Um Maçom no Comitê do Vaticano

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UM MAÇOM NO COMITÊ DO VATICANO

A nomeação do historiador italiano Umberto Longo para o Pontifício Comitê de Ciências Históricas, anunciada pela Santa Sé em 13 de agosto de 2026, chama atenção não apenas pelo currículo acadêmico do professor, mas também por sua trajetória documentada no universo maçônico italiano. O caso ganhou destaque após reportagem da InfoVaticana, que apresentou documentos publicados pelas próprias organizações maçônicas italianas.

Um historiador de prestígio

Umberto Longo é professor catedrático de História Medieval na Universidade La Sapienza de Roma e diretor do Istituto Storico Italiano per il Medioevo (ISIME). Sua carreira acadêmica inclui doutorado em História do Cristianismo e das Igrejas, passagem pela Universidade de Pisa e, desde 2021, a condição de professor titular na Sapienza.


Sua atuação está fortemente ligada à pesquisa sobre a Idade Média, história religiosa, santidade, hagiografia e instituições da sociedade cristã medieval. Também dirige importantes projetos de pesquisa, entre eles a edição crítica do epistolário de Santa Catarina de Sena.

A escolha de Longo não surgiu, portanto, de uma figura estranha ao ambiente das instituições históricas do Vaticano. O historiador já mantinha uma relação acadêmica institucional com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas.

Em 2024, Longo e o então presidente do Comitê, padre Marek Inglot, assinaram um acordo de cooperação entre o ISIME e o organismo pontifício para desenvolver projetos científicos e editoriais relacionados à história religiosa e à Igreja medieval.

A questão maçônica

O aspecto mais controverso da nomeação está na alegada e documentada participação de Longo na Maçonaria italiana.

Segundo a documentação reunida pela InfoVaticana, publicações oficiais ligadas ao Rito Escocês Antigo e Aceito identificaram Umberto Longo como “Fratello” — irmão — e registraram sua participação em estruturas maçônicas.

Em 2013, a revista Logos, publicação do Rito Escocês no Lazio, apresentou “Fr. Oratore Umberto Longo 4°”, indicando sua função de Orador e seu grau dentro da estrutura maçônica. A mesma publicação reproduziu trabalhos assinados por ele como irmão e integrante daquela organização.

No ano seguinte, a documentação maçônica volta a apresentar Longo como “Fr. U. Longo 9°”, em um trabalho relacionado à tradição e à ritualidade do Rito Escocês. O próprio conteúdo, segundo a reportagem, é escrito na primeira pessoa e trata de experiências e deveres relacionados à condição maçônica.

A documentação prossegue em 2015, quando outra publicação do Rito Escocês apresenta novamente uma intervenção assinada por “Fr. U. Longo 9°”. Nela, o autor utiliza expressões na primeira pessoa do plural ao se referir aos “maçons e escoceses”.

Há ainda registros posteriores. Em 2019, o Grande Oriente d'Italia apresentou Umberto Longo como historiador e conferencista em um evento organizado pela Loja “Dio e Popolo”, em Roma.

Um caso que merece atenção histórica

É importante, entretanto, distinguir fato documentado, interpretação e opinião.

A documentação apresentada pela InfoVaticana oferece fortes evidências de que o historiador identificado nas publicações maçônicas como “Fr. Umberto Longo” é o mesmo professor da Universidade La Sapienza. A reportagem também observa que não encontrou, nas fontes públicas consultadas, registro de uma eventual saída de Longo da Maçonaria.

Isso não significa, porém, que se possa afirmar automaticamente qual é sua situação maçônica atual em 2026. A documentação pública demonstra uma vinculação continuada pelo menos até os registros mencionados na reportagem, mas uma eventual mudança posterior dependeria de confirmação do próprio interessado ou de documentação mais recente.

Essa distinção é particularmente importante quando se trata de uma personalidade acadêmica e de uma nomeação realizada pela Santa Sé.


O Comitê Pontifício de Ciências Históricas

O Pontifício Comitê de Ciências Históricas é um organismo da Santa Sé dedicado à pesquisa histórica e à colaboração com instituições acadêmicas. Sua origem remonta a 1954, quando foi formalmente constituído por decisão do papa Pio XII, dando continuidade a uma tradição de estudos históricos iniciada no século XIX.

