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A
relação entre a Maçonaria e o colonialismo europeu volta a provocar um debate
incômodo, mas necessário: como uma instituição que proclama os ideais de
liberdade, igualdade e fraternidade pôde, em determinados momentos da história,
conviver com membros que participaram ou defenderam projetos de dominação
colonial?
A
questão foi retomada recentemente pelo portal argentino PARVÍS, a partir do
debate sobre o passado colonial francês e da possibilidade de que instituições
maçônicas reconheçam responsabilidades históricas de alguns de seus
integrantes.
Entre
os ideais e a realidade
A
história da Maçonaria não é linear. Ao longo dos séculos, homens pertencentes à
Ordem assumiram posições políticas profundamente diferentes, inclusive sobre a
colonização.
Na
França, por exemplo, figuras políticas ligadas à Maçonaria participaram da
administração colonial. Entre elas estava Jules Ferry, primeiro-ministro
francês que, em 1885, defendeu publicamente argumentos de caráter racial para
justificar a expansão colonial.
Mas
a mesma história apresenta maçons que combateram o colonialismo e defenderam a
emancipação dos povos submetidos ao domínio europeu. Essa diversidade torna
inadequada qualquer tentativa de atribuir à Maçonaria, como instituição única,
uma posição uniforme diante do imperialismo.
O
caso da Argélia
A
Guerra da Argélia revelou de maneira particularmente evidente essas
contradições.
Dentro
do Grande Oriente da França, uma das principais obediências maçônicas do país,
havia lojas favoráveis à manutenção da chamada “Argélia francesa”, enquanto
outras defendiam o direito dos argelinos à independência.
A
divisão demonstra que a Maçonaria não esteve isolada das grandes disputas
políticas de seu tempo. Seus integrantes carregavam para dentro das lojas as
convicções, contradições e conflitos existentes na sociedade.
A
experiência britânica na Índia
O
caso britânico apresenta outra dimensão.
Segundo
o artigo do PARVÍS, a Maçonaria chegou à Índia no século XVIII acompanhando
agentes da Companhia das Índias Orientais. As lojas tornaram-se espaços de
sociabilidade entre comerciantes, militares, administradores e outros
integrantes da estrutura imperial.
Em
determinados períodos, a própria condição de maçom podia facilitar contatos
comerciais e relações de confiança entre viajantes e comerciantes que
circulavam pelo vasto território do Império Britânico.
Os
chamados certificados maçônicos funcionavam, nesse contexto, como uma forma de
reconhecimento entre irmãos, permitindo ao portador ser identificado em
diferentes portos e comunidades maçônicas.
Essa
utilização prática da fraternidade revela uma questão importante: instituições
universais podem assumir funções muito diferentes dependendo do contexto
histórico em que estão inseridas.
Fraternidade
e escravidão
Talvez
o exemplo mais contundente dessa contradição esteja relacionado à escravidão.
Em
2001, importantes obediências francesas reconheceram oficialmente a
participação de alguns de seus membros no tráfico de escravizados e na
exploração colonial. O reconhecimento ocorreu no contexto da legislação
francesa que classificou a escravidão como crime contra a humanidade e das
discussões internacionais sobre racismo.
A
declaração reconheceu uma contradição difícil de ignorar: enquanto a Maçonaria
proclamava os princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, alguns de seus
integrantes estavam envolvidos na exploração de seres humanos.
Ao
mesmo tempo, o reconhecimento não apagou a existência de maçons que lutaram
contra a escravidão. Um dos exemplos lembrados é Victor Schœlcher, importante
abolicionista francês e defensor da emancipação dos escravizados.
Essa
distinção é fundamental. Reconhecer que determinados maçons participaram de
práticas condenáveis não significa afirmar que a totalidade da instituição ou
todos os seus membros compartilhavam dessas posições.
Deve
a Maçonaria pedir perdão pelo colonialismo?
É
justamente nesse ponto que surge a pergunta mais delicada.
Se
as instituições maçônicas francesas já reconheceram a participação de alguns de
seus membros no sistema escravista, seria necessário um gesto semelhante em
relação ao colonialismo?
Não
existe uma resposta simples.
Uma
posição sustenta que reconhecer os erros históricos fortalece a credibilidade
da Maçonaria contemporânea. Se a fraternidade pretende defender universalmente
a dignidade humana, deveria ser capaz de olhar também para os momentos em que
seus próprios integrantes se afastaram desses princípios.
Outra
perspectiva entende que a questão deve permanecer prioritariamente no campo da
investigação histórica, evitando atribuir às instituições atuais uma culpa
coletiva por acontecimentos protagonizados por indivíduos em contextos
políticos e sociais completamente diferentes.
Talvez
a solução esteja justamente entre essas duas posições.
O
verdadeiro peso da culpa
A
Maçonaria trabalha simbolicamente com a ideia de aperfeiçoamento. O maçom é
chamado a reconhecer suas imperfeições, corrigir seus erros e buscar
constantemente a construção de um homem melhor.
Aplicado
à própria instituição, esse princípio pode adquirir uma dimensão ainda maior.
Reconhecer
erros históricos não significa necessariamente assumir uma culpa coletiva.
Significa, antes de tudo, compreender o passado, identificar suas contradições
e impedir que determinados comportamentos sejam novamente legitimados.
A
História não deve ser utilizada apenas para condenar os homens do passado. Ela
também deve servir para compreender como pessoas que defendiam determinados
ideais puderam, simultaneamente, aceitar práticas incompatíveis com esses
mesmos princípios.
Essa
talvez seja a grande lição do debate sobre Maçonaria e colonialismo.
Uma
reflexão para a Maçonaria contemporânea
A
questão permanece aberta e provavelmente continuará provocando discussões
dentro e fora das lojas.
A
Maçonaria construiu parte importante de sua identidade em torno da fraternidade
universal. Por isso, examinar criticamente sua própria história pode ser mais
do que um exercício acadêmico: pode ser uma oportunidade de reafirmar seus
princípios.
O
passado não pode ser modificado. Mas pode ser estudado, reconhecido e
compreendido.
Talvez
o verdadeiro peso da culpa não esteja apenas em admitir que alguns irmãos
erraram, mas na incapacidade de aprender com esses erros.
Para
uma instituição que tem como uma de suas maiores referências simbólicas a
construção do Templo, reconhecer as imperfeições das próprias pedras pode ser o
primeiro passo para reconstruí-las.
Fonte:
PARVÍS, El peso de la culpa frente a los sometidos, publicado em 13 de
agosto de 2026. (PARVÍS)
Fonte
de inspiração mencionada pelo artigo: 450.fm, La Franc-maçonnerie et le
colonialisme : Le temps n’est-il pas venu de faire acte de repentance ? (PARVÍS)

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