Réencantar o Mundo: o Desafio de Tornar a Sociedade Novamente Habitável


Da Redação

Em sua edição nº 352, a revista Humanisme propõe uma reflexão sobre o papel da Maçonaria diante de uma sociedade marcada pela polarização, pela perda da confiança e pelo enfraquecimento dos vínculos coletivos

Em uma época marcada por conflitos políticos, intolerância, radicalização dos discursos e crescente dificuldade de diálogo, falar em “réenchantement” — ou reencantamento — pode parecer, à primeira vista, uma proposta utópica. Mas é justamente esse o desafio colocado pela edição nº 352 da revista Humanisme, publicação ligada ao Grande Oriente de França.

A proposta não significa voltar a um passado idealizado nem criar ilusões para esconder os problemas do presente. O reencantamento, na perspectiva apresentada pela revista, consiste em recuperar aquilo que permite aos seres humanos acreditar novamente na possibilidade de construir um mundo comum: a fraternidade, o diálogo, a memória, a esperança, a cultura e a capacidade de imaginar um futuro compartilhado.

A edição procura demonstrar que a razão, embora indispensável, não é suficiente para sustentar uma sociedade. É preciso também criar vínculos, produzir sentido e oferecer aos cidadãos motivos para acreditar que viver juntos continua sendo possível.

A armadilha da pureza

Um dos pontos centrais da reflexão está na crítica à busca da “pureza”. Ao longo da história, diferentes movimentos políticos, religiosos e ideológicos foram tentados pela ideia de que existiria uma única maneira correta de pensar e de organizar a sociedade.

Quando uma convicção deixa de ser uma posição aberta ao debate e passa a ser considerada uma verdade absoluta, surge o risco da exclusão.

A Maçonaria encontra nessa questão um importante paralelo com seu próprio método iniciático. O trabalho sobre a “pedra bruta” não consiste em eliminar aquilo que é diferente ou imperfeito, mas em trabalhar continuamente sobre si mesmo.

O maçom não é chamado a construir uma identidade perfeita, mas a aperfeiçoar-se por meio da reflexão, do conhecimento e do contato com o outro.

Nesse sentido, a tolerância não significa ausência de princípios. Significa reconhecer que ninguém possui sozinho toda a verdade.

A democracia precisa reaprender a dialogar

Outro aspecto destacado pela Humanisme é a crise do debate democrático.

As redes sociais modificaram profundamente a maneira como as pessoas se relacionam com a informação e com as opiniões diferentes das suas. A velocidade das mensagens favorece reações imediatas, enquanto os algoritmos tendem a aproximar pessoas que pensam de maneira semelhante.

O resultado pode ser uma sociedade na qual cada grupo vive dentro de sua própria realidade.

Nesse cenário, o exercício maçônico da palavra e da escuta ganha uma dimensão particularmente atual.

Uma Loja não deveria ser apenas um lugar onde indivíduos que pensam de maneira semelhante se reúnem. Ela pode ser, antes de tudo, um espaço para aprender a ouvir, argumentar, discordar e, principalmente, refletir sobre as próprias convicções.

A democracia, assim como o trabalho maçônico, exige disciplina.

Não basta ter o direito de falar. É necessário também desenvolver a capacidade de ouvir.

Reencantar sem mentir

Talvez uma das ideias mais interessantes do tema seja a necessidade de “reencantar sem mentir”.

Uma sociedade cansada de conflitos pode ser facilmente atraída por discursos que oferecem respostas simples para problemas complexos. Teorias conspiratórias, nacionalismos extremos, fundamentalismos e diferentes formas de radicalismo podem prosperar justamente porque oferecem narrativas capazes de preencher o vazio deixado pela perda de referências.

O problema não está na necessidade humana de acreditar em algo maior. O problema surge quando esse desejo é explorado por aqueles que oferecem certezas absolutas e inimigos convenientes.

O verdadeiro reencantamento seria diferente.

Ele não precisaria negar a realidade, mas encontrar dentro dela razões para continuar construindo.

Para a Maçonaria, os símbolos podem cumprir justamente essa função. O símbolo não precisa ser confundido com uma explicação literal do mundo. Ele pode funcionar como instrumento de reflexão, permitindo que o indivíduo encontre novos significados para sua própria existência.

Fraternidade: uma palavra que continua atual

A revista também aborda o debate em torno do conceito de fraternidade e de propostas como o termo “adelphidade”, utilizado para tentar expressar de maneira mais abrangente a relação entre homens e mulheres.

Mais do que uma discussão linguística, trata-se de uma questão sobre o significado dos símbolos.

Na tradição maçônica, chamar alguém de Irmão ou Irmã não representa simplesmente uma relação biológica. Trata-se de assumir um compromisso moral.

A fraternidade pressupõe responsabilidade pelo outro.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja qual palavra devemos utilizar, mas se somos capazes de praticar aquilo que a palavra representa.

De pouco adianta alterar o vocabulário se as relações continuarem marcadas pela intolerância, pelo preconceito, pela disputa de poder ou pela indiferença.

Um símbolo permanece vivo quando produz comportamento.

A memória também constrói o futuro

Outro caminho percorrido pela edição de Humanisme passa pela História.

