Da Redação
Para
a Maçonaria, a morte não representa necessariamente um fim, mas uma passagem. O
adeus a um irmão se transforma em reflexão sobre fraternidade, memória e a
responsabilidade de continuar praticando o bem.
Uma
loja maçônica é um espaço marcado por símbolos. Cada objeto, cada gesto e cada
cerimônia possui um significado que ultrapassa o momento em que é realizado. A
fraternidade, o serviço, a disciplina e a busca pelo aperfeiçoamento pessoal
fazem parte de uma tradição que procura ensinar que os valores aprendidos no
templo devem ser levados para a vida.
Entre
esses símbolos está a corrente de união, formada pelos irmãos de uma Loja. Seus
elos representam a fraternidade e a ligação que existe entre aqueles que
compartilham os mesmos princípios.
Em
um domingo de despedida, porém, essa corrente sofre uma ruptura.
A
Loja está vestida de branco. As velas são acesas, o incenso é queimado, as
orações são pronunciadas e os aventais permanecem preparados. Os irmãos se
reúnem para prestar sua última homenagem a um homem que partiu para o chamado Eterno
Oriente, expressão tradicionalmente utilizada na Maçonaria para designar a
morte.
A
cerimônia é solene e carregada de simbolismo.
Em
determinado momento, acontece uma das passagens mais marcantes: os irmãos batem
três vezes no caixão e chamam pelo irmão que partiu.
Mas
não há resposta.
O
silêncio evidencia aquilo que todos já sabem. Um dos elos da corrente deixou de
estar fisicamente presente.
A
ausência que permanece
A
morte abre uma lacuna na comunidade. Porém, para a tradição maçônica, a
ausência física não significa necessariamente desaparecimento.
Permanecem
o nome, as lembranças, as palavras, os ensinamentos e, principalmente, os
exemplos deixados ao longo da vida.
Uma
boa ação praticada por um homem pode inspirar outro. Um gesto de solidariedade
pode ser repetido. Uma palavra de fraternidade pode continuar sendo
transmitida. Dessa maneira, aquele que partiu permanece presente naquilo que
ensinou e inspirou.
Essa
talvez seja uma das dimensões mais profundas de uma cerimônia fúnebre maçônica:
lembrar que a vida de cada pessoa também se prolonga nas consequências de seus
atos.
Fazer
o bem não transforma apenas aquele que recebe a ajuda. Também transforma quem
pratica a ação.
A
força de uma comunidade
O
relato sobre a cerimônia ganha ainda outro significado quando situado na
realidade cubana.
Em
uma sociedade na qual muitos espaços tradicionais de encontro e pertencimento
foram desaparecendo ou se enfraquecendo ao longo do tempo, uma Loja maçônica
pode representar algo aparentemente simples, mas cada vez mais valioso: uma
comunidade.
Um
espaço onde homens se encontram, reconhecem-se como irmãos e assumem
responsabilidades uns pelos outros.
Nesse
ambiente, a fraternidade deixa de ser apenas uma palavra ou um conceito
abstrato. Ela se manifesta na presença, na solidariedade e na disposição de
apoiar aquele que necessita.
A
morte de um irmão, portanto, não é apenas uma despedida individual. É também um
momento em que a própria comunidade é chamada a refletir sobre seus vínculos.
O
direito de decidir
Nos
últimos meses, os maçons cubanos também passaram a enfrentar questões
relacionadas à liderança e aos rumos de sua própria comunidade.
Mais
de uma centena de maçons se reuniu em Havana para manifestar apoio a um líder
que, segundo as regras e interpretações apresentadas por seus participantes,
reconheciam como seu representante.
Independentemente
das disputas internas, o episódio chama atenção para uma questão que também
aparece na cerimônia de despedida: a responsabilidade individual diante das
decisões coletivas.
A
fraternidade não significa necessariamente pensar todos da mesma maneira. Ela
também pode envolver a capacidade de ouvir, refletir, respeitar posições
diferentes e participar das decisões que dizem respeito à comunidade.
A
corrente continua
Na
cerimônia, um elo da corrente se rompe.
O
irmão que partiu já não pode ocupar fisicamente o seu lugar entre os demais.
Não poderá apertar novamente a mão dos companheiros, participar de uma reunião
ou compartilhar uma conversa.
Mas
a corrente não desaparece.
Os
irmãos que permanecem continuam unidos. E carregam consigo uma parte da
história daquele que partiu.
Talvez
seja justamente aí que esteja uma das mensagens mais fortes da simbologia
maçônica diante da morte: a vida continua através dos valores que conseguimos
transmitir.
A
Luz, nesse sentido, não precisa ser entendida apenas como uma promessa sobre o
que existe depois da morte. Ela pode também ser compreendida como uma maneira
de viver antes dela.
Servir
sem esperar recompensa. Apoiar quem precisa. Reconhecer nas atitudes dos outros
aquilo que merece ser repetido. Aprender com os erros e com os acertos. E,
sobretudo, desenvolver a capacidade de pensar e decidir por si mesmo.
A
morte interrompe a presença de um homem, mas não necessariamente interrompe
aquilo que ele deixou.
A
corrente perde um elo, mas os demais permanecem unidos.
E talvez seja assim que a Maçonaria fale sobre a Luz: não como uma tentativa de negar a morte, mas como uma forma de navegar pela vida, deixando atrás de si exemplos capazes de iluminar o caminho daqueles que continuam a caminhada.
Fonte: Havana Times. Texto adaptado e desenvolvido para publicação em O Malhete.
Publicação: O Malhete — Informativo Maçônico, Político e Cultural.
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