Maçonaria Em Pânico: Justiça Ameaça Quebrar 225 Anos de Segredo do Grande Oriente Lusitano

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Da Redação

Pela primeira vez em mais de dois séculos de história, a mais antiga e poderosa obediência maçónica portuguesa terá de se explicar perante a justiça profana. E o temor nos corredores do Palácio Maçónico, em Lisboa, é de que essa seja a primeira rachadura numa muralha de secretismo que se manteve intacta desde 1802.

O abalo foi provocado por um acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, datado de 7 de julho. Três juízas - Carla Figueiredo, Maria Teresa Catrola e Amélia Loupo - decidiram que o Grande Oriente Lusitano (GOL), mesmo sem personalidade jurídica, tem personalidade judiciária e, por isso, não pode continuar a refugiar-se por trás da sua associação patrimonial para evitar os tribunais do Estado.

Na prática, o GOL vai ter de se sentar no banco dos réus já em setembro.

A reação interna foi imediata. Segundo apurou o jornal SOL junto de várias fontes maçónicas, o grão-mestre Fernando Cabecinha prepara uma convocatória geral para o início de setembro - logo após o habitual encerramento de agosto - reunindo os principais órgãos da obediência: Grande Conselho Maçónico, Conselho da Ordem e Grande Tribunal Maçónico. O objetivo é definir uma estratégia comum, jurídica e institucional, para conter os danos.

Contactado pelo SOL, Cabecinha foi lacónico: não se pronuncía "enquanto o processo estiver a decorrer". Nos bastidores, porém, a surpresa é total. "Em 225 anos de vida, isto nunca tinha acontecido", resume um maçom ouvido pelo jornal. Outro é mais gráfico: "As portas do GOL foram abertas. Tudo aquilo que era discreto corre agora o risco de deixar de o ser".

O fim da "carapaça" chamada Grémio Lusitano

Até aqui, a arquitetura jurídica da maçonaria portuguesa funcionava em dois planos. De um lado, o Grémio Lusitano - associação sem fins lucrativos, com escritura e NIF, que detém e gere o património. É ela que aparece nos contratos e que, quando necessário, dá a cara em tribunal.

Do outro, o GOL propriamente dito - onde tudo realmente acontece: os rituais, as 103 lojas e os seus "veneráveis", o parlamento interno chamado Grande Dieta, o governo diário entregue ao Conselho da Ordem, a justiça própria do Grande Tribunal Maçónico, as regras de eleição do grão-mestre, os nomes simbólicos. Esse universo sempre viveu à margem do mundo profano, sem ter de prestar contas.

O acórdão da Relação desmonta essa separação. Aceitando a tese dos autores da ação, as juízas escrevem que o Grémio Lusitano funciona "como carapaça do GOL". E ao revogar a decisão da primeira instância - que tinha absolvido o GOL e deixado apenas o Grémio no processo - determinaram que a obediência maçónica tem de responder diretamente.

Para muitos irmãos, o precedente é aterrador. Se qualquer sanção interna, qualquer decisão disciplinar, puder ser contestada num tribunal civil, toda a estrutura de autogoverno maçónica fica exposta. Há mesmo quem tema, segundo o SOL, a quebra do anonimato e a divulgação dos nomes civis dos cerca de 2.400 membros atuais.

Tráfico de graus e a Loja Egrégora de Coimbra

O processo que abriu esta Caixa de Pandora foi movido por cinco maçons da extinta Loja Egrégora, de Coimbra, irradiados em 2023. Internamente, foram acusados pelo Grande Tribunal Maçónico - então presidido pelo advogado Francisco Pimentel, com Agostinho Batista e Manuel Pinto dos Santos entre os juízes, e tendo como acusador o conservador-geral de Justiça Vitor Santos Oliveira - de "tráfico de graus maçónicos, violação dos compromissos assumidos e a prática por ação e omissão de ações desonrosas".

No documento interno da condenação, os cinco surgiam apenas pelos seus nomes simbólicos: Eloy de Matos, Alexander Fleming, Antero de Quental, António Dias, Leonardo da Vinci e Churchill. Na Relação, já surgem com os nomes civis: António Martins Ferreira, Camilo Cruz, António Sequeira, João Almeida e Rui Lopes Dias.

Eles negam tudo e pedem a anulação da expulsão, alegando falta de contraditório e outras irregularidades processuais, além de uma indemnização conjunta de cerca de 35 mil euros - seis mil euros para cada um, acrescidos de juros.

Se vencerem em setembro, o efeito pode ser em cascata. Só no ano passado, de acordo com dados internos citados pelo SOL, 15 maçons foram expulsos. Todos poderiam agora invocar o mesmo caminho.

O retrato da maçonaria num acórdão profano

O que mais chocou os maçons não foi apenas a decisão em si, mas o nível de detalhe com que o acórdão descreve a organização interna.

As juízas explicam, por exemplo, que o grão-mestre - atualmente Fernando Cabecinha - é eleito por três anos e é "o garante da fraternidade maçónica", assessorado pelo Grande Conselho Maçónico. Que a Grande Dieta é o "órgão soberano e legislativo", de legislatura anual, onde "têm assento todas as lojas". Que o Conselho da Ordem é o "órgão executivo", responsável pela "administração e gestão quotidiana do GOL", presidido pelo grão-mestre e composto por grão-mestres adjuntos e quatro grandes conselheiros eleitos trienalmente. E que o Grande Tribunal Maçónico "é o órgão de cúpula de justiça maçónica constituindo-se como tribunal de apelo das lojas e dos seus obreiros".

Hoje, esse tribunal é liderado por Manuel Pinto dos Santos, coadjuvado por nomes como Agostinho Batista, Nuno Gonçalves e João Paulo Marques.

Para o mundo profano, são informações quase didáticas. Para dentro do templo, é a exposição pública de um organograma que sempre se quis reservado.

Nos bastidores do GOL, as culpas dividem-se. Uns apontam a "fragilidade do processo interno" que conduziu à expulsão dos irmãos de Coimbra. Outros são mais duros com os próprios autores da ação: ao levarem o GOL para a justiça civil, teriam cometido um segundo e mais grave crime maçónico - o de quebrar o juramento de nunca expor a Ordem ao exterior.

Uma coisa é certa: em setembro, quando Fernando Cabecinha reunir os seus conselhos, não estará em jogo apenas a reintegração de cinco homens. Estará em discussão se a maçonaria portuguesa pode continuar a ser julgada apenas por si mesma.

Esse artigo é baseado em materia publicada na fonte abaixo;

Fonte: JORNAL SOL https://bit.ly/4yGUSoS





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