A reflexão sobre Marc Bloch, o rei Salomão e a lenda de Hiram demonstra como a memória humana não é formada apenas por acontecimentos comprováveis. As sociedades também constroem sua identidade por meio de narrativas, mitos e símbolos.

Para o historiador, uma lenda não precisa ser um fato histórico para ser importante. Ela pode revelar aquilo que determinada sociedade deseja preservar, compreender ou transmitir.

Essa distinção é particularmente importante para a Maçonaria.

O valor de uma narrativa simbólica não depende necessariamente de sua comprovação histórica. Seu significado pode estar justamente na capacidade de provocar perguntas e estimular o aperfeiçoamento interior.

O mito, quando compreendido como símbolo, não precisa competir com a História.

São campos diferentes, capazes de dialogar.

Quando a mesa também é espaço de construção

A edição recupera ainda uma curiosa dimensão da vida política do passado: os banquetes republicanos.

A mesa aparece como espaço de convivência, aproximação e construção de relações.

A lembrança possui uma evidente correspondência com as tradicionais agapes maçônicas.

Depois do trabalho ritualístico, os Irmãos e as Irmãs sentam-se juntos. A formalidade diminui e a convivência ganha outra dimensão.

A comida compartilhada não elimina as diferenças, mas pode humanizar aqueles que discordam.

Em uma sociedade na qual adversários políticos frequentemente são tratados como inimigos, essa dimensão da convivência merece ser recuperada.

Talvez sentar-se à mesma mesa seja uma das formas mais antigas de lembrar que, apesar das diferenças, ainda pertencemos à mesma comunidade humana.

A Maçonaria diante de um mundo dividido

O grande mérito da reflexão proposta pela Humanisme está em não apresentar o reencantamento como uma fuga da realidade.

O mundo continuará tendo conflitos.

As democracias continuarão enfrentando crises.

As pessoas continuarão discordando.

O objetivo não deve ser eliminar o conflito, mas impedir que a divergência destrua a possibilidade de convivência.

É justamente nesse ponto que a experiência maçônica pode oferecer uma contribuição relevante.

O Templo simbólico representa uma construção coletiva. Nenhuma pedra, isoladamente, constitui uma obra completa. Cada elemento precisa encontrar seu lugar em relação aos demais.

Da mesma forma, uma sociedade não pode ser construída apenas por indivíduos que pensam exatamente da mesma maneira.

A diversidade é inevitável. A questão é saber transformá-la em força, e não em motivo permanente de ruptura.

Liberdade, igualdade e fraternidade

O tema do reencantamento também permite recuperar o significado profundo da conhecida tríade republicana: liberdade, igualdade e fraternidade.

A liberdade sem fraternidade pode transformar-se em individualismo.

A igualdade sem liberdade pode transformar-se em uniformidade.

E a fraternidade sem liberdade e igualdade pode transformar-se em espírito de grupo fechado.

O desafio está no equilíbrio.

A verdadeira fraternidade não exige que todos sejam iguais. Ela pressupõe justamente a capacidade de reconhecer o outro em sua diferença.

É por isso que o trabalho maçônico continua sendo, em essência, um trabalho sobre a convivência.

Tornar o mundo habitável

Talvez a principal mensagem da edição nº 352 de Humanisme possa ser resumida em uma pergunta:

Como tornar novamente habitável o mundo que construímos?

Não se trata apenas de preservar o planeta do ponto de vista ambiental. Trata-se também de preservar as condições humanas que tornam possível viver em sociedade.

Um mundo pode ser tecnologicamente avançado e, ao mesmo tempo, socialmente insuportável.

Pode possuir enorme quantidade de informação e produzir pouca sabedoria.

Pode permitir comunicação instantânea e, paradoxalmente, tornar o diálogo cada vez mais difícil.

Pode oferecer liberdade de expressão e, simultaneamente, produzir ambientes nos quais ninguém aceita ouvir o outro.

O reencantamento, portanto, não significa abandonar a razão.

Significa acrescentar à razão aquilo que também faz parte da experiência humana: sensibilidade, memória, esperança, solidariedade e fraternidade.

A construção continua

Para a Maçonaria, talvez exista uma conclusão particularmente simbólica.

O mundo não precisa ser perfeito para ser melhorado.

Assim como a pedra bruta não é descartada por apresentar imperfeições, a sociedade não deve ser abandonada porque apresenta contradições.

É preciso trabalhar.

Polir.

Construir.

Corrigir.

Recomeçar.

E, sobretudo, construir junto.

A luz que a tradição maçônica procura não é uma propriedade individual. Ela se torna mais significativa quando circula entre as pessoas.

Reencantar o mundo pode significar exatamente isso: recuperar a capacidade de acreditar que, apesar das diferenças, ainda podemos construir alguma coisa juntos.

Não um mundo sem conflitos, mas um mundo no qual o conflito não destrua a fraternidade.

Não uma sociedade baseada em certezas absolutas, mas uma sociedade capaz de conviver com perguntas.

Não um retorno ao passado, mas uma nova disposição para construir o futuro.

Porque tornar o mundo habitável talvez seja, em última análise, uma das formas mais concretas de continuar trabalhando na construção do Templo da Humanidade.

Fonte de referência: revista Humanisme nº 352, tema “Réenchantement, ou l’art maçonnique de rendre le monde habitable”, matéria publicada por 450.fm em 2 de setembro de 2026. (450.fm)

 



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