Por Luiz Sérgio Castro
Vivemos em uma época em que nunca foi tão fácil
acessar informações. Com poucos toques na tela de um smartphone, podemos
encontrar livros, artigos, vídeos, citações, pesquisas históricas e conteúdos
sobre praticamente qualquer assunto. Para a Maçonaria, essa realidade
representa uma oportunidade extraordinária — mas também um desafio: ter
acesso à informação não significa necessariamente possuir conhecimento.
Essa é a reflexão central de um artigo publicado em
26 de agosto de 2026 pelo portal francês 450 fm, de autoria de Rosmunda
Cristiano, em colaboração especial e originalmente divulgado pelo italiano Expartibus.
O texto, intitulado “Frères éclairés… depuis le smartphone” (“Irmãos
esclarecidos... pelo smartphone”), faz uma crítica à superficialidade com que
determinados conhecimentos maçônicos são consumidos e reproduzidos no ambiente
digital.
A facilidade de copiar não significa saber
Um dos problemas apontados pela autora é a
disseminação de frases atribuídas a filósofos, escritores e personalidades sem
que suas fontes sejam verificadas. Uma citação aparece nas redes sociais, é
compartilhada inúmeras vezes e, depois de algum tempo, passa a ser considerada
verdadeira simplesmente porque foi repetida muitas vezes.
O problema não está apenas em quem erra de boa-fé.
Existe também uma cultura digital que privilegia a velocidade da publicação em
detrimento da pesquisa. No universo maçônico, essa situação merece atenção
especial, porque símbolos, conceitos filosóficos, tradições e referências
históricas não deveriam ser tratados como simples frases prontas para
publicação.
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Como observa Cristiano, até mesmo para copiar
corretamente é necessário algum conhecimento.
Informação não é conhecimento
O smartphone democratizou o acesso à informação,
mas criou também uma espécie de paradoxo: podemos saber um pouco sobre milhares
de assuntos sem compreender profundamente praticamente nenhum deles.
A lógica das redes sociais favorece o consumo
rápido. Uma imagem com uma frase famosa recebe mais atenção do que dezenas de páginas
de um livro. Um vídeo de poucos segundos pode alcançar milhares de pessoas,
enquanto uma pesquisa histórica cuidadosa permanece praticamente desconhecida.
Para a Maçonaria, esse fenômeno é particularmente
importante.
A Ordem possui uma tradição fundamentada em
símbolos, alegorias, filosofia, história e reflexão. Portanto, conhecer
verdadeiramente seus ensinamentos exige tempo, leitura e disposição para
estudar.
Não basta conhecer os nomes dos graus, dos ritos,
das colunas ou dos símbolos. É preciso procurar compreender seus significados
e, principalmente, refletir sobre a maneira como esses ensinamentos podem
contribuir para a transformação do próprio indivíduo.
O verdadeiro Templo também é interior
O artigo de Rosmunda Cristiano recupera uma ideia
atribuída à tradição socrática: o conhecimento começa pelo reconhecimento da
própria ignorância.
Essa perspectiva possui uma profunda afinidade com
a proposta iniciática.
O maçom não deveria estudar para acumular
informações ou demonstrar superioridade intelectual diante dos demais. O estudo
deveria ser instrumento de aperfeiçoamento.
O Templo físico é importante como espaço simbólico
e ritualístico. Mas existe outro templo, aquele que cada iniciado constrói
dentro de si.
É nesse espaço interior que ocorre o verdadeiro
trabalho maçônico.
Por isso, quanto mais alguém estuda, mais deveria
perceber a complexidade dos assuntos que ainda desconhece. A segurança
excessiva em afirmar verdades absolutas pode, paradoxalmente, ser sinal de
pouco conhecimento.
O perigo do “conhecimento de vitrine”
Outro aspecto relevante levantado no artigo é
aquilo que poderíamos chamar de “exibicionismo simbólico”.
Nas redes sociais, tornou-se relativamente fácil
publicar imagens de templos, símbolos, ferramentas, frases filosóficas e
referências ao esoterismo. Entretanto, conhecer e compreender um símbolo são
coisas diferentes.
É possível publicar dezenas de imagens maçônicas
diariamente e, ainda assim, não realizar um estudo consistente sobre aquilo que
elas representam.
