colocá-la em prática.

Foi o que aconteceu em Cachoeiro de Itapemirim, quando Alcy Ribeiro da Costa transformou uma ideia em uma organização que inspiraria outras Lojas brasileiras.

Um legado que merece ser preservado

A fundação do Departamento Feminino em 1958, sua instalação em 1959 e o desenvolvimento posterior da FRAFEM integram uma página significativa da história da Maçonaria no Espírito Santo e no Brasil.

Resgatar essa trajetória é reconhecer a importância dos pioneiros, mas também valorizar as mulheres que deram continuidade ao trabalho, assumindo responsabilidades e contribuindo para ações de solidariedade, assistência social e integração familiar.

Alcy Ribeiro e Daladyer Morandi

A memória de Alcy Ribeiro da Costa permanece associada à coragem de propor uma iniciativa inovadora em um momento de resistência e à disposição de defender seu propósito por meio do diálogo.

Para a Maçonaria, cuja tradição filosófica destaca a fraternidade, a tolerância e o aperfeiçoamento humano, essa história oferece uma reflexão pertinente: preservar a tradição não significa impedir toda inovação, mas avaliar novas ideias com serenidade, responsabilidade e atenção ao bem que podem produzir.

A história do Departamento Feminino nascida em Cachoeiro de Itapemirim mostra que uma iniciativa local pode ultrapassar fronteiras e atravessar gerações. Mais do que recordar uma data, preservar esse legado significa reconhecer o trabalho de homens e mulheres que contribuíram para fortalecer os laços de fraternidade e ampliar as formas de servir à sociedade.

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1 Comentários

  1. Sensível e justo reconhecimento. "Os Sonhadores mudam o mundo" Parabens por essa linda reportagem!!

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