Da Redação
A Maçonaria convive há séculos com uma imagem
cercada de contradições. Para alguns, é excessivamente secreta; para outros,
demasiadamente presente. Há quem a considere elitista, antiquada, obscura,
influente ou até mesmo ultrapassada. Nas redes sociais, não faltam também
teorias e interpretações fantasiosas sobre seus objetivos e sua atuação.
Diante desse cenário, surge uma pergunta
recorrente: como melhorar
a imagem da Maçonaria perante a sociedade?
Talvez a resposta esteja justamente em uma
mudança de perspectiva. A imagem de uma instituição não se constrói apenas por
meio da comunicação. Ela é construída, sobretudo, pelo comportamento daqueles
que dela fazem parte.
Coerência entre discurso e prática
A primeira providência talvez seja também a
mais simples de compreender e uma das mais difíceis de colocar em prática: ser coerente.
É possível produzir excelentes comunicados,
promover palestras, abrir as portas de templos para determinados eventos e
explicar repetidamente que a Maçonaria defende a liberdade, a fraternidade, a
tolerância e o aperfeiçoamento do ser humano.
Mas se, internamente, predominarem conflitos de
ego, disputas de poder, rivalidades entre organizações, vaidades pessoais ou
comportamentos pouco fraternos, será justamente isso que permanecerá na memória
daqueles que observam a instituição.
Não é possível pedir à sociedade que acredite
na fraternidade maçônica se os próprios maçons não conseguem praticá-la entre
si.
A melhor comunicação institucional perde força
quando contradita pelo comportamento cotidiano.
Discrição não precisa significar opacidade
Outro desafio está em encontrar o equilíbrio
entre discrição e
transparência.
A Maçonaria possui uma dimensão iniciática e
simbólica que faz parte de sua própria natureza. Nem tudo precisa ou deve ser
exposto publicamente. Isso, entretanto, não significa que a instituição precise
permanecer em silêncio sobre todos os demais aspectos de sua existência.
Explicar de maneira simples o que é uma Loja,
como ela funciona, por que uma pessoa decide ingressar, o que busca encontrar
naquele ambiente e, principalmente, o que não encontrará ali, poderia
contribuir significativamente para diminuir muitos dos equívocos existentes.
O problema não está necessariamente no segredo.
O problema começa quando o silêncio deixa um espaço vazio que acaba sendo
preenchido por especulações.
Quando uma instituição não explica aquilo que
pode explicar, outras pessoas acabam fazendo isso por ela — muitas vezes de
maneira equivocada.
Uma linguagem que possa ser compreendida
A forma de comunicação também merece atenção.
Quando a Maçonaria utiliza uma linguagem
excessivamente codificada, solene ou repleta de expressões compreensíveis
apenas por seus próprios integrantes, pode transmitir a impressão de estar
falando exclusivamente para si mesma.
Não há necessidade de abandonar a tradição ou a
riqueza simbólica da linguagem maçônica. Mas é possível explicar conceitos
complexos de maneira simples.
Falar em aperfeiçoamento
pessoal, por exemplo, pode ser mais compreensível para o
público do que recorrer constantemente a expressões que exigem conhecimento
prévio da terminologia maçônica.
Explicar o funcionamento de uma reunião de Loja
pode ser mais esclarecedor do que simplesmente alimentar o mistério em torno
dela.
Ser acessível não
significa ser banal.
Mostrar aquilo que a Maçonaria produz
A sociedade conhece relativamente bem alguns
elementos visuais associados à Maçonaria: símbolos, aventais, templos,
esquadros, compassos e outros objetos que frequentemente aparecem nas redes
sociais.
Entretanto, existe uma parte muito menos
conhecida: o que os maçons
efetivamente discutem e produzem intelectualmente dentro de suas Lojas.
Há espaço para reflexões sobre ética, educação,
liberdade de consciência, transmissão do conhecimento, tecnologia, inteligência
artificial, envelhecimento, solidão, relações humanas e as profundas
transformações pelas quais passa a sociedade contemporânea.
Não se trata de apresentar a Maçonaria como
dona da verdade ou como portadora de uma doutrina para a sociedade.
Trata-se simplesmente de mostrar que uma Loja
pode continuar sendo um espaço dedicado à reflexão, ao estudo, ao diálogo e ao
desenvolvimento intelectual e moral de seus integrantes.
Em um mundo dominado pela velocidade das redes
sociais, talvez seja justamente essa capacidade de parar, pensar, ouvir e refletir
que constitua uma das contribuições mais interessantes que a Maçonaria pode
oferecer.
Visibilidade não é publicidade
Também é necessário estabelecer uma diferença
entre tornar-se visível e
transformar-se em uma marca.
A Maçonaria não precisa ser vendida como um
produto. Não precisa disputar espaço publicitário como uma empresa ou tentar
convencer todos de que participar de uma Loja é uma experiência extraordinária.
Mas pode estar presente na sociedade.
Participação em eventos culturais, preservação
do patrimônio histórico, palestras abertas, feiras de livros, projetos
educacionais, ações sociais e publicações acessíveis são formas legítimas de
permitir que as pessoas conheçam a instituição diretamente.