O problema não está em divulgar a Maçonaria. Pelo
contrário: a comunicação digital pode ser uma excelente ferramenta para
aproximar a sociedade da história, da filosofia e dos valores maçônicos.
O cuidado necessário está em não transformar
conhecimento em mera decoração.
Ler devagar em tempos de velocidade
O artigo também recupera uma reflexão de Sêneca
sobre a quantidade excessiva de livros e a necessidade de selecionar aquilo que
realmente conseguimos ler e compreender. A ideia pode ser perfeitamente
transportada para o mundo digital: o excesso de conteúdo pode produzir
dispersão em vez de conhecimento.
O chamado scroll infinito — aquela sucessão
interminável de conteúdos que consumimos deslizando a tela — oferece
constantemente algo novo, mas raramente nos convida a permanecer tempo
suficiente diante de uma ideia.
Na Maçonaria, entretanto, muitas ideias exigem
justamente o contrário: tempo de maturação.
Um bom livro pode exigir semanas de leitura. Uma
obra filosófica pode necessitar de releituras. Um símbolo pode provocar
perguntas durante anos.
O conhecimento iniciático não precisa ser rápido.
Precisa ser profundo.
Estudar antes de compartilhar
Talvez uma das maiores contribuições dessa reflexão
seja uma pergunta extremamente simples:
Antes de compartilhar uma informação maçônica, nós
verificamos se ela é verdadeira?
A pergunta deveria fazer parte da rotina de
qualquer pessoa que produza conteúdo sobre a Maçonaria.
Quem escreveu aquela frase?
A obra realmente existe?
A citação corresponde ao pensamento original do
autor?
A informação histórica possui fonte confiável?
O símbolo apresentado possui realmente aquela
interpretação?
Essas perguntas são pequenas, mas representam uma
grande diferença entre informar e desinformar.
No ambiente digital, compartilhar tornou-se tão
fácil que muitas vezes esquecemos que a responsabilidade pela informação também
é nossa.
A Maçonaria precisa de leitores, não apenas de
usuários
A reflexão proposta por Rosmunda Cristiano pode ser
ampliada para toda a comunidade maçônica.
Uma Maçonaria culturalmente fortalecida precisa
incentivar seus membros a ler, pesquisar, comparar fontes, conhecer sua história
e dialogar com diferentes correntes filosóficas.
Não se trata de transformar cada maçom em
especialista acadêmico. Trata-se de recuperar uma característica fundamental da
tradição maçônica: a disposição permanente para aprender.
O conhecimento não deveria ser utilizado como
instrumento de vaidade, mas como ferramenta de aperfeiçoamento.
Nesse sentido, talvez a pergunta mais importante
não seja “quanto eu sei sobre Maçonaria?”, mas:
“Quanto daquilo que afirmo saber eu realmente
estudei?”
A tecnologia pode ser parte da solução
O smartphone, portanto, não deve ser visto como
inimigo do conhecimento maçônico.
Ele pode ser uma biblioteca, uma sala de aula, uma
ferramenta de pesquisa e uma ponte para aproximar pessoas de grandes obras e
autores.
O problema não está no aparelho. Está na maneira
como o utilizamos.
Podemos usar o smartphone para passar horas
consumindo conteúdos superficiais ou podemos utilizá-lo para ler um livro,
consultar uma fonte histórica, ouvir uma palestra, estudar filosofia ou
conhecer documentos importantes da história da Maçonaria.
A tecnologia oferece a ferramenta. A profundidade
depende de nós.
A verdadeira luz não está na tela
A expressão “irmãos esclarecidos pelo smartphone”,
utilizada no título do artigo original, pode ser interpretada como uma
provocação.
A luz maçônica não deveria ser confundida com a
luminosidade de uma tela.
A verdadeira iluminação é intelectual e, sobretudo,
interior. Ela nasce da busca, da dúvida, da reflexão e da disposição para
reconhecer que sempre existe algo mais a aprender.
Em tempos de inteligência artificial, algoritmos,
vídeos curtos e informação instantânea, talvez a Maçonaria tenha justamente uma
contribuição importante a oferecer: ensinar novamente o valor da pausa, da
reflexão e do estudo profundo.
Antes de compartilhar, verificar.
Antes de afirmar, pesquisar.
Antes de ensinar, estudar.
E antes de julgar quem sabe menos, lembrar que todo
verdadeiro buscador do conhecimento começa reconhecendo que ainda tem muito a
aprender.

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