Da Redação
A recente despedida do ex-ministro e senador
francês François Patriat trouxe à tona, mais uma vez, os complexos — e muitas
vezes contraditórios — debates sobre as relações entre a Igreja Católica e a
Ordem Maçônica. Patriat, que faleceu no último dia 19 de agosto aos 83 anos em
decorrência de um acidente de bicicleta, teve sua cerimônia fúnebre presidia
pessoalmente pelo Arcebispo de Dijon, Dom Antoine Hérouard.
O ato ocorreu na igreja colegiada de Notre-Dame
de Semur-en-Auxois, em Côte-d'Or, e contou com a presença ostensiva do
presidente francês Emmanuel Macron, de quem Patriat era aliado histórico e
peça-chave desde os primeiros passos do movimento En Marche. Dentro do próprio
templo, Macron proferiu um emocionante elogio fúnebre ao amigo, destacando sua
lealdade incondicional: "Para onde quer que eu me virasse, François estava
lá".
Contudo, a celebração em solo francês contrasta
de forma marcante com decisões tomadas na Itália neste mesmo mês. Em Roma, o
Cardeal Baldassare Reina negou os ritos fúnebres eclesiásticos ao músico e
maçom Bruno Battisti D'Amario. Simultaneamente, o Bispo de Ventimiglia-San
Remo, Dom Antonio Suetta, adotou a mesma postura rígida ao recusar as exéquias
católicas a Mario Tarducci, antigo Venerável Mestre de uma loja maçônica.
O Que Diz a Doctrina Eclesiástica
A discrepância entre a postura da Arquidiocese
de Dijon e os bispos italianos reabre o debate sobre a aplicação do Código de
Direito Canônico. Do ponto de vista doutrinário, a posição do Vaticano
permanece inequívoca:
Incompatibilidade
Histórica: A Declaração sobre as Associações Maçónicas (1983), assinada pelo
então Cardeal Joseph Ratzinger e aprovada por São João Paulo II, reafirma que
os princípios da Maçonaria seguem incompatíveis com a fé católica, proibindo a
filiação de fiéis sob pena de pecado grave.
Reafirmação
Recente: Em novembro de 2023, sob a anuência do Papa Francisco, o Dicastério
para a Doutrina da Fé reiterou a proibição em resposta a uma consulta da
diocese de Dumaguete, nas Filipinas.
A Regra
Canônica: O Cânon 1184 determina que funerais eclesiásticos devem ser negados a
"pecadores manifestos" cujas cerimônias possam causar escândalo
público aos fiéis, salvo sinal explícito de arrepender-se antes da morte.
Transparência e Critérios
A filiação de François Patriat ao Grande
Oriente da França era de conhecimento público há anos — noticiada por veículos
como L'Express e Le Monde, inclusive vinculada às primeiras visitas de Macron à
maçonaria em 2016 e 2017.
Até o momento, não foram divulgados
publicamente os critérios ou eventuais circunstâncias particulares que Dom
Antoine Hérouard considerou ao decidir presidir pessoalmente os ritos católicos
do senador. O episódio deixa no ar reflexões profundas sobre a interpretação
pastoral, a influência política no meio eclesiástico e as nuances da diplomacia
institucional no continente europeu.


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