O organismo possui uma perspectiva que ultrapassa a simples história institucional da Igreja. Em audiência aos seus membros, o papa Francisco destacou a importância do diálogo e da colaboração com historiadores e instituições acadêmicas para estudar não somente a história da Igreja, mas também a história da humanidade em sua relação com o cristianismo.

É nesse contexto que a nomeação de Longo deve ser compreendida.

O professor chega ao Comitê trazendo uma extensa experiência acadêmica e uma trajetória de pesquisa diretamente relacionada à história do cristianismo medieval. Sua colaboração anterior com o organismo pontifício demonstra que sua competência científica já era conhecida naquele ambiente.

A posição da Igreja diante da Maçonaria

A nomeação também ganha uma dimensão particular por causa da conhecida posição oficial da Igreja Católica sobre a Maçonaria.

A Declaração de 1983 da então Congregação para a Doutrina da Fé, assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger e aprovada por João Paulo II, afirmou que a participação dos católicos na Maçonaria permanece incompatível com a doutrina católica. Essa posição foi reiterada pelo Dicastério para a Doutrina da Fé em 2023.

Entretanto, há uma distinção importante: a própria reportagem observa que não consta publicamente que Umberto Longo seja católico. Além disso, o Pontifício Comitê de Ciências Históricas possui uma natureza acadêmica e científica, não sendo simplesmente um organismo reservado a membros do clero ou exclusivamente a católicos.

Por isso, a questão não deve ser reduzida à ideia de que a Santa Sé teria necessariamente nomeado um “maçom católico”. O ponto central é outro: um historiador cuja ligação com a Maçonaria italiana está documentada em fontes maçônicas foi escolhido para integrar um organismo pontifício dedicado à pesquisa histórica.

Um encontro entre dois mundos

O episódio possui um interesse especial para a própria historiografia maçônica.

Durante séculos, Igreja Católica e Maçonaria estiveram envolvidas em relações marcadas por conflitos, condenações, disputas políticas e diferentes interpretações sobre a sociedade e a religião. Ao mesmo tempo, ambas participaram, de maneiras distintas, da construção da história intelectual e política da Europa moderna.

A presença de um historiador identificado com a tradição maçônica em um organismo da Santa Sé coloca essas duas tradições diante de uma realidade contemporânea: a necessidade de investigar o passado utilizando métodos acadêmicos, documentação e crítica histórica.

Para a Maçonaria, o episódio também representa uma oportunidade de reflexão sobre a importância da formação intelectual de seus membros. Longo não aparece apenas como alguém ligado a uma organização iniciática, mas como um especialista reconhecido internacionalmente em História Medieval.

Para a Igreja, por sua vez, a escolha reforça a dimensão acadêmica e científica de seu trabalho historiográfico, ainda que inevitavelmente provoque questionamentos em razão da incompatibilidade doutrinal historicamente estabelecida entre a Igreja e a Maçonaria.

Mais do que uma polêmica

O caso Umberto Longo merece ser acompanhado com serenidade e rigor documental.

Mais importante do que transformar sua nomeação em uma disputa entre Igreja e Maçonaria é compreender o que ela revela sobre a relação entre história, instituições e diferentes tradições intelectuais.

A documentação disponível mostra que Longo possui uma carreira acadêmica sólida, uma ligação anterior com projetos do Pontifício Comitê de Ciências Históricas e uma trajetória maçônica registrada em publicações oficiais do ambiente maçônico italiano.

A partir daí, cabe aos pesquisadores e leitores acompanhar os próximos passos.

A nomeação feita pelo papa Leão XIV poderá transformar Umberto Longo em uma figura particularmente interessante para quem estuda as relações entre Maçonaria, Igreja Católica, historiografia e História Medieval.

E talvez a principal lição esteja justamente aí: quando diferentes tradições se encontram no campo da pesquisa histórica, o mais importante não deve ser o preconceito, mas a capacidade de examinar documentos, confrontar versões e buscar compreender o passado com espírito crítico.

Fonte principal: InfoVaticana, “Umberto Longo: um maçom designado para o Comitê Pontifício de Ciências Históricas”, 15 de agosto de 2026.

Fontes complementares: Santa Sé, Universidade La Sapienza de Roma e Istituto Storico Italiano per il Medioevo.





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