210 - A Maçonaria e a Luz: quando a morte interrompe um elo da corrente

Da Redação

Para a Maçonaria, a morte não representa necessariamente um fim, mas uma passagem. O adeus a um irmão se transforma em reflexão sobre fraternidade, memória e a responsabilidade de continuar praticando o bem.

Uma loja maçônica é um espaço marcado por símbolos. Cada objeto, cada gesto e cada cerimônia possui um significado que ultrapassa o momento em que é realizado. A fraternidade, o serviço, a disciplina e a busca pelo aperfeiçoamento pessoal fazem parte de uma tradição que procura ensinar que os valores aprendidos no templo devem ser levados para a vida.

Entre esses símbolos está a corrente de união, formada pelos irmãos de uma Loja. Seus elos representam a fraternidade e a ligação que existe entre aqueles que compartilham os mesmos princípios.

Em um domingo de despedida, porém, essa corrente sofre uma ruptura.

A Loja está vestida de branco. As velas são acesas, o incenso é queimado, as orações são pronunciadas e os aventais permanecem preparados. Os irmãos se reúnem para prestar sua última homenagem a um homem que partiu para o chamado Eterno Oriente, expressão tradicionalmente utilizada na Maçonaria para designar a morte.

A cerimônia é solene e carregada de simbolismo.

Em determinado momento, acontece uma das passagens mais marcantes: os irmãos batem três vezes no caixão e chamam pelo irmão que partiu.

Mas não há resposta.

O silêncio evidencia aquilo que todos já sabem. Um dos elos da corrente deixou de estar fisicamente presente.

A ausência que permanece

A morte abre uma lacuna na comunidade. Porém, para a tradição maçônica, a ausência física não significa necessariamente desaparecimento.

Permanecem o nome, as lembranças, as palavras, os ensinamentos e, principalmente, os exemplos deixados ao longo da vida.

Uma boa ação praticada por um homem pode inspirar outro. Um gesto de solidariedade pode ser repetido. Uma palavra de fraternidade pode continuar sendo transmitida. Dessa maneira, aquele que partiu permanece presente naquilo que ensinou e inspirou.

Essa talvez seja uma das dimensões mais profundas de uma cerimônia fúnebre maçônica: lembrar que a vida de cada pessoa também se prolonga nas consequências de seus atos.

Fazer o bem não transforma apenas aquele que recebe a ajuda. Também transforma quem pratica a ação.

A força de uma comunidade

O relato sobre a cerimônia ganha ainda outro significado quando situado na realidade cubana.

Em uma sociedade na qual muitos espaços tradicionais de encontro e pertencimento foram desaparecendo ou se enfraquecendo ao longo do tempo, uma Loja maçônica pode representar algo aparentemente simples, mas cada vez mais valioso: uma comunidade.

Um espaço onde homens se encontram, reconhecem-se como irmãos e assumem responsabilidades uns pelos outros.

Nesse ambiente, a fraternidade deixa de ser apenas uma palavra ou um conceito abstrato. Ela se manifesta na presença, na solidariedade e na disposição de apoiar aquele que necessita.

A morte de um irmão, portanto, não é apenas uma despedida individual. É também um momento em que a própria comunidade é chamada a refletir sobre seus vínculos.

O direito de decidir

Nos últimos meses, os maçons cubanos também passaram a enfrentar questões relacionadas à liderança e aos rumos de sua própria comunidade.

Mais de uma centena de maçons se reuniu em Havana para manifestar apoio a um líder que, segundo as regras e interpretações apresentadas por seus participantes, reconheciam como seu representante.

Independentemente das disputas internas, o episódio chama atenção para uma questão que também aparece na cerimônia de despedida: a responsabilidade individual diante das decisões coletivas.

A fraternidade não significa necessariamente pensar todos da mesma maneira. Ela também pode envolver a capacidade de ouvir, refletir, respeitar posições diferentes e participar das decisões que dizem respeito à comunidade.

A corrente continua

Na cerimônia, um elo da corrente se rompe.

O irmão que partiu já não pode ocupar fisicamente o seu lugar entre os demais. Não poderá apertar novamente a mão dos companheiros, participar de uma reunião ou compartilhar uma conversa.

Mas a corrente não desaparece.

Os irmãos que permanecem continuam unidos. E carregam consigo uma parte da história daquele que partiu.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das mensagens mais fortes da simbologia maçônica diante da morte: a vida continua através dos valores que conseguimos transmitir.

A Luz, nesse sentido, não precisa ser entendida apenas como uma promessa sobre o que existe depois da morte. Ela pode também ser compreendida como uma maneira de viver antes dela.

Servir sem esperar recompensa. Apoiar quem precisa. Reconhecer nas atitudes dos outros aquilo que merece ser repetido. Aprender com os erros e com os acertos. E, sobretudo, desenvolver a capacidade de pensar e decidir por si mesmo.

A morte interrompe a presença de um homem, mas não necessariamente interrompe aquilo que ele deixou.

A corrente perde um elo, mas os demais permanecem unidos.

E talvez seja assim que a Maçonaria fale sobre a Luz: não como uma tentativa de negar a morte, mas como uma forma de navegar pela vida, deixando atrás de si exemplos capazes de iluminar o caminho daqueles que continuam a caminhada.

Fonte: Havana Times. Texto adaptado e desenvolvido para publicação em O Malhete.

Publicação: O Malhete — Informativo Maçônico, Político e Cultural.

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