210 - O Alimento Dos Deuses - A Ágape Maçônica e o Difícil Ofício da Fraternidade

 Da Redação

No Templo, cada Irmão tem um lugar e uma função. À mesa, porém, o Mestre Venerável senta-se diante do mesmo prato que o Aprendiz, bebe do mesmo vinho e compartilha o mesmo pão. Considerar a Ágape apenas como um momento de descontração depois dos Trabalhos significa esquecer que, durante séculos, comer juntos esteve profundamente relacionado ao sentimento de pertencimento, ao reconhecimento mútuo e à própria construção de uma comunidade.

A palavra Ágape significa amor. Sua origem está no grego antigo e, embora tenha adquirido enorme importância nas primeiras comunidades cristãs, não nasceu com o cristianismo.

Na Primeira Carta aos Coríntios, escrita por volta dos anos 53 a 55 d.C., Paulo de Tarso encontra uma comunidade que se reúne em torno da mesa, mas na qual as diferenças sociais continuam presentes. Alguns comem e bebem em abundância enquanto outros permanecem com fome. A fraternidade proclamada durante a celebração não correspondia necessariamente ao comportamento daqueles que participavam dela.

O problema apontado por Paulo é extremamente atual: de pouco adianta chamar alguém de irmão se, diante da mesma mesa, não somos capazes de perceber suas necessidades.

Nos Atos dos Apóstolos, a comunidade de Jerusalém é apresentada como perseverante na partilha do pão e vivendo com alegria e simplicidade de coração. Os primeiros cristãos são descritos como pessoas que compartilhavam seus bens e distribuíam os recursos conforme as necessidades de cada um.

Independentemente de quanto essa descrição corresponda exatamente à realidade histórica, existe nela uma ideia importante: comer juntos e compartilhar constituíam elementos fundamentais da vida comunitária.

No início do século II, Inácio de Antióquia também utiliza o termo Ágape em relação à vida religiosa comunitária. Pouco depois, por volta de 112 d.C., Plínio, o Jovem, ao relatar ao imperador Trajano os costumes dos cristãos, menciona suas reuniões e também a prática de realizarem refeições coletivas.

No final do século II, Tertuliano descreve a refeição dos cristãos como uma manifestação do amor. Comia-se moderadamente, bebia-se sem excesso e, ao final, havia oração.

Não se deve, contudo, transformar essa sequência histórica em uma suposta linha direta entre os banquetes das primeiras comunidades cristãs e a Ágape maçônica. Entre esses acontecimentos e o nascimento da Maçonaria moderna existem muitos séculos, culturas e transformações. A história exige cautela.

Muito antes do cristianismo, os gregos já conheciam formas organizadas de convivência à mesa. O simpósio, que normalmente sucedia a refeição, era dedicado ao vinho, à conversa, à música e à poesia. Até o ato de beber obedecia a determinadas regras.

Não é necessário transformar o simpósio em uma espécie de Ágape maçônica anterior à Maçonaria. A semelhança mais interessante está simplesmente na percepção de que comer e beber juntos pode ser uma atividade social organizada por normas e carregada de significado comunitário.

DAS CORPORAÇÕES À LOJA ESPECULATIVA

Para encontrar documentos propriamente maçônicos é necessário avançar muitos séculos.

Os registros da Loja de Edimburgo, Mary's Chapel Nº 1, remontam a 1599 e estão entre os mais antigos documentos preservados sobre a vida de uma Loja. Os Estatutos de Schaw, de 1598 e 1599, também demonstram a existência de uma organização corporativa estruturada, com obrigações, reuniões e hierarquias.

Nos registros das Lojas escocesas dos séculos XVII e XVIII aparecem despesas relacionadas a refeições, cerveja e bebidas destiladas. Ainda estamos diante das antigas Lojas operativas e dos primeiros membros aceitos, mas já encontramos algo importante: comer e beber juntos fazia parte da vida associativa da Loja.

Com as Lojas londrinas do início do século XVIII aproximamo-nos da Maçonaria especulativa.

As reuniões aconteciam frequentemente em tavernas e hospedarias. A conhecida Goose and Gridiron Ale-house, próxima à Catedral de São Paulo, faz parte dessa história. A taverna, naquela época, não era apenas um lugar para beber. Era também espaço de negócios, reuniões de associações, conversas e refeições.

Em 1723, James Anderson publicou as Constitutions of the Free-Masons. Entre suas normas de comportamento havia uma orientação para o período posterior ao encerramento da Loja. Os Irmãos poderiam permanecer juntos, comer, beber e desfrutar de uma convivência alegre, mas sem excessos.

A recomendação é significativa: ninguém deveria ser obrigado a comer, beber ou permanecer além de sua vontade.

O banquete, portanto, fazia parte da sociabilidade maçônica, mas ainda não possuía necessariamente todas as características ritualísticas que surgiriam posteriormente.

QUANDO A MESA SE TORNA RITUAL

Ao longo do século XVIII, principalmente na França, os chamados Trabalhos de Mesa passaram a adquirir formas mais definidas. Brindes, palavras de ordem, gestos e baterias foram incorporados a determinadas práticas.

Os copos passaram a receber denominações simbólicas, assim como o vinho e a água. O ato de beber podia seguir comandos e tempos determinados.

A refeição deixava de ser simplesmente uma continuação informal da reunião e adquiria uma dimensão cerimonial.

