Da Redação
Na
década de 1960, um astrônomo usou um dos primeiros computadores da IBM para
tentar decifrar o enigma de Stonehenge. A teoria fascinou o mundo, mas acabou
sendo contestada pela arqueologia moderna.
Por
milhares de anos, Stonehenge permanece como um dos maiores enigmas da
pré-história europeia. O gigantesco conjunto de pedras erguido na planície de
Salisbury, no sul da Inglaterra, já foi interpretado como templo, local
funerário, espaço cerimonial e monumento relacionado aos movimentos do Sol e da
Lua.
Mas,
na década de 1960, surgiu uma hipótese especialmente ousada: Stonehenge poderia
ter sido uma espécie de computador pré-histórico, construído para acompanhar os
movimentos dos astros e até prever eclipses.
A
ideia foi apresentada pelo astrônomo britânico-americano Gerald Hawkins,
professor da Universidade de Boston. Em 1961, durante uma visita a Stonehenge,
Hawkins ficou intrigado com a maneira como os enormes blocos de pedra pareciam
enquadrar determinados pontos do horizonte.
A
pergunta que surgiu em sua mente era simples, mas revolucionária: e se aquelas
pedras não estivessem posicionadas apenas por razões religiosas ou simbólicas?
E se algumas delas tivessem sido organizadas deliberadamente para observar o
céu?
Quando
a tecnologia moderna encontrou um monumento pré-histórico
Hawkins
levou mapas e levantamentos de Stonehenge para os Estados Unidos e começou a
estudar matematicamente as posições das pedras, dos arcos, dos montes e dos
misteriosos buracos existentes ao redor do monumento.
Para
realizar os cálculos, contou com uma ferramenta que, para os padrões da época,
parecia tão extraordinária quanto o próprio Stonehenge: um computador
eletrônico IBM.
O
equipamento permitia calcular os movimentos que o Sol e a Lua teriam realizado
no céu há milhares de anos e verificar se determinadas estruturas do monumento
correspondiam a esses movimentos.
Os
resultados impressionaram Hawkins.
Ele
identificou diversos alinhamentos que, em sua interpretação, relacionavam
Stonehenge às posições do Sol e da Lua. O mais surpreendente estava relacionado
aos chamados buracos de Aubrey, um círculo de 56 cavidades que circunda a parte
central do monumento.
Para
Hawkins, os 56 buracos poderiam funcionar como uma espécie de mecanismo de
contagem. Com marcadores deslocados de uma posição para outra, seria possível
acompanhar ciclos lunares e antecipar determinadas ocorrências astronômicas.
Daí
surgiu a expressão que conquistaria o imaginário popular: Stonehenge seria um
“computador” construído milhares de anos antes da invenção da eletrônica.
O
livro que transformou uma hipótese em fenômeno mundial
A
teoria foi apresentada em trabalhos científicos e ganhou enorme repercussão com
o livro Stonehenge Decoded, publicado em 1965, de Gerald Hawkins com
colaboração de John B. White. O catálogo da Smithsonian Libraries registra a
obra e seus capítulos dedicados justamente à ideia de Stonehenge como uma
máquina astronômica.
Em
1966, Hawkins também apresentou sua interpretação ao público britânico por meio
do programa Chronicle, da BBC.
A
proposta era fascinante: povos que viveram há mais de 4.500 anos teriam
observado sistematicamente o céu, compreendido determinados ciclos astronômicos
e construído um gigantesco instrumento para acompanhá-los.
Hawkins
chegou a afirmar que Stonehenge estava “preso” aos movimentos do Sol e da Lua.
A
hipótese também tinha uma dimensão religiosa. Para aquelas sociedades
pré-históricas, o céu provavelmente possuía enorme importância simbólica. O Sol
e a Lua poderiam estar associados a divindades, ciclos da natureza, morte,
fertilidade e renovação.
Assim,
na interpretação de Hawkins, Stonehenge poderia ser simultaneamente templo e
observatório.
O
eclipse como instrumento de poder
A
hipótese tinha ainda uma consequência intrigante.
Se
os construtores de Stonehenge realmente fossem capazes de antecipar eclipses,
esse conhecimento poderia ter conferido enorme prestígio aos indivíduos que
dominassem os ciclos celestes.
Imagine
uma sociedade pré-histórica na qual quase ninguém compreendesse por que o Sol
desaparecia durante o dia ou por que a Lua assumia uma coloração avermelhada.
Um
pequeno grupo capaz de anunciar antecipadamente um desses fenômenos poderia
parecer possuir poderes sobrenaturais.
Foi
justamente essa possibilidade que tornou a teoria de Hawkins ainda mais
sedutora: o conhecimento astronômico poderia ter sido utilizado como
instrumento de autoridade por líderes religiosos ou sacerdotes.
Mas
os arqueólogos não estavam convencidos
A
teoria, entretanto, nunca foi aceita de maneira unânime.
Um
dos principais críticos foi o arqueólogo Richard Atkinson, especialista em
Stonehenge. Em uma análise publicada na revista Nature em 1966, Atkinson
questionou as conclusões de Hawkins.
