Por Pierre d’Allergia
A Maçonaria se aproxima de um impacto histórico
ainda pouco percebido em seu interior. Trata-se de uma transformação
simultaneamente tecnológica, econômica, social e até antropológica, cuja
intensidade tende a tornar modestas as mudanças vividas ao longo do século XX.
Transporte, formas de trabalho, circulação do dinheiro, produção de
conhecimento, relações entre gerações — tudo está sendo redefinido em ritmo
acelerado. E a Maçonaria, queira ou não, será inevitavelmente envolvida por
essa onda.
Para entender o grau de descompasso atual,
basta recordar a chegada do automóvel no início do século passado.
Profissionais ligados ao universo dos cavalos resistiram com veemência:
protestaram, criticaram, tentaram impedir o avanço. Nada adiantou. O progresso
seguiu seu curso, indiferente às resistências.
Hoje, diante da inteligência artificial, da
robótica humanoide e das tecnologias quânticas, vivemos uma revolução muito
mais profunda. Ainda assim, dentro de muitos ambientes maçônicos, permanece uma
sensação de conforto e estabilidade, como se o mundo exterior não estivesse
passando por uma mudança estrutural. Debates internos, muitas vezes
superficiais ou excessivamente ideologizados, ocupam o espaço que poderia ser
dedicado à reflexão estratégica.
Enquanto isso, o mundo avança em escala
exponencial. A expansão da internet nas últimas décadas é um exemplo claro: de
alguns milhares de sites nos anos 1990 para bilhões atualmente. A robótica
caminha na mesma direção, com crescimento acelerado e impactos cada vez mais
visíveis no cotidiano humano. Em poucos anos — não séculos —, o cenário social
e econômico será profundamente diferente.
Diante dessa transformação global, surge uma
pergunta inevitável: qual é a preparação da Maçonaria para o futuro? Quem está
refletindo seriamente sobre os impactos dessas mudanças no recrutamento, na
formação iniciática, na sustentabilidade das instituições e na própria
relevância dos rituais? A impressão é que poucos estão, de fato, atentos a
essas questões.
Discursos institucionais continuam sendo
proferidos, mas muitas vezes carecem de conexão com a realidade emergente. Ao
mesmo tempo, há quem se prenda ao passado, repetindo fórmulas antigas como se a
tradição, por si só, fosse suficiente para garantir relevância futura. Em
certos casos, observa-se também a priorização de interesses internos, cargos e
estruturas de poder em detrimento de uma visão mais ampla e estratégica.
Essa postura remete à ilusão de estabilidade —
como se nada estivesse mudando. Mas não está tudo calmo. Um grande movimento de
transformação já está em curso. E, se a Maçonaria permanecer voltada apenas
para disputas internas e resistências ao novo, corre o risco de perder espaço e
significado.
Preservar a tradição não é congelá-la no tempo.
Ser fiel aos princípios maçônicos não significa repetir mecanicamente práticas
concebidas em outro contexto histórico. A verdadeira fidelidade exige
compreensão, adaptação e visão de futuro.
O momento pede lucidez. É necessário sair da
zona de conforto e encarar com seriedade os desafios deste século. Caso
contrário, poderá chegar o tempo em que restará apenas reverenciar o passado —
como quem mantém viva a memória de algo que não soube evoluir.
Fonte: 450fm
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