Por
Luiz Sérgio Castro | O Malhete
Há
histórias antigas que continuam surpreendentemente atuais. Uma delas é a do Rei
Macaco, Sun Wukong, personagem central de Jornada ao Oeste, clássico da
literatura chinesa atribuído a Wu Cheng'en.
Em
uma das passagens mais conhecidas da narrativa, o macaco desafia o Buda.
Convencido de que seus poderes são praticamente ilimitados, Wukong aposta que
consegue saltar para fora da palma da mão de Buda.
Ele
salta. Viaja por uma distância que acredita ser inimaginável e encontra cinco
enormes colunas. Convencido de que chegou aos limites do mundo, deixa uma
inscrição em uma delas para provar que esteve ali. Depois retorna, orgulhoso de
sua façanha.
Então
Buda abre a mão.
As
cinco colunas estavam ali mesmo: eram os dedos de sua própria mão.
A
história costuma ser interpretada como uma advertência contra a arrogância. Mas
há outra possibilidade de leitura, especialmente interessante quando pensamos
no mundo contemporâneo: o problema do macaco não estava em sua falta de
inteligência, força ou método. Estava na impossibilidade de perceber o limite a
partir de dentro do próprio sistema que tentava medir.
O
limite que não conseguimos enxergar
Wukong
realizou aquilo que considerava uma investigação rigorosa. Ele percorreu uma
distância, encontrou aquilo que parecia ser o fim do caminho, deixou uma marca
e voltou para apresentar sua prova.
Tudo
parecia perfeitamente lógico.
O
erro estava na referência.
Ele
acreditava estar observando o mundo de fora, quando, na realidade, continuava
dentro daquilo que pretendia medir.
Essa
questão ultrapassa a antiga narrativa chinesa e chega diretamente ao homem
moderno.
Até
que ponto conseguimos compreender os limites de nossas próprias ferramentas?
E,
principalmente, o que acontece quando começamos a entregar às máquinas não
apenas tarefas, mas também parte do processo pelo qual decidimos o que é
importante?
Da
pedra bruta ao algoritmo
A
Maçonaria oferece uma metáfora particularmente poderosa para essa discussão: a
pedra bruta.
O
iniciado recebe simbolicamente uma matéria que precisa ser trabalhada. O
objetivo não é acrescentar indefinidamente elementos à pedra, mas retirar
aquilo que impede que sua forma apareça.
É
um processo de construção realizado pela subtração.
O
trabalho do maçom, nessa perspectiva, não consiste apenas em acumular
conhecimento. Consiste também em reconhecer aquilo que precisa ser eliminado:
preconceitos, vícios, certezas precipitadas, ilusões e limitações pessoais.
A
pedra não fala ao maçom qual parte deve ser retirada.
É
ele quem precisa decidir.
E
é justamente aí que aparece uma questão contemporânea provocada pela
inteligência artificial.
Quem
segura o cinzel?
Durante
séculos, o ser humano criou ferramentas para ampliar suas capacidades.
A
escrita permitiu armazenar informações fora da memória individual. As
bibliotecas ampliaram a capacidade de preservar conhecimento. As calculadoras
transferiram para as máquinas operações matemáticas que antes dependiam do
cérebro humano.
Em
todos esses casos, entretanto, permanecia relativamente claro aquilo que cabia
ao homem decidir.
Com
a inteligência artificial, a fronteira começa a ficar menos evidente.
Sistemas
capazes de escrever, resumir, traduzir, produzir imagens, analisar documentos,
sugerir soluções e organizar informações podem executar uma parte cada vez
maior do trabalho intelectual.
A
questão, portanto, não é simplesmente saber se a inteligência artificial
"pensa".
Uma
pergunta talvez mais importante seja:
quem
decide o que deve ser retirado, escolhido, descartado ou preservado?
Essa
é uma questão de poder, mas também de responsabilidade.
A
ilusão da neutralidade
É
comum afirmar que uma ferramenta é neutra e que tudo depende da maneira como
ela é utilizada.
Há
verdade nessa afirmação, mas ela pode ser insuficiente.
Uma
ferramenta que mostra ao usuário aquilo que está fazendo permite contestação.
Outra que simplesmente apresenta o resultado final pode esconder o caminho
percorrido.
