Da Redação
No Templo, cada Irmão tem um lugar e uma
função. À mesa, porém, o Mestre Venerável senta-se diante do mesmo prato que o
Aprendiz, bebe do mesmo vinho e compartilha o mesmo pão. Considerar a Ágape
apenas como um momento de descontração depois dos Trabalhos significa esquecer
que, durante séculos, comer juntos esteve profundamente relacionado ao
sentimento de pertencimento, ao reconhecimento mútuo e à própria construção de
uma comunidade.
A palavra Ágape significa amor. Sua origem está no
grego antigo e, embora tenha adquirido enorme importância nas primeiras
comunidades cristãs, não nasceu com o cristianismo.
Na Primeira Carta aos Coríntios, escrita por
volta dos anos 53 a 55 d.C., Paulo de Tarso encontra uma comunidade que se
reúne em torno da mesa, mas na qual as diferenças sociais continuam presentes.
Alguns comem e bebem em abundância enquanto outros permanecem com fome. A
fraternidade proclamada durante a celebração não correspondia necessariamente
ao comportamento daqueles que participavam dela.
O problema apontado por Paulo é extremamente
atual: de pouco adianta chamar alguém de irmão se, diante da mesma mesa, não
somos capazes de perceber suas necessidades.
Nos Atos dos Apóstolos, a comunidade de
Jerusalém é apresentada como perseverante na partilha do pão e vivendo com
alegria e simplicidade de coração. Os primeiros cristãos são descritos como
pessoas que compartilhavam seus bens e distribuíam os recursos conforme as
necessidades de cada um.
Independentemente de quanto essa descrição
corresponda exatamente à realidade histórica, existe nela uma ideia importante:
comer juntos e
compartilhar constituíam elementos fundamentais da vida comunitária.
No início do século II, Inácio de Antióquia
também utiliza o termo Ágape em relação à vida religiosa comunitária. Pouco
depois, por volta de 112 d.C., Plínio, o Jovem, ao relatar ao imperador Trajano
os costumes dos cristãos, menciona suas reuniões e também a prática de
realizarem refeições coletivas.
No final do século II, Tertuliano descreve a
refeição dos cristãos como uma manifestação do amor. Comia-se moderadamente,
bebia-se sem excesso e, ao final, havia oração.
Não se deve, contudo, transformar essa
sequência histórica em uma suposta linha direta entre os banquetes das
primeiras comunidades cristãs e a Ágape maçônica. Entre esses acontecimentos e
o nascimento da Maçonaria moderna existem muitos séculos, culturas e
transformações. A história exige cautela.
Muito antes do cristianismo, os gregos já
conheciam formas organizadas de convivência à mesa. O simpósio, que
normalmente sucedia a refeição, era dedicado ao vinho, à conversa, à música e à
poesia. Até o ato de beber obedecia a determinadas regras.
Não é necessário transformar o simpósio em uma
espécie de Ágape maçônica anterior à Maçonaria. A semelhança mais interessante
está simplesmente na percepção de que comer
e beber juntos pode ser uma atividade social organizada por normas e carregada
de significado comunitário.
DAS CORPORAÇÕES À LOJA ESPECULATIVA
Para encontrar documentos propriamente
maçônicos é necessário avançar muitos séculos.
Os registros da Loja de Edimburgo, Mary's
Chapel Nº 1, remontam a 1599 e estão entre os mais antigos documentos
preservados sobre a vida de uma Loja. Os Estatutos de Schaw, de 1598 e 1599,
também demonstram a existência de uma organização corporativa estruturada, com
obrigações, reuniões e hierarquias.
Nos registros das Lojas escocesas dos séculos
XVII e XVIII aparecem despesas relacionadas a refeições, cerveja e bebidas
destiladas. Ainda estamos diante das antigas Lojas operativas e dos primeiros
membros aceitos, mas já encontramos algo importante: comer e beber juntos fazia parte da vida
associativa da Loja.
Com as Lojas londrinas do início do século
XVIII aproximamo-nos da Maçonaria especulativa.
As reuniões aconteciam frequentemente em
tavernas e hospedarias. A conhecida Goose and Gridiron Ale-house, próxima à
Catedral de São Paulo, faz parte dessa história. A taverna, naquela época, não
era apenas um lugar para beber. Era também espaço de negócios, reuniões de
associações, conversas e refeições.
Em 1723, James Anderson publicou as Constitutions of the Free-Masons.
Entre suas normas de comportamento havia uma orientação para o período
posterior ao encerramento da Loja. Os Irmãos poderiam permanecer juntos, comer,
beber e desfrutar de uma convivência alegre, mas sem excessos.
A recomendação é significativa: ninguém deveria
ser obrigado a comer, beber ou permanecer além de sua vontade.
O banquete, portanto, fazia parte da
sociabilidade maçônica, mas ainda não possuía necessariamente todas as
características ritualísticas que surgiriam posteriormente.
QUANDO A MESA SE TORNA RITUAL
Ao longo do século XVIII, principalmente na
França, os chamados Trabalhos
de Mesa passaram a adquirir formas mais definidas. Brindes,
palavras de ordem, gestos e baterias foram incorporados a determinadas
práticas.
Os copos passaram a receber denominações
simbólicas, assim como o vinho e a água. O ato de beber podia seguir comandos e
tempos determinados.
A refeição deixava de ser simplesmente uma
continuação informal da reunião e adquiria uma dimensão cerimonial.