É importante, entretanto, distinguir a Ágape ritual de uma simples refeição realizada entre Maçons depois dos Trabalhos. Nem toda confraternização é um Trabalho de Mesa. Em alguns sistemas, lugares, brindes, gestos e procedimentos são previamente estabelecidos. Em outros, a refeição é simplesmente uma oportunidade de convivência.

Essa distinção é importante porque evita transformar qualquer jantar maçônico em um ato ritualístico.

Na Ágape, entretanto, existe algo particularmente significativo: o Aprendiz também pode sentar-se à mesa. Pouco antes, no Templo, talvez tenha permanecido em silêncio, observando e aprendendo. À mesa, encontra-se próximo daquele que ocupava o Oriente ou exercia uma função de autoridade.

O grau não desaparece, mas a distância social diminui.

Durante os Trabalhos, a palavra percorre o Templo segundo regras determinadas. À mesa, alguém pode simplesmente pedir ao Mestre Venerável que lhe passe o pão.

Essa aparente simplicidade contém uma poderosa lição.

O DIFÍCIL OFÍCIO DA FRATERNIDADE

Sentar-se à mesma mesa não garante fraternidade.

É possível dividir o pão com alguém de quem não gostamos, brindar com essa pessoa e, no dia seguinte, continuar exatamente com a mesma antipatia.

Também é possível passar anos pertencendo à mesma Loja, participar dos mesmos grupos de mensagens e conhecer muito pouco verdadeiramente aqueles que estão ao nosso lado.

A Ágape oferece uma oportunidade diferente.

Durante os Trabalhos, podemos discordar de um Irmão sobre uma questão ritual, administrativa ou filosófica. À mesa, entretanto, podemos descobrir que existe uma pessoa por trás daquela opinião.

Talvez ele tenha dormido pouco. Talvez esteja enfrentando dificuldades familiares. Talvez tenha um filho doente, problemas financeiros, preocupações profissionais ou simplesmente esteja atravessando uma fase difícil da vida.

Às vezes, basta uma conversa para descobrirmos que discutimos durante meses com alguém que, na realidade, conhecíamos muito pouco.

A Maçonaria reúne homens de diferentes idades, profissões, formações, condições econômicas e maneiras de pensar. Essas diferenças não desaparecem durante a Ágape. E nem precisam desaparecer.

A fraternidade não consiste em pensar todos da mesma maneira.

Consiste em aprender a conviver respeitosamente mesmo quando pensamos de maneira diferente.

O pão, o sal e o vinho acompanham há séculos diferentes tradições de hospitalidade e de convivência. O vinho, particularmente, recebeu inúmeras interpretações simbólicas ao longo da história. Mas é preciso cuidado para não transformar todas essas tradições em uma única genealogia simbólica.

Na Ágape, o vinho pode acompanhar o brinde, mas não é ele que produz fraternidade.

O álcool não transforma ninguém em irmão. O ritual também não faz isso automaticamente.

A fraternidade é uma construção pessoal.

O Mestre Venerável continua sendo Mestre Venerável à mesa. O Irmão que ocupava uma importante função continua tendo sua responsabilidade. Mas todos precisam lidar com coisas simples: esperar, ouvir, compartilhar, pedir, agradecer e respeitar.

O homem que pouco antes segurava o malhete pode, minutos depois, estar simplesmente pedindo que lhe passem o pão.

É justamente nessa simplicidade que existe uma das grandes forças da Ágape.

DA MATÉRIA AO ESPÍRITO

Para quem observa a Maçonaria de fora, uma refeição entre Maçons poderia parecer apenas uma reunião de amigos depois de uma cerimônia.

Mas reduzir a Ágape a isso significa ignorar sua dimensão simbólica e educativa.

O alimento material pode tornar-se oportunidade para um alimento espiritual: a convivência.

O verdadeiro banquete maçônico não está apenas no que é colocado sobre a mesa, mas naquilo que os homens são capazes de construir ao redor dela.

O Templo termina, os paramentos são retirados, os instrumentos simbólicos são guardados. Entretanto, os homens continuam juntos por mais algum tempo.

É uma espécie de passagem entre dois mundos: deixamos o espaço ritual, mas ainda não retornamos completamente à vida profana.

E talvez seja justamente nesse intervalo que a fraternidade seja mais exigida.

Porque no Templo todos conhecem suas funções, suas posições e seus deveres. À mesa, resta o homem.

E o homem pode ser impaciente, orgulhoso, vaidoso, generoso, solidário ou intolerante.

A Ágape não elimina essas características. Ela apenas cria uma oportunidade para que cada um perceba a si mesmo e ao outro de maneira diferente.

Por isso, talvez o verdadeiro desafio da Ágape não seja saber brindar corretamente, conhecer todas as fórmulas ou cumprir perfeitamente os gestos ritualísticos.

O verdadeiro desafio é muito mais simples e, justamente por isso, muito mais difícil:

sentar-se ao lado de alguém que pensa diferente, ouvi-lo com respeito, compartilhar o pão e sair da mesa um pouco mais próximo daquele Irmão do que estava quando chegou.

Quando isso acontece, a refeição deixa de ser apenas alimento.

Transforma-se em fraternidade.

E talvez seja esse o verdadeiro “alimento dos deuses”: não o vinho, não o banquete, não a cerimônia, mas a capacidade humana de transformar convivência em compreensão, diferença em respeito e presença em verdadeira fraternidade.

 

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