O
problema estava, entre outras coisas, na interpretação estatística dos
alinhamentos.
Quando
um monumento possui centenas de pedras, buracos, eixos e estruturas, existem
muitas possibilidades de encontrar alinhamentos aparentemente significativos. A
questão fundamental é saber se essas correspondências foram planejadas pelos
construtores ou se algumas delas podem ocorrer simplesmente por acaso.
Também
havia dúvidas sobre os próprios 56 buracos de Aubrey. Alguns dos elementos
utilizados na interpretação de Hawkins não estavam necessariamente preservados
de forma suficientemente precisa para sustentar um mecanismo astronômico tão
sofisticado.
O
próprio desenvolvimento posterior da arqueologia tornou a hipótese ainda mais
problemática.
O
que sabemos hoje?
As
pesquisas realizadas nas últimas décadas modificaram profundamente nossa
compreensão de Stonehenge.
Segundo
o arqueólogo Michael Parker Pearson, citado pela BBC, atualmente sabemos que o
monumento não foi construído de uma única vez. Sua construção ocorreu em
diferentes etapas, ao longo de mais de 1.500 anos.
Essa
descoberta é importante porque enfraquece a imagem de Stonehenge como uma única
máquina cuidadosamente projetada de uma só vez.
Além
disso, os alinhamentos relacionados ao Sol e à Lua não possuem a precisão que
seria esperada de um instrumento astronômico destinado à medição rigorosa do
tempo.
Para
Parker Pearson, a ideia de um “computador” pré-histórico era uma metáfora
bastante atraente para a década de 1960, mas não representa adequadamente o que
hoje sabemos sobre o monumento.
Isso,
porém, não significa que Stonehenge não tivesse relação com o céu.
Muito
pelo contrário.
Pesquisas
arqueológicas reconhecem a importância dos movimentos solares e lunares para a
compreensão do monumento. O que mudou foi a interpretação: em vez de imaginar
uma máquina de cálculo astronômico extremamente precisa, os pesquisadores
tendem a enxergar Stonehenge como parte de um complexo sistema ritual e
cultural no qual os fenômenos celestes tinham profundo significado.
A
tecnologia estava na cabeça — não necessariamente nas pedras
A
história da teoria de Gerald Hawkins revela algo interessante.
Nos
anos 1960, o computador era símbolo máximo da modernidade. A humanidade
começava a entrar na era da computação eletrônica, e Hawkins utilizou
justamente essa nova tecnologia para tentar compreender uma construção com
milhares de anos.
O
resultado produziu uma espécie de encontro entre duas eras: o computador
eletrônico do século XX tentando decifrar o possível conhecimento astronômico
da pré-história.
A
metáfora era irresistível.
Mas
talvez a grande contribuição de Hawkins não tenha sido provar que Stonehenge
era um computador.
Foi
demonstrar que os construtores do monumento mereciam ser vistos como
observadores atentos do mundo natural.
A
pesquisa astronômica de Hawkins foi publicada na Nature em 1963 e 1964,
incluindo o trabalho intitulado Stonehenge: A Neolithic Computer.
O
mistério permanece
Hoje,
a expressão “computador pré-histórico” é considerada inadequada para explicar
Stonehenge. A própria Historic England observa que interpretações como a de
Stonehenge como “computador” fazem parte de uma longa lista de teorias que
tentaram explicar o monumento.
Mas
a hipótese de Hawkins continua fascinante.
Ela
mostra como cada geração interpreta Stonehenge à luz de seus próprios
conhecimentos e de sua própria tecnologia.
No
século XVIII, o monumento foi associado aos druidas. No início do século XX,
ganhou força a ideia de um observatório astronômico. Na década de 1960,
tornou-se um “computador”. Hoje, a arqueologia procura compreender Stonehenge
como um monumento complexo, construído em diferentes momentos e relacionado a
práticas sociais, funerárias, cerimoniais e à observação dos ciclos celestes.
Talvez
seja justamente essa capacidade de provocar novas perguntas que explique sua
permanência.
Stonehenge
continua imóvel.
Mas
cada geração encontra nele uma nova maneira de olhar para o passado — e, de
certa forma, para si mesma.
UM
COMPUTADOR SEM ELETRICIDADE?
A
ideia de Stonehenge como computador não deve ser entendida no sentido moderno
da palavra.
Hawkins
utilizava “computador” para descrever um sistema físico capaz de representar
ciclos e relações astronômicas. Não havia eletricidade, software ou
processamento digital.
Havia
pedras, posições, movimentos e observação.
Seus
críticos rejeitaram a conclusão de que esse sistema pudesse realmente prever
eclipses com a precisão sugerida. Ainda assim, a hipótese teve enorme
importância na história da arqueoastronomia e ajudou a estimular novas
investigações sobre a relação entre os monumentos antigos e o céu.
No
fim, o verdadeiro mistério de Stonehenge talvez não seja descobrir se ele era
um computador.
É
compreender por que seres humanos há milhares de anos dedicaram tanto esforço
para construir algo que ainda hoje nos obriga a olhar para o céu.

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