É importante, entretanto, distinguir a Ágape ritual de uma
simples refeição realizada entre Maçons depois dos Trabalhos. Nem toda
confraternização é um Trabalho de Mesa. Em alguns sistemas, lugares, brindes,
gestos e procedimentos são previamente estabelecidos. Em outros, a refeição é
simplesmente uma oportunidade de convivência.
Essa distinção é importante porque evita
transformar qualquer jantar maçônico em um ato ritualístico.
Na Ágape, entretanto, existe algo
particularmente significativo: o Aprendiz também pode sentar-se à mesa. Pouco
antes, no Templo, talvez tenha permanecido em silêncio, observando e
aprendendo. À mesa, encontra-se próximo daquele que ocupava o Oriente ou exercia
uma função de autoridade.
O grau não desaparece, mas a distância social
diminui.
Durante os Trabalhos, a palavra percorre o
Templo segundo regras determinadas. À mesa, alguém pode simplesmente pedir ao
Mestre Venerável que lhe passe o pão.
Essa aparente simplicidade contém uma poderosa
lição.
O DIFÍCIL OFÍCIO DA FRATERNIDADE
Sentar-se à mesma mesa não garante
fraternidade.
É possível dividir o pão com alguém de quem não
gostamos, brindar com essa pessoa e, no dia seguinte, continuar exatamente com
a mesma antipatia.
Também é possível passar anos pertencendo à
mesma Loja, participar dos mesmos grupos de mensagens e conhecer muito pouco
verdadeiramente aqueles que estão ao nosso lado.
A Ágape oferece uma oportunidade diferente.
Durante os Trabalhos, podemos discordar de um
Irmão sobre uma questão ritual, administrativa ou filosófica. À mesa,
entretanto, podemos descobrir que existe uma pessoa por trás daquela opinião.
Talvez ele tenha dormido pouco. Talvez esteja
enfrentando dificuldades familiares. Talvez tenha um filho doente, problemas
financeiros, preocupações profissionais ou simplesmente esteja atravessando uma
fase difícil da vida.
Às vezes, basta uma conversa para descobrirmos
que discutimos durante meses com alguém que, na realidade, conhecíamos muito
pouco.
A Maçonaria reúne homens de diferentes idades,
profissões, formações, condições econômicas e maneiras de pensar. Essas
diferenças não desaparecem durante a Ágape. E nem precisam desaparecer.
A fraternidade não consiste em pensar todos da
mesma maneira.
Consiste em aprender a conviver respeitosamente mesmo quando pensamos
de maneira diferente.
O pão, o sal e o vinho acompanham há séculos
diferentes tradições de hospitalidade e de convivência. O vinho,
particularmente, recebeu inúmeras interpretações simbólicas ao longo da
história. Mas é preciso cuidado para não transformar todas essas tradições em
uma única genealogia simbólica.
Na Ágape, o vinho pode acompanhar o brinde, mas
não é ele que produz fraternidade.
O álcool não transforma ninguém em irmão. O
ritual também não faz isso automaticamente.
A fraternidade é uma construção pessoal.
O Mestre Venerável continua sendo Mestre
Venerável à mesa. O Irmão que ocupava uma importante função continua tendo sua
responsabilidade. Mas todos precisam lidar com coisas simples: esperar, ouvir,
compartilhar, pedir, agradecer e respeitar.
O homem que pouco antes segurava o malhete
pode, minutos depois, estar simplesmente pedindo que lhe passem o pão.
É justamente nessa simplicidade que existe uma
das grandes forças da Ágape.
DA MATÉRIA AO ESPÍRITO
Para quem observa a Maçonaria de fora, uma
refeição entre Maçons poderia parecer apenas uma reunião de amigos depois de
uma cerimônia.
Mas reduzir a Ágape a isso significa ignorar
sua dimensão simbólica e educativa.
O alimento material pode tornar-se oportunidade
para um alimento espiritual: a
convivência.
O verdadeiro banquete maçônico não está apenas
no que é colocado sobre a mesa, mas naquilo que os homens são capazes de
construir ao redor dela.
O Templo termina, os paramentos são retirados,
os instrumentos simbólicos são guardados. Entretanto, os homens continuam
juntos por mais algum tempo.
É uma espécie de passagem entre dois mundos:
deixamos o espaço ritual, mas ainda não retornamos completamente à vida
profana.
E talvez seja justamente nesse intervalo que a
fraternidade seja mais exigida.
Porque no Templo todos conhecem suas funções,
suas posições e seus deveres. À mesa, resta o homem.
E o homem pode ser impaciente, orgulhoso,
vaidoso, generoso, solidário ou intolerante.
A Ágape não elimina essas características. Ela
apenas cria uma oportunidade para que cada um perceba a si mesmo e ao outro de
maneira diferente.
Por isso, talvez o verdadeiro desafio da Ágape
não seja saber brindar corretamente, conhecer todas as fórmulas ou cumprir
perfeitamente os gestos ritualísticos.
O verdadeiro desafio é muito mais simples e,
justamente por isso, muito mais difícil:
sentar-se ao lado de
alguém que pensa diferente, ouvi-lo com respeito, compartilhar o pão e sair da
mesa um pouco mais próximo daquele Irmão do que estava quando chegou.
Quando isso acontece, a refeição deixa de ser
apenas alimento.
Transforma-se em fraternidade.
E talvez seja esse o verdadeiro “alimento dos
deuses”: não o vinho, não o banquete, não a cerimônia, mas a capacidade humana
de transformar convivência em compreensão, diferença em respeito e presença em
verdadeira fraternidade.
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