Imagine
dois sistemas de correção de textos.
O
primeiro aponta uma possível falha e permite que o autor decida se deseja
alterá-la.
O
segundo modifica automaticamente o texto e apresenta apenas a versão final.
Os
dois podem produzir resultados semelhantes. Mas a experiência intelectual do
usuário é diferente.
No
primeiro caso, a pessoa continua sendo chamada a julgar.
No
segundo, existe o risco de simplesmente aceitar.
A
diferença parece pequena, mas pode ser decisiva.
A
inteligência artificial e a "pedra bruta"
A
metáfora maçônica ajuda a compreender esse problema.
O
trabalho sobre a pedra exige consciência.
Não
basta retirar material. É preciso saber por que determinado fragmento deve ser
retirado e qual consequência terá sua remoção.
Se
entregarmos essa decisão integralmente a uma ferramenta, poderemos obter uma
pedra perfeitamente polida sem compreender o processo que a transformou.
Teremos
o resultado.
Mas
teremos adquirido conhecimento?
Essa
é uma das grandes perguntas que a inteligência artificial coloca diante da
educação, da cultura e da própria formação humana.
Uma
máquina pode ajudar o homem a trabalhar sua pedra.
Mas
será que devemos permitir que ela escolha sozinha qual parte da pedra precisa
desaparecer?
O
problema de Wukong continua conosco
O
Rei Macaco acreditava ter encontrado as colunas que sustentavam os limites do
mundo.
Na
realidade, estava dentro da palma da mão de Buda.
A
força da história está justamente nessa inversão.
Ele
não era incapaz.
Era
incapaz de perceber a posição que ocupava dentro do sistema que estava tentando
compreender.
Essa
situação também pode acontecer conosco.
Podemos
utilizar ferramentas extremamente sofisticadas, receber respostas rápidas e
aparentemente precisas e, ainda assim, não perceber aquilo que ficou fora da
resposta.
A
ausência de uma informação pode ser tão importante quanto a informação
apresentada.
E
isso nos conduz novamente à pergunta central:
o
que foi retirado antes que a resposta chegasse até nós?
A
Maçonaria diante de uma nova ferramenta
A
tradição maçônica sempre atribuiu grande importância ao aperfeiçoamento
individual, ao estudo, à reflexão e ao exercício do discernimento.
Por
isso, a chegada da inteligência artificial pode ser encarada não apenas como
uma ameaça ou como uma maravilha tecnológica, mas como mais uma ferramenta
diante da qual o homem precisa exercer sua capacidade de julgamento.
A
questão não é rejeitar a tecnologia.
Também
não é aceitá-la de maneira ingênua.
É
compreender o que estamos delegando.
Podemos
delegar cálculos.
Podemos
delegar armazenamento.
Podemos
delegar tarefas repetitivas.
Podemos
utilizar máquinas para organizar grandes volumes de informação.
Mas
existe uma diferença entre delegar uma operação e delegar o julgamento sobre
aquilo que deve ser feito.
Talvez
seja justamente aí que esteja uma das grandes tarefas intelectuais do nosso
tempo.
Ainda
precisamos segurar o cinzel
A
história do macaco que tentou ultrapassar as colunas de Buda termina com uma
lição que permanece atual: nem sempre a maior dificuldade está em alcançar uma
distância maior.
Às
vezes, está em perceber onde realmente estamos.
A
inteligência artificial poderá ampliar enormemente nossas capacidades. Mas
quanto mais poderosa for a ferramenta, maior será a necessidade de compreender
seus limites.
Na
oficina simbólica, o maçom trabalha a pedra com o cinzel nas próprias mãos.
A
ferramenta pode ajudar.
O
trabalho pode ser facilitado.
O
conhecimento pode ser ampliado.
Mas
a decisão sobre o que deve ser retirado continua sendo essencialmente humana.
Talvez
essa seja a verdadeira lição escondida entre as cinco colunas e a palma da mão
de Buda:
não
basta chegar mais longe. É preciso saber quem está segurando o cinzel.
Fonte de inspiração: artigo "Dans la paume du monde : le singe qui
marqua les colonnes", de Julien Cartier, publicado pelo 450.fm em 17 de
setembro de 2026. (450.fm)
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