Quanto maior for o contato real com a
Maçonaria, menor tende a ser a dependência de informações obtidas por meio de
documentários sensacionalistas, vídeos conspiratórios ou publicações nas redes
sociais.
A visibilidade, nesse sentido, deveria servir à compreensão, e não à sedução.
Saber ouvir as críticas
Melhorar a imagem também exige uma atitude
difícil: aceitar críticas.
É verdade que muitas acusações dirigidas à
Maçonaria são baseadas em preconceitos, informações falsas ou teorias
conspiratórias. Mas isso não significa que toda crítica seja necessariamente
injusta.
Existem questionamentos que podem merecer
reflexão: estruturas excessivamente burocráticas, dificuldades de renovação,
linguagem antiquada, problemas de comunicação, falta de transparência em
determinados aspectos ou resistência a mudanças.
Uma instituição que considera toda crítica um
ataque acaba perdendo a oportunidade de identificar seus próprios problemas.
Reconhecer que determinado aspecto pode ser
melhorado não diminui a Maçonaria. Ao contrário, pode demonstrar maturidade.
Às vezes, uma das manifestações mais fortes de
confiança institucional é simplesmente dizer:
“Neste ponto, podemos
fazer melhor.”
O desafio das redes sociais
As redes sociais representam uma oportunidade
extraordinária, mas também uma armadilha.
Elas permitem divulgar história, cultura,
eventos, projetos, estudos e ações sociais. Podem aproximar a Maçonaria de
pessoas que jamais tiveram contato direto com uma Loja.
Por outro lado, existe o risco de reduzir uma
instituição complexa a uma coleção de fotografias, símbolos, frases
supostamente profundas e disputas públicas entre integrantes.
Uma fotografia de um avental ou de um templo
pode despertar curiosidade.
Mas é a explicação
que possibilita a compreensão.
O símbolo chama a atenção. O conteúdo é que
pode transformar essa atenção em conhecimento.
Por isso, talvez seja mais importante produzir
conteúdo que explique do que simplesmente publicar imagens que reforcem o
imaginário já existente.
Cada maçom também representa a instituição
Existe, entretanto, um aspecto que nenhuma
estratégia de comunicação consegue substituir.
Cada maçom contribui,
voluntária ou involuntariamente, para a imagem da Maçonaria.
Um comportamento arrogante, injusto,
desrespeitoso ou oportunista pode destruir rapidamente uma impressão positiva
que levou anos para ser construída.
Da mesma forma, uma pessoa que sabe ouvir,
respeitar opiniões diferentes, cumprir sua palavra, agir com equilíbrio e
tratar os outros com dignidade pode oferecer, sem fazer qualquer discurso, uma
das melhores demonstrações possíveis dos princípios que a Maçonaria afirma
defender.
Não é necessário anunciar a própria condição de
maçom em todas as situações.
Em muitos casos, o exemplo fala mais alto do que a
identificação.
Menos preocupação em agradar, mais compromisso
em ser compreendida
Talvez a pergunta mais adequada não seja:
“Como podemos fazer com
que a sociedade goste mais da Maçonaria?”
A Maçonaria não precisa agradar a todos.
Uma instituição que possui uma história tão
longa, uma tradição própria e uma proposta iniciática naturalmente será objeto
de diferentes interpretações.
A questão mais importante talvez seja outra:
Como podemos fazer com
que a Maçonaria seja compreendida de maneira mais correta?
Isso exige coerência, clareza, abertura para o
diálogo e disposição para reconhecer erros.
Significa menos mistério artificial e mais
educação.
Menos comunicação institucional vazia e mais
encontros com a sociedade.
Menos competição entre organizações e mais
respeito.
Menos discursos sobre fraternidade e mais
fraternidade efetivamente praticada.
A melhor comunicação ainda pode ser o exemplo
No fim das contas, talvez a imagem da Maçonaria
não precise de uma grande campanha de marketing.
Talvez precise simplesmente de mais coerência
entre aquilo que ensina e aquilo que pratica.
Se a Maçonaria deseja ser reconhecida como uma
instituição dedicada à fraternidade, seus integrantes precisam demonstrar
fraternidade.
Se fala em tolerância, precisa saber conviver
com as diferenças.
Se valoriza o conhecimento, precisa incentivar
o estudo.
Se defende a liberdade de consciência, precisa
respeitar a consciência alheia.
Se pretende contribuir para o aperfeiçoamento
humano, precisa começar pelo próprio aperfeiçoamento.
A imagem pública de uma instituição é
construída diariamente, muitas vezes longe das câmeras, dos comunicados
oficiais e das redes sociais.
Por isso, talvez a melhor estratégia para
melhorar a imagem da Maçonaria seja justamente parar de tentar “vendê-la”.
Em vez de convencer a sociedade sobre aquilo
que a Maçonaria afirma ser, talvez seja mais importante simplesmente vivenciar aquilo que ela diz defender.
Porque, no final, a melhor campanha de
comunicação maçônica pode continuar sendo aquela que sempre esteve ao alcance
de cada Irmão:
o próprio
comportamento.
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